Defenda o seu tempo (é a única coisa que existe)

Sensação de estar sempre devendo. Quem não sente? Para pagar essas dívidas, tempo. Tempo para finalizar um trabalho importante, para ficar com quem você ama, organizar a sua casa, ler os livros que compra e não consegue ler, se alimentar melhor, trabalhar ainda mais para conseguir mais grana.

Para concretizar tudo isso a gente corre e corre, mas esse tempo livre parece nunca chegar. Se correr cada vez mais não tem adiantado, talvez seja melhor pensarmos em novas estratégias.
 

Observação importante: este post traz relatos e aprendizados pessoais, baseados na minha própria experiência que será diferente da sua (e da de todo mundo). Não trago verdades, mas nessa história pode ter algum caminho que inspire a sua própria jornada.

Correria

Eu nunca me habituei à “correria”. Sempre senti que precisava viver em um ritmo menos acelerado que o habitual do mercado de trabalho e das grandes cidades. Esse autoconhecimento me ajudou e me ajuda a tomar todas as minhas decisões.

Se eu sei o que é mais importante para mim, todo o resto precisa mudar. É simples, mas é difícil. Defender o seu tempo é um exercício diário.
 

Na vida profissional

Desde o início da minha vida profissional, minha batalha foi a do tempo. Tive a sorte de ter vivido uma experiência bem transformadora logo no início da minha carreira. Como quase todo mundo, acreditava que ficar muitas horas no trabalho era uma forma de mostrar que eu era dedicada ao time. Quando morei em Barcelona consegui um emprego que para mim era dos sonhos. Na minha primeira semana de trabalho eu queria muito mostrar serviço. Ficava todo dia um pouco a mais, 30 minutos, 1h. No meio da semana o meu chefe nesta empresa me chamou pra conversar e com toda seriedade do mundo me perguntou se eu estava com algum problema. Emendou dizendo que não entendia porque todo dia dava o horário e eu não ia embora. Neste dia caiu a maior ficha do mundo para mim: trabalhar além do horário estipulado não te faz mais eficiente, é um sinal de que você não está conseguindo controlar bem o seu tempo. Ver esse questionamento partindo de alguém em uma posição de liderança foi fundamental. Me mostrou que um bom líder valoriza profissionais que sabem estipular quantas horas vão levar para entregar um trabalho e também defende o tempo dos seus funcionários. Para mim pareceu um acordo muito justo e que eu tinha prazer em cumprir: eu honrava o meu tempo de trabalho dentro da empresa, pois sabia que tinha um chefe que não só acreditava no tempo que eu estipulava para cada tarefa como defenderia o meu tempo fora da empresa também.

Nessa escola aprendi a valorizar o meu tempo de trabalho. Chegar na hora combinada (na maioria dos dias, mas atrasos acontecem) e, enquanto estivesse lá, trabalhar com foco. Foi um período de aprendizado essencial para os desafios que estavam por vir.

 

Acordos claros

Quando voltei para o Brasil me mudei para SP e o meu novo mercado de trabalho foi o de agências de publicidade. Você deve conhecer a fama que elas têm: virar noite e trabalhar muitas horas extra são o acordo comum. Os funcionários geralmente respondiam a esse cenário chegando bem tarde de manhã, fazendo horas de almoço esticadas, procrastinando bastante também enquanto estavam por lá. Era uma forma de trazer equilíbrio para um cenário de muitas horas dentro da empresa.

Para mim esta dinâmica não funcionava. No momento das entrevistas de trabalho eu explicava a minha forma ideal de trabalhar: gostava de chegar e sair na hora e informava que quando estivesse lá estaria focada no trabalho e falaria os prazos corretos para a entrega. Dizia que se a lógica da empresa fosse de muitas horas extras e em fins de semana que eu talvez não era a pessoa certa. Sei que no momento que estamos na expectativa de conseguir um emprego não queremos causar nenhum conflito e só dizer sim, ainda mais em época de crise. Cada um deve agir de acordo com o que sente. Mas acho que vale a reflexão de que talvez menosprezamos o nosso poder de transformar a nossa realidade (e a do nosso mercado de trabalho). Os empregadores precisam da força de trabalho assim como os profissionais precisam do emprego. Um acordo claro e que funciona bem para ambos é melhor para todo mundo. Na minha trajetória, aprendi que me posicionar firmemente diante do que acredito sempre me colocou em uma posição interessante dentro das empresas. Você valoriza mais em sua vida alguém que sabe seus limites ou alguém que aceita tudo sem questionar?

 

Negociação

Quando estamos na posição de negociação a moeda mais clara que vem a mente é a grana. Mas mais dinheiro te compra somente uma quantidade limitada de tempo. Quando eu tinha a oportunidade de negociar um aumento, sempre tentei negociar junto a possibilidade de trabalhar menos horas. Em meu último emprego em uma agência de publicidade (antes de passar a me dedicar somente a @contente.vc), eu trabalhava das 14h às 19h e percebi que conseguia produzir praticamente o mesmo do que quando estava na agência o dia todo. Essa negociação me trouxe muito foco pois eu sabia que precisava honrar a aposta que tinha sido feita em mim.

 

O maravilhoso não

Uma das coisas que mais gosto de dizer é sim! Vamos tomar um café? Sim! Me ajuda neste novo projeto que estou pensando? Sim! Vamos nos ver? Sim! Vamos almoçar? Sim! Amo estar disponível e esse é um dos aspectos positivos de quem luta pelo próprio tempo, poder oferecer disponibilidade.

Na embriaguez da alegria do sim, vi que esse caminho não estava dando muito certo. Apesar de me apaixonar por quase todas as propostas que surgiam, tive que aprender a dizer não. Acho importante aprender a dizer não não porque estamos extremamente ocupados, mas justamente porque não queremos estar. Hoje o que faço é pedir um tempo antes de responder aos convites que surgem e pensar bem antes de dizer sim. Hoje não entendo o não como uma rejeição, mas como uma resposta honesta e libertadora para os dois lados. Quando dizemos não também damos ao outro a possibilidade de fazer o mesmo.

 

Honestidade nas relações

Lembro de um dia em que estava em um jantar com 4 amigos, desses que demora a ser marcado. Após meia hora no restaurante uma das amigas disse: gente, amo vocês mas estou com muita vontade de ir embora para a minha casa, tá? E foi. Um dos amigos ficou bem chateado, mas para mim ela pareceu um pássaro raro que havia me mostrado uma nova possibilidade. Podemos ser honestos também e dizer o que estamos sentindo sem precisar inventar desculpas! É maravilhoso estar em relações em que possamos dizer “hoje não quero ir”, “só vou ficar 2h, não mais”, “prefiro não ir no almoço da família, tá?”. Quando somos honestos abrimos espaço para outros serem também, e as relações ficam muito mais verdadeiras sabendo que todos que estão ali estão porque querem.

É importante lembrar que, se você quer que respeitem o seu tempo, terá que aprender a não exigir a presença do outro também e deixá-lo livre para não estar presente caso não queira. Vai por mim, assim fica tudo mais legal!

 

Whatsapp

O que dizer sobre este aplicativo que drena completamente o nosso tempo? Que se você não controlá-lo ele vai controlar você. Nas relações pessoais e profissionais pelo aplicativo, experimente ser honesto também. Se deseja usar menos, fale com as pessoas sobre isso. Sinta-se livre para sair de grupos que não te interessam mais e dê a mesma liberdade para seus amigos. Fale sobre como você pode demorar a responder as mensagens que chegam e que isso não quer dizer que gosta mais ou menos delas. Que isso não significa coisa alguma a não ser que você está administrando seu tempo da melhor forma que pode.

O Whatsapp nas relações profissionais, por mais que seja prático, é uma das piores invenções. Ele ajuda a trazer um senso de urgência para as mínimas coisas e acrescenta bastante ansiedade no dia a dia. Na Contente tentamos concentrar ao máximo as interações pelo email e funciona muito bem! Mesmo se a pessoa com quem estamos trabalhando é bastante habituada a usar o Whatsapp para demandas cotidianas explicamos como trabalhamos e concentramos os pedidos por email. Não conseguimos sempre, mas na maioria dos casos sim e temos certeza de que isso poupa não só o nosso tempo e nossa sanidade mental, mas os dos clientes também!  

 

Enxergar o tempo nas coisas que compramos

Ter o hábito de organizar as suas finanças e ver com o que você mais gasta é também uma ótima forma de ver um retrato do seu consumo de tempo. Nunca fui de gastar muito ou comprar coisas muito caras, mas adorava conhecer todos os restaurantes da cidade e tentava viajar sempre que pudesse. Também gostava de acompanhar algumas marcas de roupas e via crescer em mim o desejo de tê-las a cada novo post ou newsletter que recebia. Em um aperto financeiro que passei observei mais atentamente os meus gastos e fui tentando diminuir mesmo o que parecia já estar enxuto.

Junto com o aperto, também veio mais consciência e essa sim causou a maior transformação: senti que a melhor coisa que eu poderia fazer para o mundo era comprar menos. Quanto mais eu estudava, menos coisas eu queria. Passei a cozinhar mais em casa e a querer aprender a reproduzir as comidas que eu mais amava no conforto do meu lar. Resignifiquei o desejo constante de viajar com o aprendizado de que eu também poderia aprender a explorar minha própria cidade com olhar de turista. Parei de acompanhar toda e qualquer marca de consumo, dei unfollow em todos os perfis e newsletters e agora quando realmente quero ou preciso comprar algo vou atrás da melhor opção.

Olhe à sua volta: as coisas que você possui, suas roupas, seus objetos, a unha feita, a viagem dos sonhos, os gadgets. Perceba como seu tempo está em cada um deles.

Nada me poupou mais tempo do que comprar menos e desejar menos coisas.

No meu caso, esse processo foi feito com muito prazer e não com culpa. Com uma grande mudança de mentalidade e não somente por uma restrição financeira. A minha cabeça mudou antes dos meus hábitos. Acredito que foi por isso que os hábitos permaneceram.

 

Atenção plena

Sem dúvida o meu maior desafio. Sinto que se conseguir ter atenção plena vou zerar a vida! Mas como é difícil (para mim) fazer somente uma coisa de cada vez. Com o mundo tão acelerado, você sente que precisa caminhar na mesma velocidade. Aí fazer só uma coisa de cada vez parece pouco e qualquer tempo minimamente livre você tenta preencher com notícias, feed de uma rede social e quando viu aquilo te roubou muito mais tempo do que imaginava. Se não estamos presentes no que estamos fazendo a cada momento nunca nenhum tempo do mundo será suficiente.

Tem uma música do Skank que fala sobre amor em seu formato mínimo. Muitas vezes sinto que estamos dando a nossa presença em um formato mínimo, estando ali mas com mil outras coisas na cabeça, acelerados para saber o que está acontecendo no mundo enquanto jogamos conversa fora. Um dos métodos de atenção plena que mais gosto de praticar é o de estar constantemente notando coisas novas nas pessoas e situações. Notar coisas como - hoje essa pessoa parece feliz, parece cansada, acho que esse brinco é novo, esse olhar parece triste, essa casa está cheirosa, essa loja mudou sua fachada etc - ficar notando coisas novas nos ajuda a estar no momento presente. Outra tática tem sido a de ficar repetindo mentalmente: acordei, agora vou só me arrumar (sem telefone!), agora vou só tomar café, agora vou abrir o telefone (com tempo estipulado - usando o timer), agora vou só responder emails, agora vou só fazer esta tarefa etc. Um app que ajuda na tarefa de praticar a atenção plena é o Mindfulness Bell. Nele você pode estipular de quanto em quanto tempo deseja que um sino tibetano (bem suave) toque no seu telefone. Com esse toque, você se lembra de fazer um check in com você mesmo, de respirar profundamente e verificar onde está a sua atenção no momento. Se você tiver algum outro método para praticar a atenção plena me ensina?

 

Encontre o seu ladrão do tempo

Todo mundo tem algum hábito que rouba seu tempo mais do que as outras coisas. Para uns são as redes sociais, para outros compromissos pessoais ou de trabalho, tem quem seja viciado em videogames e algumas pessoas sentem a necessidade de estar sempre comprando, lendo notícias, assistindo ao seriado do momento, esportes e por aí vai. Para encontrar os meus adoro fazer alguns períodos de detox. Passar 25 dias sem redes sociais me fez ver que este é meu grande ladrão. Amo compartilhar aprendizados pelo Instagram, mas ainda não encontrei uma medida saudável de uso dessa rede. Sigo na luta. Meu próximo detox: quero passar 30 dias sem Netflix!

 

Disciplina é liberdade

Li uma matéria super interessante do NY Times sobre uma experiência de um jornalista que passou 30 dias lendo notícias apenas no jornal impresso. A maior vantagem, segundo ele, foi não passar o dia todo acompanhando a notícia, mas sim dar o tempo necessário para um jornalista apurar os fatos e aí então ler a matéria. Achei um insight muito bacana, pois quantos de nós não ficamos tão impactados por algumas notícias que passamos o dia inteirinho lendo - e na maioria das vezes - a mesma coisa sobre ela?

No fim, tudo volta para ter a disciplina de não aceitar as milhões de opções de conteúdo que são oferecidos o dia todo. Esse ritmo de oferta de conteúdo não vai mudar, mas você pode.

 

Para cada escolha, uma renúncia

Precisamos saber que somos capazes de mudar a nossa realidade. Eu entendo que às vezes estamos inseridos em uma cultura de trabalho tão intensa que parece ser impossível. Mas é importante que a gente possa reconhecer que participar disso é também uma escolha. Se não assumimos a responsabilidade pela forma como vivemos realmente não conseguimos transformar nossa vida em nenhum aspecto. Mas, se reinvindicarmos a responsabilidade para nós, com o tempo a mudança que você deseja será possível.

Foi pouco a pouco que consegui criar uma vida (profissional e pessoal) que me permitisse ter o tempo para fazer o que é importante para mim, como conseguir cozinhar todos os dias, ler e fazer cursos com a frequência que eu gostaria ou simplesmente passar um fim de semana inteiro sem fazer nada. Como citei acima, para fazer isso aprendi a viver com muito menos e descrevi como vários outros aspectos da minha vida também precisaram mudar.

O fundamental é saber que toda escolha implica também em uma renúncia (mais tempo pode significar menos dinheiro ou menos prestígio, por exemplo), assim você pode escolher se ter mais tempo é importante para você e passar a lutar por isso.

 

A correria está na mente

Quando falo sobre tempo no Instagram costumo receber muitas mensagens de desabafo. Recentemente duas pessoas diferentes compartilharam comigo que moram no interior e que poderiam levar uma vida super tranquila, mas que mesmo assim se sentem na correria. Achei perfeita essa colocação porque acredito que a correria está principalmente na mente. Quem estiver acelerado, vai ser acelerado até quando se mudar para o interior da Bahia. Em compensação, quem está com a mente em paz vai estar assim também no auge do caos externo. Existem muitas formas de acalmar a mente, experimente encontrar uma que funcione para você e veja o ambiente exterior se transformar à medida que você também se transforma.

“Para que direção corre o curso da vida? Para cima, para baixo, para um lado, para o outro, para frente ou para trás? Ou corre para lugar nenhum? Então, observe apenas, não interrompa e nem interfira. Deixe-o simplesmente correr, não importa para onde. O que importa é estar nele, é ser ele mesmo, pois esse é o nosso destino, a nossa eterna condição. Não te arremesses no amanhã, no que desejas vir a ser, nem te agarres no passado, no que já foi e não voltará; são meras fugas e ilusões. O que tu tens de concreto e não importa o que te aconteças é este instante; não tentes escapar dele, viva-o com plenitude e coragem. Esgote-o! Ele é a tua única realidade, mesmo que nada seja real.”

Trecho de “O Andarilho da Ilusão”, tradução para Illusion’s Wanderer de Ildegardo Rosa

 

Compartilho com vocês outros vídeos e leituras que já me inspiraram :

 

A leitura que mais me ajudou a entender como era importante para mim a defesa do meu tempo foi o livro Mulheres que correm com os lobos.

 

Quero muito saber como você lida com o seu tempo ou com a falta dele! Conta nos comentários? Assim a conversa fica muito melhor!

Luiza Voll4 Comments