1 ano OFFLINE

Se locomover, procurar emprego, paquerar, ler notícias, cozinhar, se candidatar a um mestrado, manter amizades, viajar. Imagine como seria fazer tudo isso sem internet. Foi o que a fotógrafa e artista Ana Rovati (@anarovati) fez ao decidir se desconectar completamente, e durante 1 ano.

Quando ela escreveu para a @contente.vc nos contando sobre o OFFLINE, livro que nasceu a partir dos impactos que ficar um ano sem internet causou, não pudemos deixar de admirá-la imensamente.


Nós acreditamos que para conhecer algo a gente tem que viver sem essa coisa também. Pra saber o que amamos verdadeiramente, o que não sentimos falta, o que é simples vício, o que estamos escondendo por trás daquele uso. Vamos conversar com quem viveu esta experiência extrema de ficar offline por um ano?


Ficar 1 ano sem internet foi...

Um projeto artístico. Uma provocação. Uma das coisas mais bonitas e intensas e complexas e doídas (de dor, não de doida) e bonitas-mais-uma-vez que já vivi.

Como surgiu essa ideia e qual foi o momento em que ela se concretizou desta forma?

Carrego a questão há algum tempo. Lá por 2013, 2014, eu já entrevistava velhinhos, pensando na ruptura que há na forma de nos relacionarmos com o mundo, levando em consideração (aproximadamente) os últimos 25 anos. Entendia que pessoas com uma lógica plenamente offline experimentavam o mundo de uma forma diferente da de pessoas hiperconectadas, e estava tentando entender quais eram algumas dessas diferenças. De qualquer maneira, isso ainda era somente uma investigação e eu não entendia qual seria a forma do trabalho. Em 2015 fui para Madri fazer um Máster em desenvolvimento de projetos autorais e entrei com esse projeto dos “velhinhos desconectados”. Então, quando mudei, aluguei um quarto na casa de uma senhora que não utilizava internet. Como uma escolha mesmo. Achava que morar com ela seria um caminho para eu me aproximar dessa lógica, para entender melhor as mudanças na forma de ser e estar no mundo e, quem sabe, aprofundar o meu projeto. Mas, vivendo com ela, me dei conta que minha questão não se resolveria fotografando senhores vivendo suas vidas, por mais estético que pudesse ficar. Eu queria falar de uma ruptura, de uma transformação. Depois de tanto testar, pensar, pesquisar, me dei conta que a resposta não se encaixava em descobrir “como fotografar”.

Eu queria pensar nos impactos de quem não faz parte da vida digital. Quais são as grandes mudanças? Qual era o meu lugar? Pronto. Levei dias para admitir, mas não conseguia tirar da minha cabeça que a resposta que tanto havia procurado para saber como desenvolver o projeto e falar/pensar sobre o que realmente me interessava seria a provocação de retirar do meu cotidiano o elemento símbolo que permeava o que eu estava falando: a internet. Eu, última geração que havia nascido num “período off-line”. Tive algumas conversas, me organizei e no dia 2 de dezembro de 2015 saí da internet.

Qual foi o maior desafio deste período? Do que você mais sentiu falta? E do que não sentiu falta nenhuma?

É realmente difícil falar no MAIOR desafio. Foram muitos, já que o projeto era meu próprio cotidiano, durante um ano inteiro. Imagina quanta coisa!

De forma prática: dinheiro. Eu não tinha financiamento, minhas economias gerais da vida terminaram, trabalhei como garçonete, e isso tudo ainda é privilégio. Sabia que 40% da população brasileira em 2016 não tinha acesso a internet? (dados do IBGE). Onde estão essas pessoas e que profissões elas têm? Pois é.

De forma afetiva: aguentar o tranco de sentir na pele que há sim uma lógica dominante que “guia” a comunicação interpessoal, e que ao deixar de fazer parte dela, se sofre as consequências. Foi um processo dolorido entender e aceitar meu “desaparecimento” e a não-obrigatoriedade dos outros de quererem participar da minha “nova condição desconectada”. Estamos sempre cheios de contatos, né? E então isso acabou; passei a viver o presente e a presença. Mas vale dizer que depois de um período de ajuste cotidiano e superação desse impacto, houve algo libertador. Porque fiquei então tranquila ao entender que não precisava mais conversar/me informar/etc. 24h ao dia. Descobri que estava tudo bem. Parece que fiquei mais dona dos meus próprios pensamentos e reflexões. As coisas começaram a se potencializar. Minha memória, minhas experiências, minha concentração. Uma coisa linda!

De forma individual: foi um grande desafio bancar o projeto. Me senti muito sozinha pois ele não fazia sentido para a maioria das pessoas ao meu redor. Foi meu primeiro projeto artístico desse tipo e em alguns momentos parecia que só eu acreditava nele e entendia o que estava fazendo, o que não foi nada simples. Que bom que segui até o final.

Durante o período não poderia dizer o que não sentia falta. Mas quando voltei a internet e avaliando de fora, hoje eu diria com plena convicção que não sinto falta de Facebook.

Agora que você experimentou a vida conectada e a vida offline, qual é o melhor dos dois mundos?

Não podemos negar a internet nem todo seu potencial positivo e negativo. Mas eu acredito na potência dos encontros. Os vínculos humanos estabelecidos presencialmente geram algo complexo e, a meu ver, fundamental para questões sociais, políticas, culturais do mundo. Já a capacidade de acessar coisas longe da gente, pesquisar, trocar virtualmente também é incrível. Então acho que temos que criar novas formas de organizar tudo isso.

Você acha que é possível ter um uso equilibrado da internet?

Acho possível ter um uso mais equilibrado da internet, mas bem difícil. Não acho que “basta querer”. Ela é uma ferramenta muito bem utilizada por interesses econômicos globais. Eles já entenderam como tirar o melhor dela para seus benefícios, e isso está relacionado a formatos feitos para nos atrair e termos dificuldade de sair. A maioria dos sites/plataformas/redes sociais (que são empresas com fins econômicos) não são desenvolvidos para sermos autônomos, com a simples e amigável intenção de melhorar a nossa comunicação. São desenvolvidos pensando em como nos manter mais tempo alí.

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Como é o seu uso da internet após o OFFLINE?

Não voltei ao Facebook nem ao smartphone. Tenho um celular que envia sms e liga. Mas uso internet via computador para todo o resto: pesquisar, falar utilizando vídeo, ver filmes, escutar música etc. Aquela liberdade toda que comentei lá em cima? Não me sinto mais assim. Mas acho incrível me comunicar à distância e fazer todas essas coisas. Ou seja, ainda tento descobrir como encontrar o equilíbrio.

O que você falaria para quem nunca experimentou ficar sem internet, mesmo que por alguns dias?

Não precisa ter medo, a gente sabe mais do que pensa e você provavelmente mais vai ganhar do que perder :)

Qual é a sua resposta pra #ainternetqueagentequer?

Eu gostaria de uma internet mais correta, que respeitasse a privacidade dos usuários e o direito a escolhas mais autônomas e menos “direcionadas”. Que ela fosse de acesso a todos, para não se tornar uma forma de exclusão. E que ela servisse para potencializar encontros e criar diálogos profundos. Mas então volto a parte da presença. É, acho precisamos mesmo construir juntos #ainternetqueagentequer.

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Obrigada por viver e compartilhar com a gente essa experiência tão rica, Ana! E de ainda ter a força criativa e a perseverança de criar este lindo livro. Recomendamos demais. Isso é muito #ainternetqueagentequer

Link para a compra do livro: http://www.anarovati.com/.livro-offline.

Luiza Voll1 Comment