Férias offline: o que ganhei ao ficar 15 dias sem internet

 Todas as imagens deste post foram gentilmente cedidas pelo Gabriel Pardal, do maravilhoso  @canibal.vegetariano

Todas as imagens deste post foram gentilmente cedidas pelo Gabriel Pardal, do maravilhoso @canibal.vegetariano

 

Qual foi a última vez que você fez uma viagem e não teve acesso à internet? Aliás, qual foi a última vez que você escolheu ficar offline? Conhecer lugares novos, tirar muitas fotos e não postar nada? Eu fiz isso nas minhas férias - e foi maravilhoso.

Eu passo muito tempo na internet, no celular. Tenho um trabalho que “justifica” um pouco o comportamento, mas a real é que isso não é real. A gente vive conectado demais por inúmeros motivos. O principal deles talvez seja porque as ferramentas são feitas para que a gente fique viciado. E, nesse tópico, me interessa bastante a leitura sobre como os criadores de ferramentas de massa da internet, como o like e o Facebook, já se deram conta de que seus “brinquedinhos” não são inofensivos e propõem uma nova ética do design para as próximas construções.

Sabe aquela conversa que já tivemos, de que a internet é o que fazemos dela, que você escolhe como usar, tem que ser ativo no que consome e administrar o tempo que gasta nela? Não tem determinação e autoconsciência suficientes quando a estrutura do negócio é feita para que a gente não saia dele, né? Ainda assim, tenho a impressão de que, cada vez mais, a gente vai precisar criar momentos de desconexão. Desconectar para conectar. Porque quando a gente sai da internet o mundo fica grande como ele realmente é.

(Sugestão de leitura: especial da Contente sobre Detox Digital)

 
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A decisão de desconectar

Desconectar-se é quase um ato de coragem. Se lermos por coragem a capacidade de agir apesar do medo e quisermos colocar nessa cota o medo de deixar de saber a vida dos outros, do que está acontecendo na cidade e no mundo, daquele texto que todo mundo compartilhou, do vídeo que bombou e de tudo mais. E, também, do medo de ficar sem contar da nossa vida, de manter a construção cuidadosa de nossas personas digitais.

A decisão de ficar offline veio do cansaço imenso, dessa angústia quase diária. Da impressão de que todo mundo faz muito mais do que eu sou capaz. Do apego pelos likes. De um bode de tanto oversharing. De ver as pessoas postando como se fossem únicas e especiais as coisas que todo mundo faz todos os dias. E, claro, de um gosto por desafios. Estava vendo demais a vida dos outros, consumindo uma quantidade de informação (e de tragédias) que o cérebro humano não é capaz de processar.

 
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Viajar e desligar o celular

Para tornar o desafio real, contei pra alguns amigos. No período que antecedeu a pausa, quase zerei minha caixa de entrada, coloquei aviso de ausência, escrevi no Whatsapp também. Deixei o contato da Luiza para assuntos da Contente. Pesquisei sobre os destinos, os lugares que queríamos visitar, as exposições que queríamos ver, se tinha show. Imprimi um arquivo com tudo, incluindo endereços. Foi por aí que nos guiamos - e por um Google Maps ocasional no celular de Laura, minha companheira de viagem.

O vôo atrasou mais de duas horas. Um mau humor gigante se instalou em mim, enquanto fiquei olhando stories infinitos. Como viria a descobrir no detox, momentos de mudança de energia são os que mais me puxam para o celular. É quando a gente tá dispersa, se chateou com alguma coisa, tá achando uma conversa muito chata ou quer procrastinar que mais não conseguimos desgrudar da internet.

Quando finalmente embarcamos e recebemos o aviso para desligar o celular, veio uma onda de angústia/ansiedade. Como vou ficar sem celular por 15 dias socorro?? Durou cinco minutos. Comecei a ler “Minha vida na estrada”, de Gloria Steinem. Que mulher! Quando o avião pousou em Lisboa, fiquei observando aquela cena corriqueira: todo mundo já levanta e pega o celular. Esperar as malas? Só dando aquela olhada no Face. E eu lá, olhando. Me achando diferentona, né? haha

 
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Não ter o celular como companheiro de todas as horas

Acordar e não olhar o celular. E não ter vontade de. Não sabia que tão rapidamente a gente se acostuma com uma rotina diferente. Que bom! Ir dormir sem ficar aquela meia horinha olhando o Instagram, sabe? A sensação que dá é que a cabeça está mais livre, o corpo, mais descansado.

Foi porque eu não estava olhando o celular que tive um dos momentos mais uau da viagem. Estávamos em um bar, esperando a hora de um filme, quando vejo um dos grandes ídolos dessa Contente: o artista digital Jonathan Harris. Tomei coragem, me apresentei, falei do que a gente faz e do sonho de conversarmos mais com ele, que foi super simpático e ainda me convidou para uma palestra.

Outra coisa legal foi andar pelas cidades sem depender o tempo todo de mapas de localização. A Lisboa eu já tinha ido, então consegui me lembrar de vários lugares. Em Amsterdã, a segunda parada, tudo era novo, então andar trouxe surpresas - e muita batata frita com molho joopie (obrigada, @clarissag!).

Talvez, além de ficar mais offline, a gente também ganhe ao fazer as coisas sem tanta indicação. É doido esse mundo com StoriesTV para as pessoas darem dicas sobre absolutamente tudo, né? Do que você deve comer de café da manhã ao que você deve ouvir, ver, comprar etc. É um tal de “você tem que” conhecer tal lugar que, poxa, onde fica a surpresa?

O universo das dicas me lembra o quanto nos tornamos acumuladores digitais. O seriado do Netflix que todo mundo tá vendo, o show imperdível, a lista dos melhores livros do ano? Tira um print e guarda pra depois. Quanta informação a gente guarda e o quanto isso nos deixa ansiosos porque nunca-jamais-em-tempo-algum vamos dar conta de tudo? Ficar offline me poupou dessa fadiga.

 

A visão dos outros

Antes das férias, eu me peguei várias vezes julgando muito a vida alheia. Em Lisboa, encontramos uma amiga querida para ouvir um fado. Falamos sobre como todo mundo tá querendo ser muito legal internet, postar suas conquistas, se apresentar mesmo como se estivesse em uma revista de celebridades, sem dar espaço para vulnerabilidade. Falei que, em determinados momentos, até sentia raiva. Daí ela disse: logo você, que tem a missão de espalhar amor na internet? Fiquei feliz com a leitura dela e com vontade de me aproximar mais disso.

Os momentos em que eu mais quis um celularzinho, uma olhadinha no Insta, aconteciam quando a Laura ficava mais no celular - o que, diga-se de passagem, ela fez bem pouco. Ela não tava fazendo o desafio, mas é quase automático: se quem tá perto de você olha menos, você olha menos. (Vale dizer que a gente procura besteira pra se distrair de qualquer jeito. Assistimos na TV do hotel vários episódios de um reality show de reforma de hotéis, haha)

Aliás, perguntei pra ela o que achou do meu detox, algumas palavras que vinham à mente. E ela falou que eu estava menos ansiosa e mais presente, interessada, disponível e contemplativa. Uau! Essa é uma versão de mim da qual quero estar próxima sempre.

 

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Estoure sua bolha, ganhe perspectiva

A coisa mais legal de ficar 15 dias offline foi ganhar perspectiva. Meu mundo se ampliou. Ganhou um pouco mais profundidade. Larguei um pouco o dia a dia, tão igual em seus excessos, e vi que a gente precisa sempre buscar esses momentos de reconexão com a gente mesma. Li seis livros. Cada um mais maravilhoso que o outro. Eles falavam ou de feminismo, ou de negritude, ou das duas coisas. São tantas as vivências no mundo, e eu quero me aproximar mais delas.

Se meu consumo mudou? Um pouco. É impressionante como é fácil cair na rotina de novo. No recesso de fim de ano, voltei ao modo desconectada e super leitora. Ou seja, ainda não achei o equilíbrio pra usar menos a internet e com mais sabedoria no dia a dia.

Acho que voltei um pouco cansada da minha internet. Se eu falar quero furar a bolha me peçam algo menos clichê, mas a real é que eu quero, na internet e fora dela, ampliar minha visão de mundo. Conhecer outras histórias, vivências, outras experiências. E, também, criar sempre oportunidades para ficar offline, focar nos afetos, nas conversas, nas músicas, nos livros, na casa ou no destino que for. Internet, eu te amo, mas a gente não precisa se ver tanto toda hora. Que a gente construa uma relação bem saudável e consciente em 2018. Vamos precisar.