Excesso e repetição de notícias X nossa saúde mental

Vivemos em uma época em que acreditamos que consumimos muita informação. Mas, como disse o Ronaldo Lemos em um trecho de sua entrevista para o especial Detox Digital da Contente, “a maioria das pessoas não consome muita informação. Consome na verdade a mesma informação, aí, sim, em excesso”.

Nos dias em que fiz um detox digital, li um trecho interessante sobre o consumo de notícias no livro “Walden”, de Henry David Thoreau (publicação de 1854):

“Se lemos o caso de um homem roubado, assassinado, morto por acidente, ou de uma casa incendiada, ou de um navio naufragado - nunca mais precisamos ler outro. Basta um. Se você já conhece o princípio, para que vai se incomodar com uma infinidade de casos e aplicações?”

Radicalismos à parte, esse trecho fez sentido para mim. No ano passado, principalmente no período das eleições, eu acabei lendo as mesmas coisa infinitas vezes (pela característica do funcionamento das redes sociais), e isso fazia minha ansiedade atingir níveis altíssimos. A sensação é a de que eu já praticamente vivia a dor de cenários futuros que, por hora, eram apenas hipóteses negativas.

A questão é que, tentando evitar essas hipóteses, divulgamos em excesso as notícias ruins, mostrando nossa indignação. Será que este ato não pode estar contribuindo para que o pior aconteça?

Nestes dias que passei offline acompanhei (de fora da internet) a polêmica do “menino veste azul e menina veste rosa”. O que pude perceber é que, com a melhor das intenções, podemos estar fazendo das notícias ruins/absurdas/temerosas praticamente profecias autorrealizáveis.

“Uma profecia autorrealizável, autorrealizadora ou autorrealizada é um prognóstico que, ao se tornar uma crença, provoca a sua própria concretização. Quando as pessoas esperam ou acreditam que algo acontecerá, agem como se a profecia ou previsão já fosse real e assim a previsão acaba por se realizar efetivamente.” (via Wikipédia)

Por meio do ativismo digital queremos lutar contra as más notícias, mostrar nossa indignação. Por isso postamos e repostamos essas notícias infinitas vezes. Mesmo estando fora da internet é impressionante ver um assunto dominando um país. Não temos a consciência de como o que postamos chega para quem nos lê, mas postamos mesmo assim. E aí, as ideias, notícias ou pessoas que gostaríamos que fossem desprezadas, ignoradas ou ridicularizadas ganham um alcance e uma publicidade maior do que seus autores poderia sonhar (ou pagar). E quem está fazendo este bem às avessas em grande parte são as pessoas que mais desejam lutar contra.

Nós acabamos de viver um processo eleitoral que nos mostrou que colocar algo em evidência, mesmo em oposição, não foi o melhor caminho. Como podemos fazer diferente este ano?

#ainternetqueagentequer

Luiza VollComment