Nossa nova opinião apressada sobre tudo

Arte da Thais Erre

A internet nos deixa mais inteligentes x O Google está nos emburrecendo.

É impossível acompanhar tudo que é postado nas redes x Que bom que temos acesso a tanta informação o tempo todo.

Mais informação significa mais conhecimento, criatividade e produtividade x Perdemos tanto da nossa capacidade de concentração que ler um livro sem olhar o Instagram é quase impossível.

Desde que o mundo é mundo, sempre existiu mais informação do que os nossos cérebros são capazes de processar. A história deu um salto quando Gutemberg criou a prensa móvel e começou a impressão em larga escala de imagens, textos, mapas, tornando milhares de histórias reprodutíveis, acessíveis para um número até então inimaginável de pessoas.

A tecnologia foi evoluindo e nos impressionando - e sempre trouxe a reboque questionamentos do tipo “e agora, como vamos fazer para lidar com tudo isso?”.

Talvez sejamos, nós na casa dos 30 anos, a última geração que lembra a alegria que era fazer uma assinatura da Capricho e esperar a revista chegar a cada mês. Se antes a gente esperava 30 dias para consumir avidamente informação, hoje não passamos um dia sem bombardeios de links que nunca conseguiremos terminar de ler.

Estamos ansiosos também. Uma opinião parece valer menos se fica no âmbito do nosso cérebro. Medimos relevância - e interessância - por like, share e comentário.

O resultado é uma geração acostumada a saber de tudo e não aprofundar em muita coisa, de saber que sim, a presidente da Petrobras foi demitida ontem, mas o que foi mesmo o que aconteceu nesse escândalo? Perdemos um tanto da capacidade de prestar atenção, de realmente mergulhar em um assunto e nos habituamos a dar nossa nova a opinião apressada sobre tudo.

A culpa é da internet?

Para Nicholas Carr, autor norte-americano que escreveu, entre outros, o livro “A geração superficial”, sim. No livro, ele aponta que a internet estimula uma forma primitiva de leitura. Velocidade e distração parecem caminhar juntas. Estávamos acostumados com a mídia impressa, ele diz, e a internet chegou pra mudar tudo, pra transmitir esse texto agora também nos formatos de som e foto. Quem se beneficia disso? Empresas como o Google, o Facebook e o Twitter, que parecem reformular nossos hábitos mentais, deixando a informação como um grande borrão. “Nas decisões que fazemos, conscientemente ou não, sobre como usamos nossos computadores, rejeitamos a tradição intelectual de ficar sozinhos, solitários”, ele diz.

A postura dele é radical. Ele acha que não conseguiremos voltar a fazer com que a concentração seja um bem valioso. “O perigo para os jovens é nunca desenvolver uma capacidade mental de pensamento contemplativo, seja lendo algo mais profundo, seja acompanhando um argumento em uma discussão. Eu me preocupo de estarmos treinando as crianças para serem distraídas, para confundirem acesso à informação com inteligência”, disse em entrevista. Essa ideia de inteligência, aliás, vem sendo modificada com o tempo, sendo hoje mais pautada no quão rápido você consegue encontrá-la do que no que você decide fazer com ela.

Do outro lado da conversa, a pesquisadora Ellen Langer, de Harvard, faz parte da turma do deixa disso, a tecnologia não é esse bicho de 7 cabeças. “Não existe mais informação hoje do que sempre existiu. A única coisa diferente é que as pessoas pensam que vão ser mais bem sucedidas se elas processarem mais informação. E não existe evidência para isso”, disse ela em entrevista para a Contente.

A noção de que quanto mais informação você acumular melhor vai se sair não leva a muito lugar, principalmente porque informação depende de quem está trabalhando nela, para que lugar, sob qual perspectiva. “As pessoas precisam pensar: elas estão se saindo melhor porque estão consumindo mais informação? E eu acho que elas vão descobrir que não estão. Você não precisa de mais informação, mas lidar melhor com a que você tem. Apenas acumular informação é basicamente uma perda de tempo. Pensar mais profundamente sobre um pedaço de informação é mais recompensador.”

Não é também que a gente tenha perdido a nossa habilidade de processar tanta notícia. “Não tenho certeza se algum dia já tivemos essa noção”, diz a pesquisadora, que estuda mindfulness, ou atenção plena, há 40 anos. “Ter atenção plenal é notar ativamente as coisas, perceber que informação depende de contexto, que stress é inútil e que a gente tem mais controle sobre nossa saúde e nosso bem-estar do que nos damos conta”, diz ela. “E não tem nada na internet que nos afaste disso. As pessoas não se dão conta de que tudo é uma escolha. Você acha que vai perder algo importante se ficar longe da internet. Você não tem que rearrumar suas prioridades, só olhá-las de maneira diferente. Não tem que desistir da internet, da TV, mas se engajar com consciência quando tiver usando cada uma delas.”

Já falamos tanto que a internet é o que a gente faz dela que até cansamos. Sabemos, né? Da próxima vez que você se sentir soterrado pela quantidade de informação que pipoca na sua frente, pare e pense: quero ler isso ou só estou acompanhando o fluxo interminável da rede? Quais são meus interesses? O que quero aprender hoje? Como quero me divertir agora? Aprofundar a relação sempre nos faz descobrir outros tipos de prazer.

* Escrevi esse texto antes de participar do painel "Geração só a cabecinha", na Campus Party. Fui mediadora de um papo super legal com a Marina Wajnsztejn, a Mawá, e o Daniel Sollero. Obrigada pelo convite, Bia Granja! Vocês conseguem ver a discussão abaixo:

Dani Arrais6 Comments