Tempo para perceber como a internet molda nosso comportamento

Um dia contei para uma amiga sobre algo espetacular que havia acontecido comigo e ela respondeu a mensagem com a frase: “pics or it didn’t happen”.  

 

Neste fim de ano tirei férias sem Instagram, sem acompanhar tantos detalhes de centenas de vidas, sem compartilhar nada da minha. Passei dias sem receber nenhum estímulo fora do momento presente e vi diminuir drasticamente o conhecido medo de estar perdendo. Pela primeira vez tirei férias sem tirar fotos também.

Como resultado ganhei muito tempo para observar e para refletir sobre como essa rede molda nosso comportamento e nossas experiências*.
 

*este post foi escrito do ponto de vista de alguém que passa tempo demais online, principalmente no Instagram. Se este não é o seu caso 1 - parabéns! 2 - pode ser que você não se identifique muito com as questões levantadas.

 

O tempo que mal vemos passar

Existe um aplicativo que te mostra quanto tempo você passa no seu telefone. Ele se chama “Moment”, e compartilha com você relatórios diários sobre o seu uso: quanto tempo você passou no total, quantas vezes “pegou” o telefone, quais horários ficou por mais tempo. Para mim, nos dias de excesso, o relatório chega a mostrar 3h, 4h de uso diário. Em uma mesa de bar cheguei a ver que minha conta estava até leve, com relatos de 7h, 8h de uso do telefone por dia. E aí me pergunto: fora o trabalho, no que estamos investindo tantas horas quanto as que oferecemos de atenção aos nossos telefones?

No início do ano passado, decidi que iria filmar alguns dos momentos especiais. Não era um projeto nem nada, era algo somente para mim (tenho o hábito de fazer alguns vídeos de viagens e momentos especiais para guardar as lembranças mais vividamente). Filmava meu marido dormindo, a chuva, visitas em casa, a fumaça que sai de uma panela. Depois que comecei a usar o stories com mais frequência parei de fazer isso porque compartilhar conteúdo me trazia mais alegria momentânea. Mas no fim vi que deixei de criar uma história que tivesse significado para mim para passar a criar outra que tivesse para os outros. E sinto que acabei perdendo cenas lindas cheias de significado (pra mim). Na mesma lógica, decidi que ia estudar 10 minutos de francês por dia. Este projeto durou pouco. Já não posso dizer que não gasto a mesma quantidade de tempo decidindo o que vou assistir no Netflix diariamente.

 

A foto como um souvenir da vivência

Na busca por vivências memoráveis, a foto vira um troféu, uma prova de que realmente estivemos ali, vivemos aquela experiência, estávamos felizes. Mas, na medida que ela prova a todos a nossa feliz existência ela também nos priva do momento presente. Parar o que estamos fazendo em busca do mais fotogênico também limita a nossa experiência e em certa medida a transforma em um souvenir. Podemos pensar que fazemos isso rapidamente, que não nos custa tanto tempo. Para alguns, é mais simples do que para outros: tire uma foto, escreva o que você está fazendo e compartilhe em suas inúmeras redes. Coisa de 5 minutos. Para outros, a jornada é um pouco mais tortuosa: qual é o app mais incrível de filtros? qual legenda seria a mais interessante? qual mensagem por trás somente alguns entenderão? A mesma coisa pode acontecer ao ler uma notícia ou um livro, Você deixa de ler somente para seu próprio conhecimento, mas passa a filtrar o conteúdo pensando - será que esse quote é bom o suficiente para compartilhar no Facebook ou Instagram? Já tenho uma opinião que posso compartilhar sobre esse assunto mesmo não tendo conseguir ler a matéria inteira? (Isso sem nem falar a ansiedade que pode nos acometer após de fato decidir postar: ver que tipo de reconhecimento estamos ganhando pode ser viciante - e muito frustrante).

Em ambos os casos me pergunto se passar a ver o mundo por este ângulo fotográfico e compartilhável não nos toma muito mais tempo do que imaginamos. Como se fosse um programa constantemente ligado em nosso computador, mal percebemos que ele está ali, mas ele também drena nossa energia.

 

O que complementa o silêncio?

Silêncios incomodam. Tanto que uma grande prova de amizade é o fato de você poder ficar em silêncio em paz com alguém. Nas conversas do cotidiano, tentamos sempre preencher os pequenos silêncios - e acabamos tendo conversas menos interessantes do que poderíamos ter.

Estar “em silêncio” nas redes por esses 25 dias me fez perceber que esse incômodo também é uma verdade por lá. Recebi algumas perguntas de “você está bem?” - entendo que estas perguntas surgem também porque quebrei um padrão - muitos posts X nenhum post - mas vejo isso acontecendo em outros casos de “sumiço” também. Não estar postando pode ser um sinal de que aconteceu alguma coisa na vida da pessoa e rapidamente já presumimos que ela não foi boa. É como na vida presencial: os dias em que estamos mais calados também causam estranhamento.

Mas como é bom ficar em silêncio! E este período me fez pensar sobre o que quero falar para complementar o silêncio. Produzimos tanto ruído… será que conseguimos separar o que de fato queremos comunicar do que postamos simplesmente para não ficar em silêncio?

 

Os pesos invisíveis que carregamos

Acordamos e cada um segue sua rotina matinal particular. No entanto, acredito que na rotina de muitos de nós existe algo em comum: aquela olhadinha no celular. Aparentemente inofensiva, com duração equivalente ao nível do apego de cada um.

Há algum tempo tento observar o que acontece comigo após essa checada no celular. A imagem que me vem é a de que as fotos, vídeos, notícias e emails que lemos e vemos são como broches que vamos adicionando a um casaco. Uns mais leves, outros mais pesados. Entendi que esses estímulos diversos que recebemos não passam simplesmente por nós. Eles ficam e adicionam seu peso, muitas vezes sem que a gente nem perceba. O fato de acreditarmos que precisamos estar constantemente conectados não nos ajuda. Então mesmo em nosso tempo livre chegam a nós na mesma medida as notícias ruins do mundo e as alegrias dos nossos conhecidos. Sem perceber vamos adicionando tantos broches aos nossos casacos: medo de estar perdendo, desesperança, ansiedade, autocrítica, insegurança. Mal acordamos e já começamos o dia arrastando todo esse peso. E não me parece que é por acaso que estamos todos tão cansados, mesmo quando acabamos de acordar.

 

Uma proteção contra a ansiedade

Um filme para ver, um livro para ler - print. Uma receita para fazer - print. Uma notícia para ler - uma nova aba. Um novo projeto de um conhecido - uma nova aba. O medo de perder nos faz acumular e a crença de que precisamos estar a par de tudo para sermos interessantes nos deixa exaustos. O acúmulo se tranforma em um paliativo para nossa ansiedade - “verei isso depois”, dizemos. E nos pegamos tendo que organizar pastas de prints em nossos telefones. O que de fato perdemos deixando tudo isso simplesmente passar? Não estamos perdendo muito mais consumindo as mesmas informações em excesso?

 

Capital social

Views, likes, compartilhamentos são algumas das moedas que podemos acumular em nosso capital social. E hoje mais do que nunca vemos os benefícios do acúmulo dessa moeda: os “recebidos” (posts em que os influenciadores digitais mostram o que ganham por serem populares), os convites para trabalhos e inúmeros outros benefícios e privilégios que nem temos ideia. Esta pode não ser a sua ambição mas, em comum, também devemos sentir a mesma coisa: preciso estar nas redes sociais para divulgar o meu trabalho. Dentro deste raciocínio, logicamente concluímos que quanto mais capital social acumulamos, melhor será para nós. E assim todos acabamos entrando no jogo, sem querer querendo. Não tenho dúvidas de que o capital social funciona. Já vi acontecer em minha vida profissional muitas vezes. Mas com o crescimento das redes também crescem em mim dois incômodos: o primeiro sobre a injustiça dos algorítimos que só exibem o que você produz para uma pequena parcela dos seus seguidores e o segundo ao constatar que as redes sociais muitas vezes parecem ser a única vitrine que temos disponível. Como podemos usar nossa criatividade para divulgar nosso trabalho em diferentes plataformas?

 

 

As virtudes que não tem vez

Instrospeção, privacidade, silêncio, interioridade: onde se encontram as pessoas que não decidem acumular capital social? Com minha experiência de não ter um perfil pessoal no Facebook (já são 4 anos felizes longe da rede) pude vivenciar o impacto e o preço da minha ausência. Não estar constantemente produzindo conteúdo nos dias de hoje é uma semi-morte e os aniversários tornam-se sem dúvida menos agitados. Não estar ativo em uma rede é como não existir.

 

Conteúdo como um antídoto

Neste tempo também fiquei pensando em todos os perfis que amo. Todos me acrescentam conteúdo valioso sobre autocuidado, autoconhecimento, arte e cultura, saúde, alimentação. Mas o mais curioso foi poder observar que eles também agem para mim como antídotos para males que o excesso de consumo da própria rede me trazia. Ou seja, acessando bem menos, tenho mais tempo para fazer de fato as práticas que acrescentam para a minha vida (ler, estudar, meditar, cozinhar, conversar) e gasto menos tempo consumindo conteúdo que me põe pra baixo em primeiro lugar.

 

O desafio da atenção plena

As pessoas que são capazes de viver no momento presente (observando ativamente novas coisas em seu entorno e fazendo somente uma coisa de cada vez) vivem mais. Esta é apenas uma das conclusões dos benefícios da atenção plena. Hoje já sabemos como a mindfullness é positiva não somente para a nossa mente, mas também para o que entregamos para o mundo. Trabalhos melhores, conversas melhores, pessoas melhores. No entanto levamos no bolso esta grande tentação contra a atenção. “Se você não paga por um produto, você é o produto” - esta frase que define o marketing digital também explica porque os produtos que consumimos são tão tentadores e nos fazem passar tanto tempo neles. E também explica que não é totalmente sua culpa você querer pegar seu telefone em qualquer pausa que tem no dia a dia. Por isso talvez possa valer a pena considerar passar a deixar o telefone em casa, guardado na bolsa, menos acessível para você.

 

A capacidade de se esvaziar

Com nossa mente rodando programas que mal nos damos conta e arrastando casacos pesados por aí acredito que o problema é que poucos de nós temos a consciência do que estamos acumulando. E, principalmente, o treino, as ferramentas e a capacidade de nos esvaziarmos. A habilidade de conseguirmos caminhar com mais espaço livre para nossas próprias vivências e com mais energia para realizar planos e projetos a longo prazo.

 

Observe o que acontece com você

Se você se identificou com qualquer uma das questões acima, talvez possa valer a pena começar a observar o que acontece com você após essas pequenas interações com seu telefone ao longo do dia. Me dar conta do peso desnecessário que carregamos para mim foi um bom começo. Me questionar sobre como uso minhas redes também. Compartilho abaixo algumas das perguntas que fiz a mim mesma:

Quem é meu personagem digital?
O que compartilho sempre e o que fica de fora?

Porque eu sigo quem eu sigo?

Porque eu posto o que eu posto?

Como o que eu posto pode ser percebido?
Que impacto pode ter nas pessoas?

O que deixo de fazer por medo de não ser aceito?

Será que as pessoas ou familiares que retrato vão gostar dessa exposição de suas vidas?

Eu realmente preciso estar online e olhar para o meu telefone em todo o tempo em que estiver acordado?

Preciso levar meu telefone para onde quer que eu vá?

Onde traço o limite do que compartilho e do que preservo?

Como as pessoas à minha volta usam a tecnologia?
Quais exemplos quero seguir?

 
 

#ainternetqueagentequer

Escrevo tudo isso porque te amo, internet. Amo as redes sociais e precisaria escrever um livro para contar tudo que você já me deu e me dá todos os dias. Em 2017, após refletir sobre algumas das questões acima, pensei melhor sobre quem eu seguia e sobre meu personagem digital, deixei de seguir muitas contas, parei de fazer alguns tipos de posts e me abri mais para outros. Compartilhei assuntos especiais para mim que antes só fazia com alguns poucos amigos. O ganho foi enorme e verdadeiramente emocionante. Ampliei minha rede de apoio e tive muitas trocas memoráveis em ambientes pouco propícios a isso. Refletir sempre enriquece a minha vida. Não necessariamente a deixa melhor sempre hahaha mas ainda acho que vale a pena. Para criar #ainternetqueagentequer a gente precisa dar um passo pra trás e conseguir ver um pouco de fora tudo isso. Ainda somos crianças empolgadas com um brinquedo, não atingimos a maturidade digital. E fazer a lista do que a gente não gosta e não quer faz parte desse processo. Não nos damos conta, mas os nossos comportamentos também moldam os produtos digitais, já que somos monitorados à exaustão. Que com o nosso uso a gente possa mostrar que nossa atenção e o nosso tempo valem muito, e que não vamos desperdiçá-la sem reflexão.