O celular é uma arma na mão

guto-muniz-divulgac%cc%a7a%cc%83o A guerra na Síria é uma guerra de imagens. De um lado, o governo se esforça para produzir cenas que tentam traduzir uma estabilidade há muito perdida. Usa tripés e faz imagens mais distanciadas da multidão. De outro, qualquer pessoa com um celular com câmera na mão consegue estar no centro da ação. O celular vira parte do corpo, torna-se o olho dos manifestantes e permite que eles acompanhem cada acontecimento do jeito mais próximo e cru possível, em uma edição tremida e sem cortes - muitas vezes tornando-se alvo e sendo abatidos pelo regime, que vê no dispositivo uma grande ameaça. Afinal, é importante que o mundo não saiba o que se passa ali.

“Revolução em pixels” é uma peça, uma performance, uma palestra não acadêmica que fala sobre o primeiro ano da revolução na Síria, quando o celular se tornou a maior, se não a única, arma na mão dos manifestantes. Concebida e interpretada pelo artista libanês Rabih Mroué, 50, faz parte da programação do MITSP - Mostra Internacional de Teatro de São Paulo e foi encenada neste mês de março no Sesc Vila Mariana.

No início do conflito em curso na Síria, em 2011, os jornalistas foram impedidos de trabalhar, e os manifestantes logo perceberam a necessidade de documentar, fotografando e filmando, o regime Assad. São desses anônimos as imagens dos protestos, das torturas, da violência indiscriminada. Registros que se espalham pelas redes sociais, pelo YouTube, e que se tornaram o material de pesquisa de Mroué, depois que um amigo disse pra ele: “as pessoas estão filmando suas próprias mortes”. Estariam mesmo?

A investigação que Mroué faz é impactante. Ele nos mostra vídeos curtos, em que a filmagem é interrompida quando o alvo ativista/celular é abatido. Explora as cenas indo até o máximo do zoom, desconstrói cada frame para tentar entender o que se passou. O alvo morreu? Quem colocou o vídeo na internet? O celular vira protagonista de uma guerra. A internet permite que a gente veja cenas as quais jamais teríamos acesso.

O artista busca traçar um paralelo entre as recomendações para filmar um protesto, feita a partir da iniciativa coletiva dos próprios manifestantes, e o Dogma 95, criado pelos dinamarqueses Lars Von Trier e Thomas Vinterberg há mais de 20 anos. O movimento cinematográfico enaltecia a câmera na mão, o mínimo de atuação, de cenário, zero efeito especial, com o intuito de dar o poder de volta ao artista e tirá-lo dos estúdios de cinema. As recomendações para registrar um protesto de maneira segura diziam: filme sempre as pessoas de costas, para que elas não sejam identificadas, presas, torturadas pelo regime; segure os cartazes na direção oposta à manifestação, para que eles sejam lidos pelas câmeras; não edite, não coloque trilha sonora - tudo deve ser cru, fazer com que o espectador se sinta na ação.

Fiquei com vontade de falar da peça primeiro pela força que ela tem. O formato também chamou atenção, dá vontade de ir mais ao teatro. Também me deixou pensando que poderia ser uma dissertação de mestrado, a Susan Sontag ia gostar.

No entanto o questionamento é inevitável. Até onde podemos ir para registrar o que acontece à nossa volta? Precisamos tanto gravar e contar tudo que acontece a ponto de deixarmos de nos importar com a morte? O que é que nos faz, como espectadores, ver cenas de horror sem nos chocarmos? Ficamos impactados até, mas logo clicamos no próximo vídeo. O horror é banal, é só mais uma história que acompanhamos no nosso dia.

Ainda assim, saí da peça pensando, mais uma vez, que existem milhões de internets e que a gente ganha quando cada um escolhe contar sua história, mostrar seu olhar diante da realidade, usando as ferramentas que existem para amplificar o que está acontecendo. Sejam os manifestantes, seja o artista que se debruçou sobre esse arquivo vivo e pixelado. O celular é mesmo uma arma na mão, e a internet, uma potência que se renova a cada vez que alguém faz um uso relevante dela.

#ainternetqueagentequer

Dani ArraisComment