Abandonando o espelho pra mostrar o que está por dentro

Há mais ou menos 1 ano eu estava vivendo uma crise com o Instagram. Não sabia muito bem o que estava fazendo ali e começou a bater aquela vontade de deletar mais uma rede social. O Facebook foi fácil, mas ao pensar em deletar o Instagram tive a sensação de que sumiria completamente do mapa, para a minha profissão não dava. Aí o que fiz para voltar a gostar do insta foi começar a observar os perfis que me faziam bem. Aprendi que a minha curiosidade funciona como uma bússola, sempre me indicando caminhos quando racionalmente ainda não sei o que fazer.

 

Internet como espelho

“A internet era uma janela para o mundo. Virou o nosso espelho.”
— Frase da Dani para o nosso especial de conteúdo Detox Digital

 

Eu amo acompanhar o perfil pessoal dos meus amigos: ver o dia a dia deles, as viagens, o que andam fazendo. Mas no caso de desconhecidos, muitas vezes o ato de só observar o estilo de vida me trazia sentimentos um pouco... complexos, digamos. Hoje em dia, o que é uma timeline? É a seleção da melhor foto e do melhor momento da viagem, do relacionamento, da conquista, do dia a dia e do trabalho não só dos seus amigos, mas de mais centenas (ou até milhares) de outras pessoas. E eu posso apostar que todo mundo já experimentou a sensação navegar pelo Instagram e, no fim do scroll, se sentir um pouco triste, um pouco ansioso, meio inadequado, com aquele medo de estar perdendo, com a sensação de ser insuficiente.

A coisa não seria tão ruim se quem está postando esse lifestyle estivesse realmente feliz. Mas quem está mostrando seu próprio espelho também está experimentando os mesmos sentimentos, só que de acordo com o feedback que é recebido. Se bem aceito, muitos likes, comentários legais, tudo está bem. Se o feedback é baixo fica aquela sensação: onde foi que eu errei?

Dizem que no início da vida vamos nos moldando de acordo com o feedback que recebemos dos adultos: vamos aos poucos aprendendo que se formos bonzinhos, quem cuida de nós fica mais feliz. Assim nos educamos, mas também deixamos pra trás partes importantes da nossa personalidade, da nossa essência. Quem já fez terapia sabe o quanto é custoso recuperar o que deixamos pra trás.

Na vida adulta, penso que o feedback digital tem feito exatamente o mesmo conosco. Os likes e o feedback positivo vão incentivando o caminho. Claro que é uma delícia estar em sintonia com quem nos acompanha, ser parabenizado pelo que produzimos. É o que todo mundo quer. Mas e o que não dá audiência? E o que vamos deixando de mostrar por achar que ninguém vai gostar? Para onde vai parar essa parte de nós?

 

Internet que mostra o que está por dentro

 

Voltando para a investigação pessoal que fiz de observar quais perfis me faziam bem, encontrei uma categoria bem clara: a das pessoas que pararam de mostrar apenas o estilo de vida ou o que tinha acontecido em suas vidas e começaram a mostrar um ponto de vista mais pessoal e verdadeiro, que tinha uma intenção clara de compartilhar conhecimento e vulnerabilidade. Não importa sobre qual tema elas postavam: no conteúdo sempre tinha algo genuíno sobre elas, uma verdade que conectava instantaneamente.

 

Me faz lembrar essa imagem que roda pela internet:

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Tradução:

Eu odeio jogar conversa fora. Eu quero falar sobre átomos, morte, alienígenas, sexo, magia, intelecto, o significado da vida, galáxias distantes, as mentiras que você contou, suas falhas, seus aromas favoritos, sua infância, o que te mantém acordado à noite, sua insegurança e medos. Eu gosto de pessoas com profundidade, que falam com emoção, uma mente distorcida. Eu não quero saber "o que está acontecendo". (Autor desconhecido)


Todo mundo já viveu a experiência de jogar conversa fora X conversar com verdade e vulnerabilidade. Um campo se cria em volta desse segundo tipo de conversa. Parece até algo físico, pois o que sentimos é a experiência de um magnetismo. Eu acho que estamos aprendendo a fazer isso pela internet. Não em todos os posts pois, assim como na vida, é muita conversa fiada para algumas verdadeiramente significativas. Mas sinto que estamos começando a entender que sim, compartilhar o dia a dia é massa, mas e o que mais? O que nos inspira? O que nos fez crescer? Quais golpes a vida já nos deu? O que estamos fazendo aqui? Todos reclamamos que passamos tempo demais na internet e muito desse tempo consumindo conteúdo com baixa relevância. Acho que chegou a hora de olhar para o que nós mesmos estamos produzindo. Estamos honrando o tempo das pessoas que nos acompanham? Estamos pensando mais em nós mesmos ou em quem nos acompanha quando postamos?


A transição
 

Depois que me caiu essa ficha sobre essa nova forma de compartilhar, travei. Fiquei com receio, achei difícil traçar uma linha entre o compartilhar e a minha privacidade e senti muito medo de julgamento (sentimento que me fez ter um monte de outros pensamentos, compartilhados nesta coluna).

Depois desse período de auto sabotagem, achei que valia a pena ir com medo mesmo. Em um dia falei sobre a minha fé. Em outro, sobre como uma doença na família mudou a minha alimentação. Mostrei como a relação com meus vizinhos me mostrou uma alegria que eu desconhecia. Quando viajei, contei sobre o que mais amo fazer. Para uma foto minha que gosto, mostrei que preciso fazer mais de 30. E conversei também sobre como tenho lidado com meu tempo (e com a falta dele). No meio do caminho teve selfie, teve viagem, teve gatinho, teve dia a dia. Mas foram essas poucas e boas conversas significativas que fizeram com que o Instagram voltasse a ser para mim um lugar muito gostoso. Hoje eu tenho como regra buscar honrar o tempo de quem tá comigo. Para cada post, eu imagino cada um dos seguidores perguntando “e eu com isso?”. E sempre tento dar uma resposta. Claro que algumas serão melhores do que as outras, assim como na vida. E aí recomendo um lema de vida que ouvi de um professor budista ao consumir qualquer conteúdo: pegue o que for útil, descarte o que não for e seja feliz.

 

#ainternertqueagentequer

 

Essa foi a minha forma de mostrar um pouco da internet que eu quero e que estou amando ver nascer. Agora eu quero muito ler você: o que achou disso tudo? O que tem te feito amar ou odiar a internet? Será um prazer ler o que você tem a dizer.

Luiza Voll3 Comments