Suas ideias (e você) sempre podem melhorar

Em novembro do ano passado fiquei sabendo que a Natura e o Ekos, produto da marca, iriam promover um hackathon com o objetivo reconectar as pessoas com a natureza (tema que tem sido uma grande paixão e busca em minha vida - já falei um pouco sobre isso aqui). Me interessei na hora e me inscrevi. Em dezembro recebi a boa notícia: fui selecionada para ser uma das 32 pessoas que iriam participar de 4 dias de imersão e maratona em Belém. Alegria! A palavra hackathon quer dizer maratona de programação. O termo vem de uma combinação das palavras inglesas “hack” (programar de forma excepcional) e “marathon” (maratona). No caso da Natura, esta maratona foi um pouco mais ampla, pois juntou profissionais de diversas áreas (designers, arquitetos, engenheiros de produção, cenógrafos, biólogos, economistas etc), e não somente programadores.

O objetivo final do Hackathon era criar uma ideia (demonstrada com um protótipo) que teria como objetivo reconectar as pessoas com a natureza.

O hackathon aconteceu neste mês de março e foi uma experiência tão transformadora que eu não poderia deixar de compartilhar com vocês. Muitos dos aprendizados que tive não são exatamente inovadores, alguns são até lugar comum. Mas sabe quando você escuta uma coisa a vida inteira mas só quando a vivencia que ela passa a fazer sentido? Vamos a eles:

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Valorize mais a diversidade de pessoas e ideias

É maravilhoso estar com quem temos afinidade, interagir com pessoas com quem dividimos referências similares e fazer coisas que a gente gosta. Só que, ao fazermos isso, acabamos vivendo em círculos, nas famosas bolhas que tanto criticamos mas pouco fazemos para estourar. Nestes dias em Belém troquei ideias com pessoas de todas as idades, profissões, regiões. Tive que criar sobre pressão, dormi pouquíssimo, fiquei isolada do mundo. Nesse processo surgem embates, problemas de comunicação e dificuldades de todos os tipos, mas o resultado é muito mais rico.

Não se acomode com as primeiras boas ideias 

Criar é maravilhoso e em um grupo de pessoas criativas as ideias fluem e surgem rapidamente. Em pouco tempo já começamos a sorrir e a nos empolgar com o que estamos produzindo, a nos apaixonarmos por nossas próprias ideias. E isso muitas vezes faz com que a gente se acomode e já fique satisfeito com a primeira ideia. Para uma boa ideia nascer é necessário o caos, estressar e espremer tudo o que temos, até mesmo para comprovar que aquela primeira ideia era mesmo a melhor (geralmente não é).

Se a sua ideia precisa de mais de uma frase para ser explicada ela ainda não está pronta

Escrevo estes aprendizados na perspectiva de uma profissional da comunicação, que é o que sou. E o que percebi é que, quando uma ideia ainda não está redonda, você começa a adicionar um monte de coisas para ver se ela começa a ficar mais atrativa. Se você sentir que está fazendo isso, pare. Enquanto não conseguir explicar o que é a ideia em uma frase, ela ainda tem excessos e pode melhorar.

Feedback: os elogios paralisantes e as críticas que nos levam adiante

Na primeira roda de feedback da ideia do meu grupo, só ganhamos elogios. Ao contrário do esperado, achamos aquilo muito estranho e, apesar de felizes, ficamos desconfiados. No dia seguinte, vendo a ideia mais a fundo, recebemos feedbacks negativos e críticas de todos os lados. Agora sim! É difícil explicar, mas se adquire um vício pela crítica, porque é ela que transforma a sua ideia no melhor que ela pode ser.

Ao buscar feedback, considere buscar os seguintes tipos de pessoas:

  • Good cop: o primeiro feedback é legal que seja de alguém amoroso. Você ainda deve estar frágil, sua ideia, muito fresca, e uma super crítica pode matar o que acabou de nascer. Sinta o que essa pessoa delicada e amorosa tem a dizer. Se a resposta for positiva, siga adiante. Se não (provavelmente a pessoa amorosa tem receio de dizer toda a verdade, você vai ter que ler suas expressões faciais), trabalhe mais na sua ideia antes de seguir adiante;
  • Bad cop: agora é a hora do golpe. Busque alguém sem freios e sem frescuras. O quanto antes você souber dos problemas das suas ideias, melhor. Se prepare psicologicamente antes desse momento!;
  • A pessoa dos negócios: eu não sei quanto a vocês, mas eu não só quero sonhar e ter ideias, quero botá-las no mundo, ganhar dinheiro e fazer girar a economia! Por isso não deixe de conversar com quem tem aquele olhar específico sobre viabilidade e modelos de negócios;
  • A mãe: não precisa necessariamente ser sua mãe, mas alguém que tenha aquele perfil maternal e que te dê conselhos como “siga seu coração”, “acredite na sua ideia”. Muitas vezes no meio deste processo isso é tudo o que você precisa escutar;
  • As pessoas reais: muitas vezes você fica tão envolvido no processo de criação e na troca com outros profissionais que você se esquece que está criando para pessoas reais e que são elas que vão ter que gostar do seu produto ou não. Não deixe de incluir o seu target no processo de criação e feedback da sua ideia.

O maior desafio é manter a empolgação

Ok, as críticas são importantes mas não tem como negar que você vai para o chão quando recebe uma porrada em forma de feedback. Nesses momentos é preciso se proteger. Somos humanos e baixamos a energia, mas é preciso saber recuperá-la e rápido para conseguir seguir a diante. Use o que você tiver de disponível para se animar: se reconecte com o problema que você quer resolver, respire fundo, tente meditar, coma uma coisa gostosa, faça uma massagem (valeu, Natura, que disponibilizou uma sala de massagem para os participantes!), ligue para alguém que você ama. Dê seu jeito para manter a empolgação e a boa energia.

Não se apegue

Deixe ir. Deixe sua ideia se transformar. Deixe que ela tenha tantas contribuições que você nem saiba mais quem criou o que nem quando. Ela vai ficar melhor. E você também.

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Um app ou uma plataforma geralmente não são as ideias em si - eles devem ser o meio que resolve um problema, e o papel deles é ser invisível

Vimos acontecer uma coisa interessante em vários grupos, inclusive no nosso. Quando a ideia ainda não estava bem resolvida geralmente as descrições começavam com “é um app, é uma plataforma que…”. Se isso estiver acontecendo com você questione-se se você não está somente replicando modelos existentes.

A tecnologia sempre pode melhorar nossa experiência no mundo e tornar os processos mais divertidos

O conceito de hackathon é o de programar para criar uma nova solução. Se você não sabe muito de programação ou tecnologia pode acabar tentando evitar usar a tecnologia por medo ou até mesmo ignorância. Sou apaixonada pelos benefícios da tecnologia, mas percebi que sei muito pouco sobre suas possibilidades e o que aprendi é que pensar como um hacker pode ser muito divertido e que a tecnologia pode melhorar qualquer ideia, mesmo a mais analógica.

De boas ideias o mundo está cheio

É sério mesmo. Isso não é o suficiente. Uma boa ideia é mais do que um conceito: é uma combinação de inúmeros fatores como timing, um time que queira e tenha as habilidades para levar aquilo adiante, um problema que realmente precisa ser solucionado. Saiba que uma boa ideia é só o começo, você vai precisar de muito mais para fazer ela acontecer.

O pitch - apresentação é coisa séria

Legal, agora que você está feliz e contente com a sua ideia, chegou a hora de apresentá-la. O pitch é uma apresentação de 3 a 5 minutos que tem o objetivo de conquistar o interesse da outra parte (investidor ou cliente) pelo seu negócio. Dizem que o raciocínio que você deve ter para esta apresentação é o de que você se encontrou com um possível investidor na entrada de um prédio e todo o tempo que você tem é o da portaria ao elevador. Listo abaixo o que aprendi com o nosso pitch.

Qualidade é treino

Sabe aquelas pessoas que você vê nos palcos do TED e que te fazem chorar? Que resumem a ideia de forma brilhante e te motivam e convencem no ato? Tenha a certeza que aquela não foi a primeira apresentação delas e que elas treinaram muito para conseguir ser assim. Treine. E treine muito. Ensaie na frente do espelho e das câmeras. Não confie que você vai se sair bem na hora sem treino. Esse raramente é o caso.

Um bom pitch quase não precisa de um PPT

Ou Keynote, ou a ferramenta que você preferir. Uma boa ideia é tão simples de explicar que quase nenhum texto é necessário.

Design é importante

Aprenda a fazer com que suas apresentações além de boas também sejam bonitas.

Envolva seu público

Não use roteiros pré-definidos como - o briefing > o problema > o conceito > a ideia > como funciona etc. Crie uma história que se conecte com uma pessoa real. Faça ela entender o problema como você e peça para ela começar a imaginar como seria ter a solução que você está oferecendo pronta. Quando a ideia é boa o público já começa a visualizar os diferentes tipos de usos e possibilidades quase sozinho. Você não precisará de bullet points para isso.

Nada substitui o brilho nos olhos na hora de um pitch

Se eu pudesse dizer qual é o item mais indispensável para uma apresentação, escolheria este.

Se você não está encantado por sua ideia, não conseguirá deixar outras pessoas encantadas

Se depois de todo o feedback, de todo o desprendimento e de todo o trabalho você ainda não estiver encantado pela sua solução, trabalhe mais. Só assim você conseguirá passar este encantamento para os outros.

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win

No fim do nosso hackathon, 8 grupos apresentaram soluções incríveis que eu gostaria de poder usar agora. Tenho a alegria de compartilhar que o grupo do qual fiz parte foi o vencedor do #HackathonEkos! Tive a alegria de criar o projeto Quintal Mágico com o estudante paraense José Neto e os estudantes paulistanos Paulo Paciência e Marcela Porto. Cada um de nós vai ganhar uma impressora 3D e a oportunidade de apresentar suas ideias aos principais líderes de inovação e alguns dos parceiros da Natura.

Conheça a nossa ideia:

Natura anuncia projeto vencedor do Hackathon Ekos (Natura Campus)

Conheça o projeto vencedor do Hackathon Ekos: Mãos na Mata (Startupi)

Os 32 participantes e toda a equipe organizadora e de apoio me inspiraram muito mais do que eu poderia imaginar. Tudo o que escrevi aqui é totalmente baseado em minhas trocas com essas pessoas maravilhosas.

E você, já participou de um hackathon? Compartilha com a gente seus aprendizados!

Luiza Voll15 Comments