Contente Apresenta: Detox Digital

Contente apresenta

Detox Digital

UMA IMERSÃO COLETIVA E UMA INVESTIGAÇÃO PESSOAL SOBRE O EXCESSO (DE CONSUMO) DE INFORMAÇÃO

Introdução

Um mundo
com menos telas

Um dia depois de voltar de uma viagem com a família, me inscrevi em um retiro de silêncio. A proposta era passar quatro dias sem celular nem internet e, principalmente, sem usar a voz. Achei que era tudo o que precisava. Paguei o retiro, a pousada, contei pra um amigo ou outro. A surpresa deles foi inevitável.

 

Alguns dias depois, comecei a pensar: por que resolvi fazer isso comigo? Nunca passei um único dia sem falar. Imagina quatro? O que era angústia virou pânico quando recebi as instruções. Entre tantas restrições, não era permitido levar livros. Socorro! Passada a agonia, pensei: vou. Qualquer coisa fujo, grito e sou expulsa, sei lá.

 

Na véspera do retiro, tive um dos piores dias do ano. Sabe quando uma nuvem negra se instala sobre a cabeça e absolutamente tudo te irrita? O dia seguinte não colaborou para uma mudança imediata. Tive que acordar às 6h e, às 7h, estar no metrô. Nada, no entanto, como ter que conversar com pessoas desconhecidas para forçar a volta da simpatia - fui de carona. Partimos, falantes, para o interior de São Paulo.

 

Chegamos em cima da hora da fala do guru. Deixamos as malas, desligamos o celular, fomos até o lugar onde 150 pessoas nos esperavam. Em pouquíssimo tempo, tudo mudou. E eu comecei a viver alguns dos dias mais intensos da minha vida.

“Quando você tem todo o tempo do mundo para olhar além de uma tela - ou de várias telas -

a vida ganha muito em beleza e magia.

mas cada textura diferente que tem nela”

Uma árvore não é só uma árvore,

Ficar em silêncio foi fácil demais. Sem celular, então, que beleza. No primeiro dia, até ouvi umas duas ou três vezes o barulho de um aparelho vibrando - ô, vício! Quando prestei mais atenção, percebi que era o mugido de uma vaca, haha. Na hora do jantar, mais uma diferença: não dava pra ficar conversando, ouvindo música, olhando o Instagram e o Snapchat. Eu tinha que comer, apenas comer. E quando você começa a fazer isso em todas as refeições, aguça absurdamente sua percepção.

 

Quando você tem todo o tempo do mundo para olhar além de uma tela - ou de várias telas - a vida ganha muito em beleza e magia. Uma árvore não é só uma árvore, mas cada textura diferente que tem nela. A dança dos passarinhos é um deslumbre. As chamas de uma fogueira acesa à noite ganham tantos contornos que você se lembra daquelas cenas lindas, de filmes inesquecíveis, que ainda dão um nó na garganta. Sem falar nas estrelas do céu e nas histórias que elas podem evocar. Me desculpem a hippiece…

 

Fazer uma coisa só por vez é um presente. Nos encoraja a olhar pra dentro, a ouvir a voz da gente, e não as milhões de outras que reverberam à nossa volta. Não é fácil nem simples, por vezes é tão doloroso que a gente nem chora - a gente uiva. É uma dor que só a gente entende.

 

O silêncio é a chave para as respostas que precisamos descobrir. E esse retiro era, realmente, tudo o que eu precisava. De volta à Matrix, liguei o celular e vi o bombardeio de mensagens no Whatsapp, notificações no Facebook, emails que não param de chegar. Pela primeira vez em muito tempo, olhei pra tudo aquilo sem angústia, sem pressa, sem vontade de dar conta. Passei o olho, respondi o que tive vontade, liguei pra alguns dos mais amados pra contar como tinha sido. Os dias seguintes foram passando nesse ritmo, e eu fui me sentido mais presente, feliz e silenciosa.

 

Fui fazer um retiro de silêncio, ganhei um detox digital. A reboque, não parei de cantar uma das músicas mais lindas da Gal. E então decidi compartilhar esses capítulos com vocês.

primeiro capítulo

INTERNET:
JANELA OU ESPELHO?

Quem nasceu antes da internet costuma se lembrar das primeiras vezes que fez uma busca no Cadê, bateu um papo no ICQ ou baixou uma foto do artista preferido para fazer uma camiseta no shopping. A conexão era discada, e cara, e a solução era esperar a madrugada. Você pagava apenas uma ligação telefônica e navegava por seis horas, depois de alguma insistência até o modem e o provedor se estabilizarem.

 

Naquela época, a internet era uma janela para o mundo. Ela nos permitia ouvir músicas de bandas que estavam a milhares de quilômetros de distância. Nos deixava a par do que estava acontecendo naquele país que mal sabíamos apontar no mapa. Nos convidava até a fazer um blog, deixando aquele diário, antes íntimo e guardado com códigos, ao alcance de poucos cliques. Em 2000, existiam cerca de 14 milhões de internautas no Brasil, segundo o Ibope. A sensação era de que dava para contar nos dedos quem estava por ali. Hoje, somos quase 100 milhões de pessoas conectadas, segundo dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).

 

Em 2004, o Orkut chegou e começou a mudar tudo. Na rede social do Google, criávamos nossos perfis, escolhíamos uma foto bonita, adicionávamos os amigos, deixávamos testemonials para eles, participávamos de comunidades tão maravilhosas como “Achei que era sorvete, mas era feijão”. Escrevíamos os livros, as músicas, os esportes de que gostávamos. Revelávamos nossa visão política, nossa crença religiosa. Olhávamos para dentro para escolher bem o que pinçar de nossa personalidade na hora de apresentá-la ao mundo. Foi o primeiro passo. Aquele que mudou tudo.

 

Como todo primeiro passo, ele nos levou para um caminho que desconhecíamos. Saímos das salas de bate-papo da madrugada para os grupos de Whatsapp, toda hora, o dia todo. Gastávamos horas baixando um filme e hoje gastamos a mesma quantidade de horas nas maratonas de séries. O tempo que usávamos para acessar a rede se transformou no tempo que usamos a rede - com a diferença de que ela não está mais no quartinho da sua casa, mas na palma da sua mão, toda hora, todo dia. O resultado é que estamos hiperconectados. O desejo de conexão foi substituído pela hiperconexão. Passamos o dia entre os e-mails, as incessantes notificações das redes sociais, a avalanche de notícias sobre os mais diversos assuntos do mundo que nos sentimos compelidos a acompanhar. Fomos soterrados por aquilo que amávamos tanto.

“Em 2000, existiam 14 milhões de internautas no Brasil, segundo o Ibope.

A sensação era de que dava para contar nos dedos

quem estava por ali”

A internet deixou de ser uma janela. Quando olhamos no espelho que criamos para nós mesmos, a imagem inspira mais agonia do que plenitude. Nos sentimos saturados. Refletimos sobre a relação que estabelecemos com aparelhos que já não podemos viver sem. Temos a certeza de que tudo é meio over. Lemos a notícia de que na China existe um centro de reabilitação para viciados em internet. Achamos graça, que exagero!

 

De repente vem outra sobre um hotel que desliga o wifi para que os hóspedes possam se reconectar com a natureza. Uma chave muda, e a gente começa a refletir sobre o uso que fazemos da tecnologia. Baixamos uma extensão para o navegador bloquear o feed do Facebook, um outro programa para fazer o diagnóstico de como passamos nosso tempo na rede. Até conseguimos deixar o celular de lado no fim de semana. A segunda-feira chega, e o looping eterno das centenas de estímulos que recebemos por dia volta com força total.

 

No ciclo de estímulo constante, uma hora o corpo dá sinais de cansaço. Concentrar-se é tarefa das mais difíceis. Quando foi a última vez que você fez apenas uma coisa por vez? Temos acesso a toda a informação do mundo, e tantas vezes ficamos na superficialidade. Estamos 24 horas online, e ainda assim nos sentimos sozinhos. Olhamos a vida do outro e a comparamos com a nossa… Por isso, chegou a hora de colocar a internet no divã para discutir a relação. A terapia é holística, e chega com a vontade de fazer um detox também. Tão em voga no mundo fitness, a dieta para eliminar toxinas do corpo ganha um paralelo digital.

Afinal

No passado recente, a internet era uma reunião de solidões, como em Perdido em Marte. Hoje, é o espelho das nossas angústias.

segundo capítulo

O PROBLEMA É O EXCESSO

Sempre houve mais informação do que somos capazes de processar. Excesso de informação é um termo que surge pela primeira vez nos anos 1950, reaparece nos anos 1980 e ganha força nos 2000, segundo Clay Johanson, autor de “A dieta da informação”, livro que traça um paralelo entre o consumo de comida e o de informação.

 

A expressão é reveladora, mas também engana. Como Johanson nos lembra sabiamente que ninguém morre de excesso de informação. Temos capacidade ilimitada de adquirir conhecimento. O problema, hoje, é que tentamos lidar com o conhecimento como se fôssemos máquinas. Ficamos com a sensação de que existe tanta coisa que precisamos saber que nem sabíamos que precisávamos!

 

O primeiro nó a desatar, portanto, é: não existe excesso de informação. Existe, sim, excesso de consumo de informação.

Separamos três frases

para explicar o problema.

Ellen estuda atenção plena, ou mindfulness, há 40 anos. Em poucas palavras, ter atenção plena é ser ativo ao perceber as coisas, ficar atento ao fato de que informação depende de contexto, entender que stress é bobagem e que nós temos mais controle sobre saúde e bem-estar do que nos damos conta. “Não tem nada na internet que nos afaste disso. Atenção plena não é uma função, um gadget, mas é uma maneira como você se engaja com o gadget e lida com a internet. A internet pode provocar atenção plena ou estupidez, depende de cada pessoa”, diz Ellen. As máquinas também não nos fazem perder a capacidade de ficarmos sozinhos, em silêncio. “Tem muita gente que reclama da esposa ou do marido, de amigos que estão sempre nos seus iPhones. Acredito que se alguém oferece uma conversa interessante, nutritiva, de apoio, então as pessoas deixariam de lado o tempo no telefone. Se eu quero que você preste atenção em mim, eu tenho que ser mais interessante.”

“Tem muita gente que reclama da esposa ou do marido, de amigos que estão sempre nos seus iPhones.

Acredito que se alguém oferece uma conversa interessante, nutritiva, de apoio, então as pessoas deixariam de lado o tempo no telefone.

eu tenho que ser mais interessante.”

Se eu quero que você preste atenção em mim,

Outro nó da questão é a diversidade de informação. “A maioria das pessoas não consome muita informação. Consome na verdade a mesma informação, aí, sim, em excesso”, diz Ronaldo Lemos, doutor em direito pela USP e especialista em mídia, propriedade intelectual e tecnologia. Segundo ele a maior parte dos "heavy users" passa boa parte do tempo em apenas alguns poucos sites ou aplicativos, que são acessados repetidamente. “Isso é excesso de tempo aplicado a algumas poucas atividades online. A maioria das pessoas não percebe, mas seus comportamentos estão se tornando cada vez mais uniformes. Fugir disso é essencial.”

 

Velocidade, qualidade e contexto são elementos a serem levados em conta, analisa Pedro Burgos, jornalista e mestre em digital pela CUNY (City University of New York). “O problema de consumir informação ‘rápido demais’ é que a gente precisa de um tempinho para digerir as coisas que a gente lê, ou questionar, ou colocar em perspectiva. Quando a gente lê um negócio e já abre outra aba pro próximo vídeo, perdemos isso. A ausência total de pausas, de momentos que estamos alheios a um fluxo grande de informações, é um grande problema. Não é à toa que as nossas grandes ideias, os momentos eureka, acontecem quando estamos no banho, por exemplo, um dos últimos lugares onde conseguimos ficar sem uma tela.”

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Ronaldo Lemos é doutor em direito pela USP

e especialista em mídia, propriedade intelectual e tecnologia

terceiro capítulo

SABER ESCOLHER É TER PODER

Informação pode ter efeitos psicológicos no corpo e influenciar na capacidade de tomar decisões. Se na dieta o sal, o açúcar e a gordura são vilões de uma vida mais saudável, o paralelo digital se apresenta na forma de afirmações. Consumimos notícias sem parar - mas apenas aquelas que confirmam nossas crenças. Quem quer ouvir a verdade quando pode ouvir que está certo? Clay Johanson é taxativo: uma dieta alimentar pobre em nutrientes pode trazer doenças e uma dieta de informação fraca, ignorância. “A internet é a única grande criadora de ignorância que a humanidade já inventou, como também é a única grande eliminadora dessas ignorâncias. É a nossa habilidade de filtrar informação que elimina a primeira e empodera a última”, diz.

 

Antes de entender se estamos conectados demais, precisamos entender no que nos conectamos. Com que ou com quais pessoas partilhamos nosso tempo no mundo virtual? Para quê? O que estamos buscando? “Nossa tendência é o automatismo, somos seres de hábitos e muitas vezes fazemos coisas movidos por demandas inconscientes. A internet possui espaços educativos e de troca de informações muito interessantes, porém há também uma disputa muito acirrada pelo tempo de ‘cérebro disponível’ dos internautas”, diz Cláudia Prioste, psicóloga e psicanalista.

 

Nas redes sociais o que mais torna as pessoas dependentes é a exploração das pulsões voyeurísticas e exibicionistas, acrescenta. “A maioria das pessoas gosta de ter suas fotos ou comentários curtidos no Facebook, assim como sentem satisfação ao acompanhar a vida alheia. As redes sociais exploram as necessidades de aceitação e de pertencimento, manipulando também nossas fantasias. É isso que cria uma mania de postar e de checar, compulsivamente, o número de curtidas e comentários.” Ela aponta que quanto mais nosso tempo é despendido nas conexões virtuais, maiores são as chances de lucro para inúmeras empresas. “Esse ‘psicopoder tecnológico’, bastante avançado ao monitorar nossos rastros digitais, é capaz de induzir hábitos e, assim, alterar nosso cotidiano, nossa relação com o tempo, com o espaço, com nosso próprio corpo e com as pessoas.”

“Obviamente qualidade é um negócio extremamente subjetivo, e você pode achar que um site com uma visão política extremamente polarizada é qualidade,

enquanto outra pessoa pode achar

uma outra fonte mais confiável.

os que validavam a qualidade e relevância de uma dada informação, fossem editores de um jornal ou bibliotecários.”

E esse é um dos problemas: estamos perdendo os tais gatekeepers,

Thiago Dória, que é  jornalista e pesquisador especializado em estratégia e inovação pelo MIT (Massachusetts Institute of Technology), completa: “Existe uma indústria online de conteúdo que ainda segue o modelo de negócio baseado em venda de publicidade e que tem interesse em nos manter imersos numa avalanche de informações. Por razões óbvias incentivam tal estado. Quanto mais as pessoas consomem informação, mais tempo passam online. Quanto mais tempo passam online, melhor para os anunciantes”.

 

O outro problema é a qualidade da informação, completa Pedro Burgos. “Obviamente qualidade é um negócio extremamente subjetivo, e você pode achar que um site com uma visão política extremamente polarizada é qualidade, enquanto outra pessoa pode achar uma outra fonte mais confiável. E esse é um dos problemas: estamos perdendo os tais gatekeepers, os que validavam a qualidade e relevância de uma dada informação, fossem editores de um jornal ou bibliotecários.” Se por um lado isso é ótimo, por outro precisamos de um esforço mental extra. “Há mais informação ‘ruim’ à disposição, mas também há mais coisas boas. A responsabilidade de distinguir uma e outra é nossa.”

 

Por último, há o contexto. “Não há mal algum em ver redes sociais ou vídeos engraçados, e isso é saudável. A questão é que quando temos acesso a tudo, o tempo todo, é difícil regrar, e nosso cérebro é péssimo em multitarefa”, diz Burgos. Poderíamos ter uma jornada de trabalho menor, se não passássemos tanto tempo de um link para outro, ou argumentando textões no Facebook. “Essa ideia de que com um smartphone estamos em todo lugar o tempo todo é muito sedutora, mas pode ser uma armadilha. Precisamos estabelecer algum tipo de autocontrole.”

 

O mundo digital é maravilhoso e infinito e ainda nos oferece coisas animadoras para ler, ver, rir com, contribuir e dividir com os outros. E ainda é de graça. “Ninguém consegue resistir a essa combinação. Somos como crianças sozinhas em uma loja de doces cujo dono foi embora e nosso pais não podem ser vistos”, diz David Baker, professor da The School of Life. Mas até as crianças ficam entediadas em lugares assim. “O problema é que todo esse estímulo digital parece ser útil como um contraponto às emoções negativas que sentimos em alguns momentos. A gente pode pensar em mascarar esse sentimento triste ficando online e ocupado, mas aquilo ainda vive dentro da gente, e algumas vezes precisamos nos afastar da tela para prestar mais atenção ao que acontece dentro.”

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Bia Granja é criadora do YouPix,

que já foi dos maiores sites e festivais dedicados à internet e agora se prepara para ser uma escola virtual

quarto capítulo

COMO FAZER O
SEU DIAGNÓSTICO?

Quando chega um email novo, o cérebro dispara dopamina, um neurotransmissor responsável pelo reforço de estímulo. A dopamina nos ajudou, como espécie, a encontrar recursos, adquirir conhecimento, inovar. Hoje, a cada email, mensagem no Whatsapp, nosso cérebro entra em um looping que nos faz ficar sem foco para fazer uma tarefa por vez.

 

Eis alguns sintomas da nossa obesidade informacional, do nosso vicio em duplos tiques azuis:

FALTA DE FÔLEGO

Quando você segura a respiração enquanto lê e escreve mensagens.

Senso de

realidade distorcido

Quando uma teoria da conspiração absurda faz sentido porque tem gente endossando.

Perda de

lastro social

Quando você fica só no seu círculo de amigos.

Fadiga de atenção

Quando o dia é totalmente interrompido por notícias, emails, redes sociais, e não sobre tempo para o que é importante de verdade.

Senso de tempo pobre

Quando você se perde por horas e nem percebe.

Lealdade a marcas

Culto à Apple. Ou a Samsung. Ou ao Netlfix. Ou a qualquer empresa, em geral.

Em Black Mirror, a tecnologia onipresente resolve problemas que não sabíamos que tínhamos e cria problemas que nunca sequer imaginamos.

quinto capítulo