O fenômeno infantil Mundo Bita, totalmente feito no Brasil

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Voltando de um chá de bebê, peguei carona e fui no banco de trás ao lado do meu amigo Jun. No som do carro, começou a tocar Mundo Bita, e a empolgação foi grande. Junto com Babá Eletrônica, o projeto da cantora Lulina para crianças, Bita figura entre as preferências desse espevitado menino de 2 anos e 9 meses quando quer ouvir música e ver desenho. O que nos mostra que existe vida além da Peppa Pig, Patrulha Canina e afins - e essa alternativa ainda é made in Brasil.

O Mundo Bita é uma animação que foi concebida em Recife em 2010, quando o designer Chaps Melo esperava junto com a mulher a primeira filha. Eles não queriam decorar o quarto da pequena com as ideias tradicionais de sempre e resolveram criar um personagem do mundo do circo. Seis anos depois, Bita é um império, com 36 clipes musicais, um curta-metragem, 180 milhões de visualizações no YouTube, mais de 50 mil espectadores em eventos ao vivo e uma série de produtos licenciados.

Na entrevista a seguir, Chaps nos conta de onde veio a ideia, como é o dia a dia da produção, por que resolveram dizer não a investidores e quais os planos para o futuro.

- Fala-se muito em empreendedorismo materno, sobre mães que, depois de terem filho, não conseguem voltar ao mercado tradicional de trabalho e acabam criando negócios para ter uma vida pessoal e profissional mais equilibrada. Podemos chamar o “Mundo Bita” de um case de empreendedorismo paterno?

Bom, não criamos o Mundo Bita com o intuito de equilibrar a vida profissional, criamos por sentir que no mercado infantil havia uma lacuna criativa, um espaço para trabalhar conteúdo construtivo. Porém, considero sim um case, não só paterno como materno também. O Mundo Bita surgiu a várias mãos, todas elas carregadas desse sentimento de amor pelos pequenos.

- Como e quando surgiu o “Mundo Bita”? De onde veio a ideia?

Importante começar dizendo que o Bita não nasceu pra ser o protagonista de uma animação infantil. Ele foi concebido em 2010 pra decorar o quarto da Anabel, minha primeira filha. Foi criado sem maiores intenções, além, claro, de fazer parte daquele universo inicial dela. A ideia para o personagem veio através das músicas que eram trilha da casa enquanto eu e a mamãe de Bebel a esperávamos. Tivemos como referência o mundo do circo, repaginamos ele através do olhar leve e lúdico de pais de primeira viagem. Nessa atmosfera o Bita foi criado e talvez por isso ele tenha esse jeitão amável.

Em 2011 ele foi batizado oficialmente como Bita e apareceu para o público pela primeira vez. Era o personagem principal de um e-book infantil lançado pela Mr. Plot, produtora  do Mundo Bita, da qual sou um dos quatro sócios. A partir daí, o conteúdo já passeou por aplicativos, clipes musicais e mais recentemente um curta-metragem.

- Como é o dia a dia da produção do Mundo Bita?

De uma maneira bem sintética, a produção das animações do Mundo Bita é dividida em duas etapas: a parte musical e a parte de animação. A parte musical é feita num estúdio de gravação. Nossa equipe, desde o inicio da história, é composta por três pessoas: eu, o maestro Vinicius Guerra e nosso técnico de gravação Walman Filho. A maioria das músicas são compostas por mim, salve algumas exceções em que recebo a contribuição iluminada do meu sócio João. A parte de animação é feita na própria produtora Mr. Plot. Trabalhamos hoje com uma equipe bem enxuta. Somos nove profissionais: dois ilustradores, cinco animadores, um roteirista e um diretor de criação, que sou eu. Além disso contamos eventualmente com o trabalho de parceiros com outras especialidades, como dubladores, desenhistas de som e modeladores 3D.

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- Qual é o portfólio de produtos que vocês oferecem? DVDs, vídeos no YouTube, produtos licenciados, show

Os clipes musicais em desenho animado são os principais produtos. Transmitidos pelo Discovery Kids desde 2013, possuem mais de 180 milhões de visualizações no Youtube e são destaque no Netflix, TV Brasil, PlayKids, entre outras plataformas. Os três álbuns musicais lançados até agora foram premiados com DVD de Ouro pela Sony Music e estão entre os mais vendidos do Brasil na categoria infantil. Além dos desenhos animados, o Mundo Bita percorre o país com shows musicais e peças de teatro, já tendo visitado 12 estados. Em 2016, uma das novidades do Mundo Bita são os cenários itinerantes para shoppings, que mesclam atividades gratuitas com grandes brinquedos de bilheteria. Temos também produtos licenciados: brinquedos musicais, produtos de higiene pessoal, material escolar, itens de festa e também o boneco de pelúcia que será lançado nos próximos meses.

Temos hoje 36 clipes musicais, 1 curta metragem de 16 minutos, 180 milhões de visualizações no Youtube, 140 mil fãs no Facebook, mais de 50 mil espectadores nos eventos ao vivo e licenciamento de produtos para marcas de 5 categorias: brinquedos, higiene pessoal, mochilas, cadernos e artigos de festas.

- Estar no Netflix e no Discovery Kids ajuda no posicionamento?

Sim, é muito importante pra qualquer produto audiovisual ser exibido em plataformas com grande audiência. Essa disseminação é o que dá a possibilidade de massificação, aderência e capilaridade aos conteúdos.

- Quando vocês entenderam o tamanho e o alcance que tinham?

Ainda estamos num processo de crescimento. Temos um bocado de ideias pra desenvolver e um monte de conteúdo bacana pra mostrar. O Mundo Bita, apesar de ter um alcance muito grande em todo o país e ser um produto comprovadamente aprovado pelos pequenos (o público mais exigente, diga-se de passagem), ainda não está do tamanho que o imaginamos.

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- Vocês chegaram a ser sondados por investidores, mas não quiseram receber aporte. Qual foi o motivo dessa decisão?

O nosso principal ativo é intangível. Você não consegue avaliar de forma objetiva o valor de uma marca ou um personagem quando ele está em fase inicial. Até 2014, quando o Bita já tinha três anos de vida e era já bastante conhecido dentro do público-alvo, a Mr. Plot ainda era financeiramente deficitária e necessitava de aportes mensais dos sócios. Ora, uma empresa como esta, se olharmos objetivamente o mercado, não é atrativa para investidores. As propostas vinham muito aquém do que esperávamos e não estávamos seguros de que uma gestão compartilhada seria boa para a Mr. Plot. Por isso, ficamos longe desse mundo. Agora, que começamos a dar lucro e temos um caminho mais claro de crescimento pela frente, voltaram a surgir novos interessados. Mas estamos tratando o assunto com muita paciência, cuidado e tranquilidade. A garantia da qualidade do conteúdo é a nossa maior preocupação.

- Qual foi o papel do Porto Digital no desenvolvimento do projeto?

Ficamos encubados durante um ano no Portomidia, que é o braço do Porto Digital para o fomento de projetos da economia criativa. Quando fomos selecionados, o Bita já era um personagem forte, já era transmitido pelo Discovery Kids e os DVDs vendidos em larga escala pela Sony Music. O que a experiência trouxe de mais proveitoso foi a possibilidade de contarmos com uma assessoria jurídica, consultoria empresarial e assessoria de imprensa. Como empresa nascente, não conseguiríamos arcar com esta estrutura sem o apoio do Portomídia. Foi tão proveitoso que, após o período de encubação, acabamos contratando a mesma assessoria jurídica para continuarmos com o trabalho.

- Quais foram as principais dificuldades que vocês encontraram no começo do negócio? E quais as que aparecem com frequência hoje?

A grande dificuldade que a Mr. Plot enfrentou no início foi financeira. Produzir desenho animado custa caro, requer uma equipe muito capacitada e detalhes que não podemos abrir mão. O foco na qualidade total impede que a empresa corte alguns custos, como o de pessoal e de equipamentos. Passamos quatro anos de muito sufoco. Os sócios colocaram todas as economias pessoais, venderam bens e doaram tempo de trabalho. Só em 2015 conseguimos equilibrar as finanças. Então, considero que esta foi a grande dificuldade. Hoje, a crise econômica também está retardando um pouco o crescimento do licenciamento da marca para produtos. Mas vamos manter o foco no principal objetivo do estúdio, que é produzir conteúdo educativo e divertido para a criançada. Os outros resultados vêm na hora certa.

- Como vocês lidam com pirataria?

Temos uma postura solidária em relação aos pequenos artesãos, a quem faz bolos e organiza festas de aniversário, pra nós não há problema nesse tipo de negócio, muitas vezes são feitos por admiradores do Bita. O que tem acontecido, é o evento ao vivo pirata, com bilheteria e tudo! Isso nos prejudica muito! Nesse caso estamos coibindo, pelo menos aqueles que a gente fica sabendo através do alerta dos nossos próprios fãs. É bem trabalhosa e cara a produção do conteúdo animado do Mundo Bita e seus desdobramentos tais como shows ao vivo. Além disso, tem o padrão de qualidade e o cuidado com a mensagem que deixamos para os pequenos. Então, não podemos simplesmente deixar que esse tipo de coisa aconteça. No caso de produtos piratas, ainda não vimos nenhum no mercado, a não ser os DVDS, que aí, infelizmente,  já não há como combatermos.

- Suas filhas podem ver “Mundo Bita” quanto tempo quiserem, ou têm algum limite?

Não. Na minha opinião nenhuma criança deve ficar em frente a uma tela o tempo que quiser. Todo o excesso é negativo e faz parte da educação estabelecer esses limites e incentivar os pequenos a brincar, coisa que já é da natureza deles. Toda criança já nasce sabendo brincar!

- Quais os planos pro presente e pro futuro?

Vamos continuar a produção de um álbum musical por ano, com clipes em desenho animado. O quarto trabalho será lançado em outubro e vem com um tema muito legal, que ainda é segredo. Teremos dois novos espetáculos teatrais para estrear este ano e o Show do Bita continuará rodando o Brasil. O projeto de internacionalização deu uma pausa por causa da alta do dólar, mas retomaremos ainda em 2016. Já começamos a estudar os melhores meios para a realização de uma série em dramaturgia para TV e estamos empolgados com as possibilidades. Trabalhando com muito amor pelo que fazemos, vamos ultrapassando as dificuldades passo a passo e levando a energia do Mundo Bita para cada vez mais famílias.

Dani ArraisComment