Viva o efêmero, ou porque o Snapchat é a coisa mais legal do momento

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Estou apaixonada. Ele é adolescente, fala rápido, não tem vergonha de nada e me deixa super à vontade. Tem dias até que me leva para lugares incríveis, mas o dia a dia mesmo é simples, ele me mostra a casa, o caminho na rua, o hamburger com batatinha que comeu na hora do almoço. Na mensagem direta, aparece com cara de quem acabou de acordar. Nossas conversas somem rapidamente. De vez em quando ele faz umas viagens, já foi até pras Maldivas andar de jet ski. Adora escrever em cima das fotos e usa Emoji como se fosse a principal forma de comunicação que temos hoje - e não seria mesmo?

O nome dele é Snapchat, e a gente tá num relacionamento sério.

Demorei algumas semanas pra entender como essa rede social que nem é tão nova assim (nasceu em 2011) funciona. Contei com a ajuda do meu amigo Luisinho, que tem 19 anos. Ele foi fundamental, respondeu a cada pergunta boba minha. Em um mês, fiquei esperta  no Snap, e até quando baixei uma nova novidade, o Periscope (serviço de livestreaming do Twitter), fiquei tentando reproduzir a navegação horizontal dele.

O Snapchat é apaixonante porque ele nos traz de volta para a simplicidade. Enquanto no Instagram cada foto que eu posto hoje em dia passa por um ou dois aplicativos pelo menos (adoro Snapseed e VSCOcam) e demora um tempo até encontrar a legenda que combina, no Snapchat posto qualquer coisa. A chuva, a maratona de “Game of Thrones”, as músicas que cantamos no meu karaokê de aniversário, a Canela sendo a cachorra mais linda do mundo. Existe uma espontaneidade que acontece não só porque estou há pouco tempo usando a rede, mas principalmente pela efemeridade que a norteia. Tanto as fotos quanto os vídeos duram 24 horas. Quem viu, viu, quem não viu não vê mais. É uma ode ao efêmero, ao transitório, que combina com quem não quer mais guardar, guardar e guardar. O que interessa ali é mostrar por mostrar, dividir um pouco do dia, criar uma narrativa pra ele. Não precisa ser perfeito, não precisa ser bonito - quando é divertido é sempre melhor.

Outra coisa fascinante do Snapchat é o fato de grandes empresas de mídia usarem a ferramenta para repensar seu conteúdo e entregar algo exclusivo para aquele público. Na seção Discover, CNN, People, National Geographic, Vice e mais outros 8 players postam diariamente conteúdos que se encerram naquele dia, que não contam com um botão de curtir nem de compartilhar. Se você escolher ver, vai ver porque quis - e aquilo se encerra ali. Você precisa praticar a atenção plena, uma vez que só é possível ver o conteúdo mantendo o dedo na tela. É genial que a CNN faça especiais sobre jovens sendo recrutados pelo grupo extremista ISIS em uma plataforma dominada por adolescentes. Aliás, no ano passado o Snapchat ficou em terceiro lugar entre os aplicativos mais populares entre os millenials, atrás do Facebook e do Instagram.

Muito se fala de como os adolescentes têm abandonado redes como o Facebook, que registra tudo o que você faz - e pode ser um perigo se seus pais resolverem dar uma espiadinha. O Snap pode até ter sido atrelado ao sexting no começo, mas hoje me parece muito mais um lugar mais livre, sem tanto registro (atenção que é possível dar print nas imagens). E isso muda tanta coisa, né?

A gente vive há muito tempo assoberbado pela quantidade de informação da internet. Quem aí já não quis chegar ao fim da internet? (Adoro essa página, aliás > http://hmpg.net/) Enquanto não conseguimos, lemos sobre isso, tentamos entender essa ansiedade. E vamos cada vez mais nos entusiasmando com o que é prático, rápido. Não é à toa que a gente ama os Emojis, eles dizem tanto com tão pouco! Temos até um pouco de preguiça de digitar, preferindo mandar áudios no Whatsapp. O Snapchat parece coroar essa vontade de mudança. A gente quer compartilhar e pronto, porque compartilhar é o que faz tudo valer a pena. A gente não quer guardar tanto, acumular tanto, esperar que os outros gostem da gente dando like.  Aliás, essa coisa de não ter like, comentário nem botões pra compartilhar é genial. Você posta o que quer e não precisa do respaldo dos outros - você não consegue nem saber quantos seguidores tem. Em tempos de tantas métricas, adoro o fato de uma novidade assim bagunçar o esquema todo.

É maravilhoso ser a gente mesmo em uma rede social. Sem receio de postar demais, com vontade de experimentar e ver no que vai dar. Criar pequenas narrativas do dia, mostrando o caminho para um encontro, o almoço, o livro que tá lendo, filmando estranhos na rua. Fora que rejuvenesce que é uma beleza - tem dia que a gente faz uns posts que nos deixam com 13 anos novamente, haha! É tudo focado no hoje, no agora, nas 24 horas que você tem. Você pode até compartilhar com o mundo, mas primeiramente você compartilha com seus amigos - e é tão legal ver a vida deles sem tanta edição. A internet definitivamente veio pro bolso. E o que nos anima no Snap é aquele conteúdo que diz alguma coisa, e não aquele que parece dizer alguma coisa. Viva este lugar onde dá pra ser a gente sem filtro, sem proposta, sem perfeição.

E vocês? Usam o Snapchat? Ficaram com vontade de usar depois de ouvir essa declaração de amor? Me add: dani.arrais  :-)

Dani Arrais10 Comments