Eu deixei meu coração em São Francisco

Às vezes viajamos para nos perder, muitas vezes para nos encontrar, algumas poucas para curar um coração partido. Viajamos para nos deslumbrar, olhar o mundo com a empolgação de uma criança e para nos apaixonarmos pelos lugares que passamos, pessoas que conhecemos, experiências que vivemos. Em nossa última viagem para San Francisco eu marquei todas as opções anteriores.

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Como a Dani contou em seu último post, em novembro fizemos uma viagem de 15 dias pelo Vale do Silício e por San Francisco. Fizemos uma imersão no mundo da tecnologia, conhecendo diversos players do mercado: de startups a gigantes, passando por bancos de investimentos, universidades e espaços de “faça você mesmo”. Muito mais do que isso, experimentamos viver alguns poucos dias cercadas de pessoas que tem um jeito diferente de pensar sobre trabalho. Como disse em um depoimento ao grupo que organizou esta jornada, a viagem foi um maravilhoso e bem vindo caminho sem volta: foi impossível voltar ao trabalho (e à vida!) sem mudar minha perspectiva. Nos primeiros dias já começamos a perceber como eles vivem cada momento focados em compartilhar ideias e em trocar conhecimento.

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Se você trabalha com criatividade, já deve ter escutado que as ideias não têm mais o mesmo peso (qualquer um pode tê-las) e que o valor delas está em sua execução. Escutar este discurso já é bastante interessante. Em San Francisco vimos isso na prática. Já é enraizado o entendimento de que as ideias foram feitas para serem executadas - e rapidamente. Não há tempo para deixar uma ideia no papel, todos querem realizar e têm pressa. Ao compartilhar uma ideia você aprende, recebe feedback imediato e se move mais rápido. O simples fato de contar uma ideia em voz alta faz com que você veja o que faz sentido ou não. Isso nos faz pensar: quanto tempo e aprendizado perdemos por conta de um medo de compartilhar nossas ideias? Antes mesmo de chegarmos na cidade, lendo o livro do Reinaldo Normand, tivemos o primeiro (e duro) aprendizado: “se você compartilhou uma ideia com alguém e esta pessoa executou esta ideia antes de você, você não merecia tê-la!”

Claro que San Francisco possui um ambiente de trabalho especial e único no mundo. Talvez onde você esteja o mercado não seja tão evoluído. Mas isso não te impede de colocar isso em prática. [E aqui entra outro importante aprendizado: não existe espaço para quem se coloca no papel de vítima por lá]. Conte sua ideia em voz alta como se fosse contar para um investidor. Conte sua ideia para pessoas de outras áreas, para seus amigos e pessoas da sua família. Busque pessoas que tem conhecimentos complementares para a sua ideia, pergunte o que elas acham. Você irá se surpreender com quantos insights interessantes poderá receber.

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Feedback é um presente, e a gente nunca deveria se esquecer disso. Este foi um conceito que foi repetido à exaustão em todos os lugares que visitamos. O feedback é a sua ferramente mais valiosa para evoluir e ter um produto/trabalho melhor. Elogios são maravilhosos, mas também paralisantes. As críticas nos movem e nos fazem querer ser melhor (às vezes só de raiva! :-). Antes de pensar em empecilhos para pedir feedback do seu trabalho (foi a primeira coisa que fiz), lembre-se de que não é preciso questionários elaborados e dezenas de perguntas para colocar isso em prática. Inclua a busca pelo feedback na sua rotina de trabalho. Pegue o telefone e ligue para os seus clientes, pergunte o que eles estão achando do serviço prestado. Peça a opinião das pessoas com mais frequência. Medo dá (será que eu quero escutar mesmo a resposta?), mas partimos do pressuposto que queremos evoluir e por lá aprendemos que sem feedback não iremos a lugar algum.

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Seguindo este mesmo raciocínio, um outro aprendizado importante foi sobre o teste e a confirmação de hipóteses. Ideias geralmente são baseadas em hipóteses, certo? Pelo menos aqui na Contente funciona assim. Quando pensamos em um novo projeto imaginamos algo como - veja, essa é uma coisa que EU gostaria que existisse, por isso imagino que mais pessoas gostariam também! E, muitas vezes (no nosso caso até agora todas), com base apenas nesta única hipótese seguimos para a produção da ideia. O resultado pode ser que bingo! Muita gente também gostaria mesmo disso (Instamission), ou fuen, na verdade não tem muita gente interessada nessa ideia não (Cinemission). No Vale aprendemos que é muito mais inteligente testar essas hipóteses (com protótipos simples, minipesquisas) antes de partir para a produção e, assim, economizar tempo, dinheiro e principalmente energia para criar algo em que as pessoas estão realmente interessadas.

Dica de leitura: The Lean Startup

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Esse aprendizado foi um dos poucos que já colocávamos em prática, mas confessamos que muito mais por ansiedade do que por estratégia. Mesmo após testes, somente com o produto no ar e com as pessoas usando é que você vai aprender de fato o que está funcionando ou não. Por isso é tão importante lançar antes da versão ideal, pois tantas vezes o que é perfeito para nós não faz tanto sentido, ou o uso das pessoas nos leva para novos caminhos que nunca imaginaríamos.

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Como a espertíssima empreendedora Bel Pesce disse em uma entrevista: “no Vale existe algo diferente que é o mindset (maneira direrente de pensar). Aqui no Brasil, se você erra, você é identificado como o perdedor da vez. Como iremos conseguir fomentar um país realmente inovador sendo que as pessoas não têm a chance de fazer algo que ninguém nunca fez?” O que vimos inúmeras vezes no discurso, nas histórias pessoais e também em tantas leituras é que as falhas são quase tão celebradas como as conquistas. Se você não tem histórias de falhas recentes para contar, é sinal de que você está trilhando caminhos já percorridos, não se arriscando a de fato criar algo novo. Rola até um preconceito, sabe?

Curiosidade: foi em San Francisco que nasceu a FailCon, um evento que reúne empreendedores que falharam, contando como falharam e porquê, e o que aprenderam com isso.

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Não sei de quem é a frase “go big or go home” mas para mim ela é uma boa síntese do Vale. Conversando com algumas pessoas por lá vimos que grande parte das pessoas divide negócios entre empresas de Lifestyle Business X Start Ups. Resumindo: um lifestyle business é um negócio que é basicamente gerido por seus criadores com o objetivo de atingir uma determinada renda e/ou manter um determinado estilo de vida. Por exemplo: a Contente é um lifestyle business, assim como agências, consultorias, freelancers etc. Já uma start up é um negócio escalável e repetível, que não tem um teto para o lucro e tem a capacidade de crescer infinitamente, pois não depende necessariamente do trabalho de pessoas específicas. Deixando claro que eles não tem nada contra o lifestyle businesses (pelo menos não na nossa frente!), apenas este não é o foco das pessoas por lá, que estão sempre pensando em grandes ideias, que possam ser repetíveis e escaláveis. Go big or go home.

Leituras interessantes:

Startup vs. Lifestyle Business (a Short Comparison from a Guy Who’s Done Both)

7 Reasons Most People Should Build Lifestyle Businesses, Not Startups

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No Vale presenciei um tipo diferente de ambição. Não é bem o sucesso que compra coisas que eu senti que as pessoas por lá almejam, mas sim do sucesso que é ter uma vida cheia de significado, uma carreira de impacto e reconhecimento para um grande número de pessoas. Comece imaginando que quem quer entrar em uma faculdade como Stanford, por exemplo, provavelmente já sabe disso há algum tempo. Pode ser influenciado pela família, pelos amigos ou por ambições particulares. Essas pessoas que querem entrar em boas universidades americanas sabem que isso não é fácil. Você precisa responder a amedrontadora carta de aplicação. Nesta carta, figuram questões como: qual é o seu impacto na sua comunidade? Ou seja: uma pessoa que quer entrar em Stanford sabe que precisa ter um impacto em sua comunidade para ter o que escrever em sua carta. Talvez venha daí a motivação de tantas pessoas nesta cidade a pensarem não apenas em boas carreiras, mas em criar um verdadeiro impacto no mundo, na sua rua, no seu bairro, na sociedade. A pensarem não apenas em terem uma boa vida, mas em uma vida repleta de significado. Para nós, este pareceu um tipo de ambição que é maravilhosa de almejar.

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Por último, presenciamos por toda a cidade uma celebração maravilhosa da diversidade, em todos os sentidos. No mercado de trabalho, existem departamentos inteiros encarregados a manter uma grande diversidade de pessoas nas empresas e, principalmente, uma cultura de respeito e de celebração a todas as diferenças. Pela cidade vimos esta celebração na prática por todas as partes. Nos 5 karaokês que fomos em 7 dias (sim, você leu direito, não, não foi intencional e não sabemos porque isso aconteceu!) no meio da noite nos víamos cantando com um tech guy que trabalhava no Facebook, com uma transexual de 60 anos, com meninas de todas as idades estilos, com um cowboy nos seus 50… Todos interagindo e na mesma balada! Além de celebrar a diversidade, é importante que você se conheça, que responda a pergunta da citação acima. Nesse cenário hobbies são fortemente recomendados e incentivados (todo mundo tem um) e muitas vezes as grandes ideias de negócio nascem daí.

Esse post gigante foi minha forma de levar vocês comigo nessa jornada maravilhosa. Para encerrar, os deixo com a pergunta e o convite:

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Luiza Voll27 Comments