O que queremos promover?

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Imagem: @tristezinha

Tenho uma relação complicada com a leitura de notícias. Caminho em um constante desequilíbrio entre aprofundamento e alienação. Não consegui ainda encontrar o caminho do meio.

Minha forma favorita de acompanhar as notícias tem sido seguir algumas newsletters como a do Nexo e a do El Pais. Mas, apesar de admirar esses canais, não deixo de lembrar que essas são vozes corporativas. Como não tenho Facebook, às vezes sinto falta de ver o que as pessoas estão comentando. Nesse momento vou para o Twitter.

Aí começa o nó na minha cabeça e o motivo desse post: o que tenho percebido nos últimos tempos é que grande parte das pessoas que sigo, pessoas que admiro, têm promovido mais absurdos do que fatos importantes. E o pior: os absurdos e as tragédias parecem ter um poder de atração maior do que o que de fato preciso ler e entender melhor. A cada novo absurdo me vejo em um túnel que só acaba ao chegar até o fato mais abominante. Ao terminar de ler tudo vejo o mundo sem esperança.

Em um dos seus últimos textos, Mark Manson traz o seguinte trecho:

Social media, which is becoming the primary driver of news stories in the world, is designed to promote stories that generate strong reactions from people. This is why you hear about every stupid racist thing that’s ever said, yet arguably more impactful news, such as changes in financial regulations, goes undiscussed.

Aqui vejo inúmeros perigos, dos mais óbvios e comerciais até aos mais subjetivos. Nos esquecemos que a internet NÃO é livre e que a maioria das vozes que lemos tem interesses econômicos por trás. Canais de notícias querem cliques, notícias indignantes geram mais cliques, logo esse é o corte comercial da coisa. O maior destaque não vai para a melhor notícia nem para a mais importante, mas a que vai gerar mais views para o canal. Para o perigo mais subjetivo, recorro a um quote que gosto muito, do Muhammad Ali: “What you're thinking is what you're becoming.”

Vivemos em um país em que não faltam absurdos todos os dias. Somamos a isso a grande quantidade de opiniões repletas de atrocidades de políticos, celebridades e desconhecidos. Lemos e nos indignamos. Postamos mostrando a nossa indignação. Mas aqui fica a pergunta: será que devemos promover o que não queremos que prospere passando isso para frente?

É uma pergunta verdadeira, gostaria mesmo de ouvir a opinião de vocês sobre isso.

De um lado, vejo a importância da denúncia dos absurdos - mostrar para o maior número de pessoas que algo que nos revolta está acontecendo. Quanto mais pessoas sabem de atrocidades, maior a chance de conseguirmos justiça.

Do outro, acho que falta um filtro pessoal do que é importante denunciarmos versus os fatos para os quais estamos somente dando mais voz e poder.

Temos consciência de que cada post e tweet também promove o que não gostaríamos que existisse? Onde está a linha de corte do que é importante se revoltar e passar para frente e do que simplesmente deveríamos deixar morrer ali mesmo?

De repente a pergunta que todos deveríamos fazer antes de passar alguma notícia para frente deveria ser: “isso contribui para o término desta cultura negativa? Isso contribui para o nosso crescimento como sociedade?”

Sinto que é extremamente importante termos os nossos filtros pessoais pré-estabelecidos antes de promovermos algo: passar para a frente é sempre uma mistura de denúncia e promoção. Sim, estamos fazendo uma denúncia mas ao mesmo tempo estamos ampliando a voz dessas pessoas. Estamos conscientes de que também somos um canal de divulgação do que abominamos? E mais importante: estamos promovendo mais as culturas e ações de quem admiramos ou de quem rejeitamos?

A forma de acabar com uma cultura negativa não deveria ser a de promover os comportamentos que nos elevam e não os que continuam contribuindo para ela? No especial sobre Detox Digital que lançamos recentemente, Gustavo Gitti escreveu 5 eixos para lidarmos melhor com tanta informação. O que mais me impactou foi o trecho abaixo:

“Precisamos treinar diariamente a capacidade de reconhecer visões por trás de uma citação no Facebook, de um índice de livro, de um vídeo, de uma expressão, de uma piada, de uma palestra, de uma conversa… Uma vez de saibamos fazer esse mapeamento, vamos nos aproximar de visões amplas e descartar visões restritas, como todo tipo de preconceito, pseudociência e pseudoespiritualidade. Sugiro não promover, não compartilhar, não divulgar de modo algum as visões restritas que não estimulam o florescimento humano — nem mesmo para criticar. O método mais poderoso de acabar com uma cultura não é lutar contra ela a partir dela mesma, mas dar nascimento a outra cultura.”

Quais culturas podemos promover para acabar com o que não queremos mais ver em nosso país e no mundo? Que as nossas vozes gritem ao promovê-las.

Luiza Voll5 Comments