O jornalismo para além da crise

ojornalismo_final O jornalismo morreu. As pessoas não leem nada. Querem informação mastigada. Só consomem no formato Buzzfeed. Jornalismo, vai com Deus. RIP jornalismo. Quem lê tanta notícia? Frases desse tipo aparecem constantemente no meu feed. Quando a grande mídia faz mais um de seus passaralhos (demissões em massa) ou contrata um colunista polêmico, a discussão volta à tona. Quando fica na cara algum tipo de blindagem a certo partido político, também. Muitos dizem que o jornalismo vai mal das pernas, que é difícil competir com tanta informação disponível na internet, ainda mais quando ela é gratuita.

Eu discordo. Afinal, o que é que a gente passa o dia fazendo na internet? Lendo - e lendo muita notícia. Se a informação é relevante, se as fontes são confiáveis, ou se é tudo uma grande porcaria, aí é outra história. Não vamos aqui entrar no mérito de que muitas das notícias que consumimos é sobre a vida dos outros, nossos amigos, conhecidos, celebridades que ficaram famosas simplesmente porque quiseram que isso acontecesse. É inegável, no entanto, que grandes histórias sempre foram e serão relevantes e que hoje temos a chance de potencializar isso ao máximo. Aparece um vídeo sobre a Globeleza ser negra demais pra ocupar a TV ? A gente vê. Textão da Eliane Brum toda semana? Sempre dá tempo de ler.

Pensando nisso, resolvi conversar com pessoas que estão à frente de três novas iniciativas no Brasil: Aos Fatos, Brio e Nexo. O Aos Fatos é uma plataforma de checagem de informação. Sabe o grampo do áudio entre Dilma e Lula? A equipe faz um apanhado pra ver se foi legal ou não. O Brio é dedicado a grandes reportagens. O Nexo tem como objetivo dar contexto à avalanche de informação a que somos expostos. Três vertentes diferentes e complementares que provam que existe vida inteligentíssima no jornalismo - e na internet.

P.S.: A Agência Pública fez um trabalho incrível recentemente, que vale acompanhar - O mapa do jornalismo independente no Brasil

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O jornalismo está em crise faz tempo. Quais são as saídas que você vê pra esse cenário?

TAI NALON, Aos Fatos

A crise no jornalismo é motivada sobretudo pela falência do modelo de negócios nos jornais e revistas. Se os impressos sempre pautaram as demais mídias, temos, então, uma bola de neve. Agora, internet, jornais, revistas, rádios e TVs têm (ou deveriam ter) estratégias diferentes e específicas para não serem definitivamente engolfados pelo apocalipse do jornalismo que se viu até a década passada. Na internet, acredito que o jornalismo segmentado, de nicho, é a alternativa mais adequada ao momento, já que redações cheias não são mais viáveis. A mão de obra qualificada disponível, egressa das redações tradicionais, faz com que não seja muito difícil, do ponto de vista técnico, tocar um projeto jornalístico. Sobra a dificuldade em criar um modelo de negócios sustentável, o que é algo que sites pequenos e jornalões perseguem igualmente, sem muito resultado até agora.

BRENO COSTA, Brio

Por mais difícil e desafiador que isso possa parecer, acho que jornalistas têm de assumir cada vez mais um lado próprio, exclusivo, único. Ou seja, mais do que nas soluções para as empresas de mídia, entendo que os produtores de conteúdo precisam encontrar seu caminho. Durante muito tempo, essa estrada foi de mão única, sem saída: ou você trabalha para a grande imprensa (seja jornal, TV ou revista), ou você não vai exercer a profissão. No estágio atual da internet e das possibilidades digitais, uma nova estrada se abriu. É o caminho do jornalismo independente. Mais do que "empreendedorismo", esse lado independente do jornalismo é a possibilidade de o profissional se destacar pelo seu valor próprio, e não necessariamente pelo valor do veículo. Isso implica adquirir conhecimentos sobre áreas que sempre passaram muito longe dos cursos de jornalismo, como administração, marketing, programação, design, edição de fotografia e vídeo, entre outros. Um jornalista capacitado em ao menos alguns desses pontos, aliado, claro, a uma vocação pelo ofício, tem muitas chances de sobreviver ao naufrágio de um modelo de jornalismo. Para as empresas, cabe valorizar esse tipo de profissional, em vez de seguir apostando em receitas já obsoletas.

PAULA MIRAGLIA, Nexo

Tem dois temas nessa pergunta. Uma parte envolve conteúdo e outra envolve modelo. Quando pensamos no Nexo veio a ideia de modelos editorial e de negócios que tocasse nos dois pontos. A gente não tem pretensão de ser uma única solução. No Brasil existem várias iniciativas, algumas de nicho, algumas de vídeo, outras de reportagens longas, algumas oferecer conteúdo de graça, outras, pago. Não existe uma única resposta. Ela passa por repensar quais conteúdos interessam ao leitor hoje, uma vez que você disputa a atenção com o mundo inteiro, não só com noticia. E também passa por pensar quais assuntos são interessantes para voce, como você vai comunicar de forma a atrair o leitor. A gente não é um jornal de furo, de notícia quente, mais sim de explicação, de contexto, que às vezes privilegia um único aspecto de uma história para poder falar sobre ela com mais tempo. Se depender de audiência no Brasil, tem espaço. As pessoas querem se engajar, participar do debate público.

Como surgiu a ideia do projeto?

TAI NALON, Aos Fatos

Em 2010, quando eu era redatora de política na Folha, trabalhei no projeto do Mentirômetro e do Promessômetro, que media as declarações dos políticos durante a campanha. No ano passado, pensei em resgatar a ideia como repórter da Folha em Brasília, mas era muito mais do que eu podia abraçar, visto que a redação não tinha nem de perto a quantidade de pessoas que trabalharam quatro anos antes. Depois de sair da Folha, cheguei até a oferecer o projeto como um blog, mas a coisa não foi para a frente. Com a posse de Dilma e a deflagração da crise política, senti falta de um acompanhamento sistemático das declarações dos políticos na esfera federal. Nenhum site e nenhum jornal checava com consistência e boa periodicidade o que os políticos falavam. Percebi, então, que a ideia tinha um potencial maior do que um blog.

BRENO COSTA, Brio

O BRIO nasce de uma vontade de fazer algo diferente, de escapar da mesmice que se tornou o jornalismo diário (ao menos sob a perspectiva de quem faz o jornal acontecer), de se antecipar a um quadro de crise na imprensa tradicional. Nasce também da vontade de aliar o jornalismo romântico, das grandes reportagens, com a modernidade do mundo digital.  

PAULA MIRAGLIA, Nexo

Somos três sócios com trajetórias bastante diferentes. Conrado é jornalista, Renata, engenheira e economista. Eu sou antropóloga. A gente tinha um interesse comum no debate público e foi isso que nos aproximou. O que pode no Brasil ser um elemento transformador? Começamos uma conversa sobre que tipo de veículo a gente gostaria de montar, fomos desenhando aos poucos, enfatizando esse aspecto de jornal, de cobertura diária. Nosso modelo editorial tinha na curadoria um peso importante. Não tínhamos a ambição de cobrir todas as notícias, já tem jornais que se dedicam a isso, portanto a gente podia selecionar os temas que queria cobrir, entender o tipo de conteúdo que a gente podia produzir. Foi uma aproximação para pensar um jornal a partir da ideia de ser um elemento que contribuisse pra pautar o debate público, de transformação.

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O que vocês precisaram fazer pra colocar o projeto no ar? Tiveram investimento, recorreram a crowdfunding?

TAI NALON, Aos Fatos

Pra colocar no ar, não, mas precisei parar de fazer frilas pra me dedicar integralmente ao projeto, senão não sairia --ou, se saísse, não teria a mesma qualidade. Inicialmente, trabalhamos sem qualquer remuneração ou aporte. Tive que sair de Brasília e do meu apartamento e voltar a morar com a família no Rio, por exemplo. Sacrifícios pessoais mesmo. Meu sócio, o Rômulo Collopy, que é desenvolvedor, vive a vida da galera da programação, que se envolve em milhares de projetos ao mesmo tempo. Foram noites e noites e fins de semana virados para dar conta de colocar a coisa no ar. Mesma coisa com o Sérgio Spagnuolo, nosso editor de dados. E, nesta semana, terminamos nossa primeira (e espero que única) experiência de crowdfunding. Arrecadamos R$ 32 mil de R$ 30 mil pretendidos, então foi ótimo. Muita, muita angústia, mas ótimo.

BRENO COSTA, Brio

Eu e mais quatro sócios investimos nossas próprias economias para iniciar o projeto, com a contratação de um projeto de design e de uma empresa de programação, além de outros custos iniciais. Com o plano em mãos, e o projeto começando a ganhar forma, conseguimos o apoio de um investidor familiar, que nos permitiu começar a produção em si, pagando jornalistas para produzirem reportagens. Nós mesmos somente passamos a ganhar salário dois anos depois do início de tudo, já bem perto do lançamento. Cogitamos fazer crowdfunding, mas como nosso modelo previa o pagamento pelo acesso às reportagens completas, entendemos que essa estratégia poderia soar contraditória aos olhos do público, vindo de um site que sequer tinha sido lançado ainda. Além disso, uma campanha de crowdfunding bem sucedida envolveria um investimento forte em marketing - um recurso que nós não tínhamos no momento.

PAULA MIRAGLIA, Nexo

A gente passou algum tempo desenhando esse projeto. Projeto editorial, que cara ele tem, que tipo de notícia vai cobrir. Tivemos uma parte extremamente importante, que era definir o modelo de negócios. Tem viabilidade pra isso hoje? A gente definiu como um jornal de assinatura, teria um paywall poroso? Teve uma outra dimensão, um mergulho no debate que vem acontecendo no Brasil e lá fora, que mistura grandes veículos e outros menores. Como esses jornais estavam fazendo essa transição para o digital? Mesmo que a gente esteja com uma escala muito menor encontramos elementos que ajudam a estruturar o modelo, a equipe. É uma equipe que tem jornalista, advogado, pesquisador, cientista social, cientista de dados. Temos 23 pessoas trabalhando, um repórter em Brasília e estamos terminando a redação, no centro de São Paulo.

O futuro da notícia é pago?

TAI NALON, Aos Fatos

Alguém certamente vai receber para fazer jornalismo --só não sabemos quem e em quais condições. Então, sim, vai ser pago. Se por assinatura, paywall, crowdfunding, anúncio, publicidade nativa, doações, filantropia, isso depende do veículo e do tipo de audiência que ele tem.

BRENO COSTA, Brio

Entendo que sim, mas também entendo que é bastante difícil dar esse passo. Acho que essa lógica ainda tem de ser amadurecida, e os produtores de conteúdo têm de estar preparados para oferecer informação de altíssima qualidade - não importa se diária ou se mensal, com grandes reportagens sobre temas mais frios. É muito mais complicado convencer um consumidor de internet a comprar a sua informação do que convencer uma geração anterior à internet a escolher entre quatro opções de jornal para assinatura. Na internet, as opções são muitas. É preciso valer muito a pena para que o seu produto seja adquirido pelo usuário.

PAULA MIRAGLIA, Nexo

O site está inteiro aberto, ainda não definimos uma data pra fechar. Sabemos que ele não vai ser inteiro fechado, as pessoas vão sempre poder acessar uma quantidade de conteúdo. O importante agora é que as pessoas conheçam o Nexo, que entendam o que a gente pretende produzir. Essa pergunta depende muito do conteúdo que a gente está falando. Vimos muitos casos, desde os grandões, como o Guardian, que é inteiro aberto e global, o que é fundamental para o tamanho que ele tem hoje. Isso teve consequências piositivas pro modelo. O New York Times atingiu 1 milhão de assinantes digitais. Nos pequenos também é variado. O Vox é completamente aberto, amparado por uma grande corporação, faz branded content também. Não tem receita que sirva pra todo mundo, depende do modelo, do tamanho, do tipo de conteúdo que quer produzir. Quando você decide que vai vender o conteúdo, isso tem uma implicação imediata: tem que produzir um conteúdo com qualidade suficiente para que alguém queira pagar por ele.

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Como convencer quem se acostumou a ler tudo de graça a pagar por conteúdo na internet?

TAI NALON, Aos Fatos

Parto da premissa de que não é todo conteúdo que deve ser oferecido de graça, mas também não vejo motivo em pagar por algo que não é inédito nem inovador. É, no fim das contas, um trabalho de evangelização. Você tem de convencer o seu leitor a pagar pelo seu trabalho, explicar o valor dele, dar a ele não só o que ele quer, mas o que ele precisa. Enfim, sair do pedestal, dar mais transparência ao processo de apuração. Se o leitor sabe como seu dinheiro está sendo gasto, ótimo, ele vai estar mais propenso a pagar pela informação. Possivelmente não da forma tradicional de assinatura, em que você paga pelo pacote completo, mas, quem sabe, numa campanha de arrecadação ou num evento realizado pelo veículo.

BRENO COSTA, Brio

Retomando a ideia acima, tudo passa pela qualidade do seu conteúdo, o que envolve algumas subcategorias, como originalidade, facilidade de leitura, sensação de consumir algo que dá status social, além de um público "de qualidade", que tenha interesse em se informar para além dos registros diários e efêmeros dos grandes portais ou mesmo dos compartilhamentos que pipocam na timeline do Facebook.

PAULA MIRAGLIA, Nexo

Spotify tem versões free e premium. O que tiveram que oferecer foi um benefício para que você se interesse em pagar. Tem muito conteúdo de graça pra ser consumido no mundo e com certeza os jornais disputam muito conteúdo. Serviços como Netflix e Spotify sinalizam que as pessoas estao dispostas a pagar pelo que tem valor pra elas.

Como você acha que estará a situação do jornalismo em 5 anos?

TAI NALON, Aos Fatos

Em transformação. :)

BRENO COSTA, Brio

Ele continuará existindo. O jornalismo nunca morrerá. Eu prevejo uma proliferação de iniciativas independentes, sustentáveis ou não. Algumas podem morrer, e outras podem nascer. Umas tentarão ser mais generalistas, outras mais específicas. Em relação aos veículos tradicionais, acho que existe uma tendência de explorar a forma em detrimento do conteúdo, o que é um tiro no pé. A forma pode ser tão ou mais cara do que o investimento em uma reportagem marcante. Também há uma tendência de dominância da opinião, em detrimento do jornalismo de fato. Análises e artigos podem ser muito legais, podem gerar debate, atrair audiência para sua página, mas, em suma, não é jornalismo.

PAULA MIRAGLIA, Nexo

A gente tem hoje uma pluralidade muito grande e complementar. Do tipo de notícia que se produz, do conteúdo de mais qualidade. Também complementar no âmbito das perspectivas: você não precisa se contentar com uma única narrativa, e isso é muito rico para o leitor. É difícil, hoje, alguém se contentar com uma única perspectiva, quando o que estamos vendo hoje é uma pulverização. Os jornais grandes não vão sumir, nenhuma startup conseguiria cobrir todas as notícias, seria uma ilusão, um fardo até. Por outro lado, iniciativas como os Jornalistas Livres conseguem uma capilaridade incrível, estar em todos os lugares ao mesmo tempo, em varias regiões do país, conseguem contar histórias por diversas perspectivas. O que eu vejo é um tensionamento, uma fricção muito positiva entre os modelos. As pessoas têm interesse por textos mais rápidos, mas têm interesse igual por coisas mais densas. Não pode acaso os textos da Eliane Brum viralizam. O que a gente vê é essa combinação, que você chamou de cardápio. O problema não é audiência, as pessoas estão muito envolvidas com o debate.

Dani Arrais1 Comment