Sem glamour: como é o dia a dia real de uma nômade digital?

Foto da Sharon Eve Smith

Ser nômade digital é o novo trabalhar com o que você ama. Uma coisa está contida na outra, sem dúvida, e tenho tido a impressão de que para um pequeno nicho fazer um trabalho com propósito e ainda viajar o mundo é o auge da realização.

Conheci a Fê Neute pelo blog dela, o Fêliz com a Vida. Há duas semanas, nos conhecemos ao vivo, em uma rápida passagem que fiz por Nova York. Mais uma vez a internet nos aproxima de gente com quem temos sintonia e muita coisa pra falar - parecia que nem era nosso primeiro encontro, tamanha familiaridade que acompanhar o blog, a newsletter, o Instagram e o Snapchat de alguém pode nos trazer. Foi tão legal!

No meio da conversa, a Fê disparou: em seis meses vivendo como nômade digital ela se deu conta de que a vida que ela esperava era bem diferente da que ela estava vivendo. Que rápido, pensei. E ela começou a me contar como ser nômade digital é muito interessante e divertido, mas exaustivo. “É assustador pensar que você pode ser tudo e viver do jeito que você quiser. Existe um certo alívio inconsciente em ‘não ter escolha’, mesmo que isso também seja uma escolha que as pessoas não enxergam”, diz ela em entrevista para o blog da Contente. “Parece que quando o céu é o limite, a gente descobre que tem medo de altura.”

Conversei com ela sobre essa escolha de vida, no que ela tem de bom e de ruim. Mais uma vez, um daqueles papos super esclarecedores e estimulantes. Espero que vocês gostem!

- Como você descobriu que queria ser uma nômade digital?

Foi mais do que uma descoberta, foi a consequência de uma série de fatores. Aquele típico momento “ou vai, ou racha”, sabe? Há 4 anos, eu estava com 30, tinha uma grana guardada e pensava em comprar um apartamento em São Paulo. Isso significaria, no meu caso, assumir um compromisso de no mínimo 10 anos com um financiamento imobiliário. Ao mesmo tempo que eu queria muito dar esse passo, queria ter a minha casa, eu não me sentia confortável tomando essa decisão.

Além disso, viajar sempre foi a minha prioridade na vida. Eu dividia as minhas férias e emendava o máximo de feriados para poder conhecer o maior número de lugares por ano e sabia que comprar um apartamento me faria abrir mão de muitas dessas viagens.

A outra coisa é que, como 90% dos publicitários, já fazia um tempo que pensava em ter um plano B. Quem conhece o mercado sabe que a profissão esgota e muitos a abandonam para fazer outras coisas. O meu grande problema é que eu não tinha ideia do que fazer, já que eu sempre amei comunicação.

Um pouco depois disso, eu conheci um nômade digital que vivia viajando há 5 anos. Eu nunca tinha ouvido falar sobre esse estilo de vida. Para mim, era algo tão impossível quanto arrumar o emprego da Carrie Brandshaw no Sex and the City, sabe? Quem consegue trabalhar e viajar o mundo ao mesmo tempo? Fiz uma breve pesquisa e vi que tinha muito mais gente do que eu imaginava vivendo dessa forma e, desse momento em diante, eu não conseguia pensar em outra coisa.

- Quando e como você efetivamente se tornou uma?

Primeiro eu tomei uma decisão interna. Aquela que a gente sabe que vai fazer algo, mas ainda não sabe quando. Depois, comecei a fazer pesquisas de custo de vida, contas, projeções. Vi que meu dinheiro seria mais do que suficiente para viver um ano sem nenhuma renda e aí decidi de verdade. Se não fizesse isso naquele momento da minha vida, não faria mais.

Embora eu tenha pedido demissão, criado um blog e ido viajar, eu não me considerava uma nômade digital porque eu não estava ganhando dinheiro. Foi só quando eu arrumei o meu primeiro frila que eu pensei: agora sim! Foi quando eu tive certeza de que isso não era uma lenda. Era possível sim ganhar dinheiro enquanto eu estava viajando!

- Qual foi a coisa mais legal que você descobriu no processo?

Foi perceber que eu sou capaz de fazer tudo o que eu me empenhar para fazer. Me descobri designer, escritora, editora de audio e video, blogueira, freelancer, empreendedora e até cozinheira. Isso nunca teria acontecido se eu tivesse continuado presa ao status e, principalmente, ao meu salário de diretora de contas de uma grande agência em São Paulo.

- E a mais difícil?

A coisa mais legal desse processo foi também a coisa mais difícil. Para mim, foi lidar com o paradoxo da escolha. É assustador pensar que você pode ser tudo e viver do jeito que você quiser. Existe um certo alívio inconsciente em “não ter escolha”, mesmo que isso também seja uma escolha a qual as pessoas não enxergam.

Parece que quando o céu é o limite, a gente descobre que tem medo de altura :)

- Tirando o filtro do glamour, como é a vida de uma nômade digital?

Ela, com certeza, é bem menos glamourosa do que as pessoas imaginam. Eu também acho que isso varia de acordo com as prioridades de cada um.

Hoje, eu percebi que é muito importante para mim viver com conforto. Quando eu não durmo direito o meu dia não rende e eu não tenho a mesma energia. O mesmo acontece quando eu não me alimento de forma saudável ou não faço exercícios. Viajar prejudica bastante tudo isso e com o tempo se torna cansativo.

A outra coisa é que não é férias. Dá sim para aproveitar bastante os lugares, mas não dá para ficar abrindo concessões o tempo todo como quando estamos de folga. Se você quer construir um negócio de verdade e não somente arrumar um “jeitinho” pra ganhar dinheiro enquanto viaja é preciso trabalhar e muito!

Eu passo semanas sem sair de casa pra nada, trabalhando da hora que eu acordo até o jantar. Almoço em frente ao computador muito mais vezes do que quando eu tinha um emprego normal. A diferença é que por estar trabalhando com algo que eu acredito e morando em lugares que eu gosto, isso é menos dolorido.

Aquela vida de trabalhar na beira da piscina e fazer reuniões via Skype da praia é a excessão e não a regra. Digo isso levando em conta a vida dos mais de 100 nômades digitais que eu conheci pessoalmente ao longo dos últimos 2 anos e não somente a minha experiência pessoal.

- Voltas ao mundo têm prazo de validade?

Eu diria que existe uma diferença entre quem tirou um período sabático para dar uma volta ao mundo e quem decidiu viver como nômade, sem casa e sem data para voltar. Quando você tira um sabático, ele geralmente tem um prazo de validade predeterminado. E, saber que vai acabar, torna tudo mais emocionante. Faz você querer aproveitar cada segundo, afinal, você está de “férias". A vida nômade é um pouco diferente. E aqui eu digo nômade mesmo, quando não tem uma casa para voltar nem pertences guardados em nenhum lugar.

Quando você vive dessa forma, coisas que antes eram extraordinárias viram ordinárias. Depois de visitar 28 templos budistas o 29º vai te impressionar muito menos do que o primeiro ou o segundo, mesmo que este seja ainda mais bonito ou único. O mesmo funciona para praias e até para as maravilhas do mundo. Não quer dizer que você não se empolgue, mas conhecer esses lugares começa a fazer parte da sua rotina.

O que passa a ser extraordinário são as pessoas que você conhece, quando a família te visita ou voltar para a sua cidade do coração para se reunir com os velhos amigos. Embora viajar seja realmente incrível e muito sedutor, no fim das contas a vida é feita dos relacionamentos que você cultiva.

Eu descobri que gosto muito mais de viajar de férias, com a cabeça desligada e toda a minha atenção voltada para a experiência que eu vou viver. Hoje, viajo pensando em trabalho, coisa que nunca fiz antes. Também sinto falta de um lar, seja ele onde for. Uma casa que tenha a minha cara, para onde eu possa voltar sempre que estiver cansada de viajar. Sim, viajar cansa! É claro que isso varia de pessoa para pessoa, mas acho que o prazo de validade existe para todos, seja ele 6 meses ou 20 anos!

* A foto é da Sharon Even Smith

Dani Arrais9 Comments