Superconectados e sozinhos

Quanto tempo do dia você passa olhando para uma tela? De minha parte, posso dizer que, enquanto estou acordada, estou olhando para alguma. A TV até que tenho deixado um pouco de lado, mas me sobram o computador, o iPhone e o iPad. Trabalho, diversão e contato com amigos e família se misturam durante o dia, me fazendo passar muito, mas muito tempo mesmo, interagindo com essas telas.

É fantástico que a gente tenha hoje a possibilidade de aprender sobre qualquer assunto instantaneamente, que consigamos acompanhar o crescimento da priminha que acabou de nascer e mora em outra cidade, que possamos trabalhar usando e-mail, Skype e Whatsapp. Antigamente eu pensava: queria ter vivido nos anos 1960, 1970, pra aproveitar todo aquele desbunde político-cultural. Mas hoje não tenho dúvida de que vivemos a melhor época da história - ou ao menos a época com mais possibilidades.

A tecnologia facilita a vida, nos mostra mundos que não conheceríamos, nos faz estar perto de mais gente simultaneamente. Mas quem aí já não se sentiu extremamente sozinho, por mais que o número de amigos no Facebook fosse grande, os likes no Instagram constantes e as notificações do Whatsapp idem?

Sherry Turkle fala sobre essas sensações em uma ótima palestra do TED. Ela é autora de “Alone Together”, livro em que discorre sobre como esperamos cada vez mais da tecnologia e menos uns dos outros.

A psicóloga estuda como os aparelhos tecnológicos e a nossa presença on-line estão redefinindo coisas tão básicas como a conexão e a comunicação entre as pessoas. Conectados o tempo todo, ela diz, paramos de deixar espaço pra solidão. Nos alimentamos de likes e de comentários, de números de amigos ou seguidores que não param de crescer. Lembro que já li o quanto essas interações provocam reações físicas no nosso corpo. Quando recebemos um e-mail novo, nosso cérebro dispara adrenalina - e talvez seja por isso que checamos a caixa de entrada de cinco em cinco minutos.

Quando interagimos on-line, diz Sherry, temos a chance de editar, deletar e corrigir qualquer informação que queremos passar. Sendo que as relações humanas estão longe de ser perfeitas. Temos falhas, as pessoas que amamos, também, isso nos faz entrar em conflito e é a partir disso tudo que refletimos, aprendemos e crescemos. Quando queremos eliminar essa parte das nossas vidas, podemos ficar inábeis em coisas básicas.

Assitam ao vídeo:

Eu mesma já falei muito uma frase que a Sherry comenta ter ouvido bastante: prefiro mandar SMS do que falar ao telefone. Afinal escolho o momento em que quero interagir. Mas será que não vale mais a pena ligar praquele amigo uma vez no mês, do que bombardeá-lo com uma série de SMSs que nunca termina?

Outro aspecto interessante da palestra é quando ela adapta a frase do Descartes (“Penso, logo existo”) para os tempos atuais: “Compartilho, logo existo”. Parece que só somos legítimos quando temos uma presença on-line robusta. Não adianta só ler um livro, tem que postar no Instagram. Não adianta achar um horror a nova aliança política noticiada no jornal, tem que dar sua opinião. Parece que topamos participar dessa corrida maluca e ansiosa dos excessos tecnológicos e nem pensamos antes, apenas apertamos o botão Send.

A autora termina o vídeo convidando a uma reflexão sobre como nós queremos nos conectar, ressaltando a importância de aprendermos a ficar sozinhos - pra entender o quanto isso é diferente de se sentir solitário.

Desde que assisti a esse vídeo, tenho tentado ficar cada vez mais focada no presente. Quando estou em um restaurante, deixo o celular na bolsa (dou umas escapulidas ainda, confesso). Os grupos no Whatsapp são todos silenciados. As notificações do celular, desligadas. Muitas coisas que vi ou li continuo guardando só pra mim. Ainda assim, sinto que essa tela me puxa mais do que deveria... Seguirei na tentativa de mudar isso.

E vocês? Às vezes se sentem confusos diante de tanta conversa intermediada pela tecnologia?

Dani Arrais2 Comments