"Uma ideia genial não vale quase nada", diz empreendedor

Uma das coisas mais impressionantes do Vale do Silício é a disponibilidade das pessoas. Elas sempre têm tempo. Elas te encontram para um café às 19h de uma sexta-feira. Querem ouvir sobre sua empresa e seus projetos, querem contar suas trajetórias, e dessa troca surgem feedbacks e insights extremamente inspiradores e generosos. O senso de comunidade é muito forte por lá - e nos faz pensar no quanto essa vontade de trocar é mesmo o caminho certo.

Foi a Adri Garcia, do ótimo laboratório de inovação digital Orbital Lab, que nos apresentou ao Reinaldo Normand. Assim que a gente contou que ia fazer uma viagem ao Vale, ela nos recomendou a leitura do recém-lançado livro dele, “Vale do Silício”. Disponível em www.valedosilicio.com, de graça, o livro é uma ótima primeira imersão no lugar mais efervescente da tecnologia. Com a leitura, aprendemos um monte, ficamos preparadas pra chegar lá sem tanta inexperiência.

O dia em que conhecemos o Reinaldo foi de explosão: ele nos contou tantas coisas, dividiu tantos insights sobre o que a gente faz que saímos de lá com a certeza de que encontramos alguém muito especial na nossa trajetória profissional. Como sempre acontece por aqui, ficamos com vontade de dividir com vocês um tanto disso tudo e fizemos uma entrevista com ele. Esperamos que vocês gostem!

Reinaldo Normand

- Nosso primeiro contato com você foi por meio do livro “Vale do Silício”, que você acabou de lançar. Conta um pouco da sua trajetória pra quem vai conhecê-lo agora e também sobre o que o motivou a escrever o livro?

Sou empreendedor há 20 anos (tenho 38). Fundei cinco empresas no Brasil, EUA e China, dentre elas o maior site independente de games do Brasil, Outer Space, as divisões mobile e de desenvolvimento da TecToy, de onde fui gerente geral até 2006, e a Oelli Brasil, de onde realizei evento para 30 mil pessoas em SP. Com a Zeebo, em 2007, lancei um console de videogame e uma plataforma de educação para países emergentes, vendi centenas de milhares de unidades e levantei quatro rounds de investimento da americana Qualcomm. Em 2011 fundei a 2Mundos, especializada em jogos sociais para o mercado brasileiro, e lançamos jogos associados com diversas marcas nacionais. Em 2014 fundei a Satomi, startup "bootstrapped” incubada pela Plug & Play em Sunnyvale, onde o usuário, auxiliado por algoritmos genéticos, pode criar suas próprias estampas e comprar produtos personalizados direto do seu smartphone. Vivi em 7 cidades em 5 países nos últimos 10 anos e pude fazer um extenso networking na indústria de tecnologia e de investimentos. O que me motivou a escrever o livro foi o interesse de executivos, funcionários públicos e empreendedores sobre o Vale do Silício e sua capacidade infindável de gerar inovação. Percebi que a maioria das pessoas não compreende o modus operandi das startups. Resolvi colocar tudo o que sei em um livro fácil de ler, didático e gratuito para atingir o maior número de pessoas possível e compartilhar meu conhecimento. Quero estimular o empreendedorismo em todas as esferas da sociedade.

- Uma das partes que mais nos chamou atenção no livro é a que fala “Se você contou sua ideia para alguém e esse alguém copiou sua ideia e a fez acontecer antes de você é porque você não merecia mesmo tê-la”. Como lidar com essa mistura de desprendimento e “acorda pra vida”?

Aprendemos desde cedo, talvez influenciados por um sistema de educação muito focado na teoria, que o grande mérito de um empreendedor de sucesso é uma idéia genial. Isso gera uma distorção no conceito de empreendedorismo e uma ilusão de que a execução é um mero detalhe. Na verdade, 99% do mérito de um empreendedor vem da execução e de ser capaz de atrair uma equipe de alto nível para trabalhar com ele. Para encarar a realidade e a competição vinda dos quatro cantos do mundo, é necessário muita humildade, adaptabilidade e resiliência. Neste processo, errar e aprender com os erros é fundamental.

- Um tecla muito batida no Vale é a de que falhar não só faz parte do processo como é fundamental para uma startup evoluir. Como lidar com o “fracasso” quando vivemos em um mundo que nos cobra tanta excelência?

Primeiro, devemos desmistificar a falácia de que toda pessoa bem sucedida nunca fracassou ou errou. O fracasso deve ser visto como uma parte inerente à jornada e não o resultado dela. Numa metáfora simplista, imagine que o seu objetivo (o sucesso) seja ir de Belo Horizonte até o Recife de carro. Mesmo com tempo, planejamento e um mapa, a grande maioria de nós vai se perder no caminho. O erro é simbolizado por uma estrada errada, fora da rota, que você pegou por falta de sinalização ou atenção ao mapa. Algumas pessoas podem desistir da viagem porque o erro custou tempo, acabou-se a gasolina ou estragou o carro. Os "vencedores" estão sempre focados em chegar ao destino final e, sendo assim, resolvem quaisquer problemas, aprendem com os erros e continuam a viagem. É importante ter em mente que a excelência só vem através da ação e experiência.

- Também ouvimos muito sobre a importância de criar uma rede de contatos. Como isso funciona nos diferentes lugares em que você já morou?

Networking é importante em qualquer lugar do mundo. É a essência da espécie humana. Quanto mais gente você conhece, mais você aprende e chega perto dos seus objetivos. Em alguns lugares, networking é sinônimo de meritocracia. Se você é bom, trabalha duro e quer aprender, você é reconhecido por outras pessoas e elas te ajudam. Em outros, a rede de contatos se forma por interesses não relacionados aos negócios em si. Vira um toma lá dá cá com o objetivo de favorecimento pessoal e poder. É importante entender as características culturais de cada lugar, saber quais são seus valores e até onde você pode ir para conseguir bons contatos. Na minha opinião os fins não justificam os meios.

- Como você lida com a instabilidade?

A vida de empreendedor é uma montanha-russa emocional. Instabilidade é o estado normal. Eu, particularmente, uso de bom humor e caminhadas para espantar aqueles dias em que você parece ter sido atropelado por um trator. É importante também se abrir e conversar com pessoas legais que mudem seu astral.

- Hoje você, além de empreender, também atua como mentor de gente como a Bel Pesce. Conta um pouco desse seu papel?

O mentor é alguém que tem uma imensa vontade de contribuir com o sucesso de outros, sem esperar nada em troca. Ele(a) encontra alguém com imenso potencial e percebe que pode ajudá-lo(a) em alguma coisa. O mentorado  confia e admira o mentor.  Aí as conversas vão rolando, pessoas são apresentadas, experiências são trocadas; aprende-se dos dois lados. Mentoria é um contrato tácito que nasce e evolui naturalmente.

- Você já teve várias empresas. Algumas deram certo e outras não. Quais são os principais ensinamentos valiosos (e dolorosos também) que a sua própria trajetória te deu?

Aprendi várias coisas. Dentre elas, que a situação de sua vida (ou startup) pode mudar rapidamente em uma semana. A vida é igual a bolsa de valores, quando está em baixa, a tendência é de alta, e vice-versa. É importante se preparar para os bons e maus momentos. Em termos de empreendedorismo e startups, a maior lição é tentar acertar o “timing”. Sua empresa pode ter um produto brilhante e as melhores mentes, mas se estiver muito à frente ou atrás do que o mercado quer, o fracasso é iminente.

- O que você pretende fazer nos próximos 5, 10 anos?

Quero me envolver com algo que me permita viajar e ajudar empreendedores em todo o mundo. Acho que o empreendedorismo é a melhor forma de encarar os desafios da humanidade.

- E, pra terminar, qual é o seu mantra de vida?

Parafraseando Steve Jobs: "Siga seus instintos. De alguma maneira, eles já sabem o que você quer."

Leiam o livro do Reinaldo Normand > www.valedosilicio.com

Dani Arrais5 Comments