Menos fotos, mais presença

Lembre-se da sua vida pré-Instagram: quantos momentos memoráveis você tinha registrado em fotos? E agora, quantos são? A não ser que seu caso seja bastante particular, a diferença em números costuma ser tremenda. Não é à toa que quem vê nossas vidas de fora se sente oprimido. Com a facilidade da fotografia digital e a pressão sutil do Instagram todos temos registrados mais momentos incríveis e maravilhosos do que que podemos contar (ou lembrar). Será que a nossa vida é tão intensa assim?

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Nessas férias, estive em uma praia paradisíaca com uma turma maravilhosa. Tudo era fotogênico: a vista para o mar, as pessoas, as situações, as festas. Quando algo legal estava acontecendo, a primeira coisa que se ouvia era “alguém tira foto disso”! Ou então dava pra ver que, de repente, várias câmeras apareciam do nada e começavam a nos filmar. Além de ser muito Black Mirror, aquele era um sinal de que o momento merecia ser compartilhado. Longe de mim apresentar essas situações como uma crítica, até porque na maior parte do ano eu sou essa pessoa todinha, mas faço aqui uma observação sobre a importância que o registro dos momentos tem tido em nossas vidas. Na sua turma não deve ser diferente.

Agora, lembre-se das últimas cenas lindas que você viu: o último pôr do sol, a última paisagem especial, o último momento memorável com os amigos ou com a família. Nessas situações, qual foi o seu primeiro impulso? Aproveitar 100% sua presença, se entregando por inteiro ou já foi automático pegar o telefone, fotografar, fazer stories e aí então poder relaxar? Pra mim o impulso do registro vem forte. E é aí que eu me questiono: temos mais vontade de viver bem ou de aparentar que estamos vivendo bem? Quando nos propomos intencionalmente a não registrar os momentos, dá pra ver com mais clareza.

Sei que isso pode não parecer uma grande questão, mas tenho pensado que pra muita gente é como se o Instagram fosse um programa que fica sempre aberto dentro das nossas cabeças, nos incentivando a ver a vida pelo ângulo mais fotogênico. Na maior parte do tempo é uma delícia e a sensação de tirar uma foto legal é muito bacana. A memória fica registrada do jeito mais belo possível e ainda temos a adrenalina dos likes que ganhamos. No entanto, pelo menos pra mim, ter esse pedido no fundo da mente o tempo todo se torna cansativo e acaba me sequestrando, mesmo que brevemente, do momento presente. E a gente sabe o que acontece quando não estamos vivendo no presente, a conta quem paga é a nossa ansiedade. O Brasil é o terceiro país que mais usa redes sociais e tem a maior taxa de transtorno de ansiedade do mundo. Será uma coincidência?

Outro aspecto que pude observar pela primeira vez foi o de ser retratada ou filmada e não estar fazendo parte das redes, não poder ver. Alguns dias era tudo bem, em outros me dava uma aflição e eu não sossegava até saber o que tinha aparecido no telefone de alguém. Isso me fez pensar em pessoas que são bem menos digitais do que nós e acabam aparecendo mais do que gostariam em nossos perfis. Também pensei nas crianças que ainda não podem opinar sobre as suas presenças digitais e são constantemente retratadas. E me lembrei do comportamento delas ao serem fotografadas. Às vezes sorri rapidinho e tudo bem. E às vezes nem com reza brava sai um sorrisinho. É como se elas pensassem “por que é que temos que parar o que estávamos fazendo para fotografar? Tava tudo tão legal…”

Registrar é bom, mas às vezes não dá vontade de só viver? De estar em um momento legal e de se entregar por inteiro? Por que precisamos transformar tudo que sentimos ser especial em registro? Será que não confiamos em nossas memórias? Nestas férias pela primeira vez tirei pouquíssimas fotos e absolutamente nenhuma delas foi em um momento que estava mais legal viver do que fotografar. Sinto que consegui fazer isso porque já experimentei muitas vezes a possibilidade de estar em lugares lindos e vivendo momentos legais e ter tudo isso registrado, por isso entendo demais o desejo forte de fotografar e compartilhar. E para você, como é essa relação?

#ainternetqueagentequer

Luiza Voll3 Comments