Desacelere: a vida não deve ser uma eterna lista de tarefas

carl-honore A entrevista a seguir deveria ter sido publicada na semana passada. Os dias foram um tanto corridos, daqueles em que você pula de uma reunião para um café depois para mais um compromisso - e fica pouco tempo no computador para produzir o que precisa. Terminei de editar e escrever às 19h da sexta. Quem quer ler textão? Eu não. Mas pensar se a correria é uma realidade ou apenas um subterfúgio, sim. Afinal, o tempo é o mesmo para todos nós. Por que alguns conseguem dar conta de tanto e outros estão sempre com uma sensação de tão pouco?

Tempo é o cerne desta entrevista. Como a gente cuida dele? Por que vivemos tão apressados, riscando as tarefas da agenda sem mal sentir prazer e já preenchendo o espaço com novas? Por que precisamos urgentemente repensar nossa relação com aparelhos eletrônicos? Como podemos aprender a desacelerar?

Para responder a essas e outras perguntas, conversei com Carl Honoré, líder do slow movement no mundo - ele é autor de “Devagar - Como um movimento mundial está desafiando o culto da velocidade”, lançado em 2004. O canadense nascido em 1067 também é palestrante do TED com mais de 2,3 milhões de visualizações. E estará em São Paulo nesta quarta-feira para dar um “sermão secular” na The School of Life, que gentilmente fez a ponte para que essa entrevista acontecesse. Vocês encontram mais informações sobre o evento aqui.

“No passado, cada momento do meu dia era uma corrida contra o relógio. Agora quase nunca me sinto apressado. Faço menos coisas, mas faço-as melhor e gosto mais delas. Eu faço pausas durante o dia de trabalho para relaxar, comer e fazer um pouco de meditação. Isso me fez muito mais produtivo e criativo”, diz ele. Se der para tentar praticar um pouco depois da leitura, já terá valido a pena :-)

As imagens que ilustram esse post são do trabalho "Reality", da artista polonesa Laura Pawela.

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- O filósofo Gilles Lipovetski diz que “os imperativos de uma vida mais leve – dietas, desintoxicações, desaceleração, alívio do estresse, meditação e outras práticas – vêm acompanhados por demandas exigentes.” Parece que estamos em uma corrida para sermos as melhores versões de nós mesmos. Como podemos fazer isso sem nos sentirmos sufocados?

Isso é muito verdadeiro. Estamos tão impacientes, perfeccionistas e orientados pelos objetivos que acabamos transformando até as mudanças saudáveis no estilo de vida em tarefas. Outro problema é que abraçamos esses "imperativos" por razões erradas. Eles podem nos ajudar a trazer mais profundidade e significado para as nossas vidas, assim começamos a desafiar e a repensar nossas suposições básicas sobre o que é importante na vida e que tipo de sociedade queremos ter. Mas muitos de nós os usamos simplesmente como atalhos para competir melhor na sociedade que existe, sem que desafiemos essa sociedade ou nossas suposições.

A melhor maneira de abraçar esses imperativos sem se sentir sufocado é, portanto, abraçá-los com o espírito correto. Um espírito de profunda exploração e mudança.

- Desde o lançamento do seu livro em 2004 você tem escrito sobre, dado palestras no TED, inúmeras entrevistas. O que mudou no “slow movement” de lá pra cá?

Estou impressionado com o quanto a Revolução Slow cresceu. Quando eu comecei a falar da idéia de um "Movimento Slow", as coisas estavam apenas começando a acontecer, fora do radar. Agora o slow é mainstream. Em todos os lugares as pessoas estão usando a lente do slow para repensar o que estão fazendo, a fim de fazê-lo melhor. Assim, juntamente com os antigos favoritos como Slow Food e Slow Cities, há movimentos para Slow Travel, Slow Design, Slow Copywriting, Slow Science, Slow Parenting, Slow Education, Slow Houses, Slow Art e assim por diante. Mesmo pessoas que você nunca esperaria que abraçassem o slow estão fazendo isso: basta olhar para o movimento robusto do Slow Fashion. Sou regularmente contatado por alunos, inclusive no Brasil, que estão dedicando sua tese universitária a algum aspecto do slow. Todos os dias, recebo e-mails de pessoas ao redor do mundo me dizendo como a desaceleração mudou suas vidas, suas carreiras, suas famílias, suas empresas para melhor. Estamos todos com medo de desacelerar, por isso nos dá confiança ver outros fazendo isso e colhendo os benefícios. O efeito está realmente forte agora.

Dito isto, é claro, a velocidade e a aceleração continuam a ser a tendência dominante em nossa cultura. É só que a contra-corrente do slow está explodindo agora também.

- Você vê uma diferença entre a maneira como as pessoas lidam com essa questão em diferentes lugares? Existe alguma característica que você consiga apontar como bem brasileira, por exemplo?

Ficou claro para mim na minha última visita ao Brasil que os brasileiros também estão infectados pelo vírus da pressa - mas que estão se juntando à reação global contra ela. Em São Paulo, vi outdoors publicitários do Citibank com slogans que capturaram a filosofia slow. Um foi algo como: "Quantas reuniões você teve esta semana? Quantas vezes você saiu com seus amigos?". Outro foi: "Não é triste ver um pôr do sol em sua mesa?" E isso foi do Citibank!

Há também uma forte tradição de lentidão. Como país latino, o Brasil coloca mais ênfase na família - e as relações sociais nos obrigam a desacelerar. A família pode agir como uma vacina contra a velocidade. Em muitas partes do país há também a tradição de sair para a praia ou para dançar à noite. Essas coisas são sobre prazer, relaxamento e conexão humana, todas as quais estão no centro do movimento slow - e o Brasil está cheio delas. Basta pensar em Carnaval - onde mais no mundo faz um país inteiro desliga por três ou quatro dias para ouvir música, comer, beber e se divertir?

A desvantagem é que há uma parte ruim no slow no no Brasil. A burocracia é desesperadamente ineficiente para tarefas simples, que podem levar horas ou mesmo dias. Em todo o país você vê pessoas esperando por coisas, em filas, em escritórios ou apenas ao lado da estrada. A pobreza força milhões de brasileiros a viverem na miséria da lentidão forçada.

Acho que o Brasil é como qualquer outro país. Cada região do país tem sua própria cultura do tempo, seu próprio ritmo natural, seu próprio nível de paciência e impaciência.

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- Nossa missão na Contente é construir #ainternetqueagentequer. Frequentemente perguntamos a pessoas: como é a internet que você quer? E o que você faz para construi-la, para contribuir com ela?

Sempre que uma nova tecnologia surge, leva-se um tempo para elaborar as regras culturais e os protocolos para se obter o máximo proveito dela. A web não é exceção: não é nem boa nem má; o que importa é como a usamos.

O desafio agora é encontrar a disciplina para usar a web com mais consciência. Para acessar quando ela pode nos unir e enriquecer nossas vidas. Mas para desligar quando a comunicação fora de moda, cara a cara - ou mesmo apenas um pouco de silêncio - é necessária. Para construir uma relação mais comedida com a comunicação móvel.

Eu acho que todos nós precisamos começar conversas honestas sobre quando estar conectado é bom e quando é ruim. Começando na escola para que as crianças cresçam compreendendo que a web é uma ferramenta e que eles não precisam ser escravos dela.

Já estamos vendo tantos exemplos de pessoas colocando limites de velocidade na superestrada da informação:

Restaurantes, bares, festivais de música e grupos de viagens estão proibindo celulares. Transportes sem tecnologia apareceram nos trens em muitos países. Grandes empresas como Intel e Deloitte & Touche estão experimentando dias sem e-mail e deixando a equipe desligar seus telefones.

Ou olhe para a ascensão do "empilhamento": quando os millenials saem para uma refeição, todos colocam seus telefones em uma pilha no meio da mesa; e a primeira pessoa a checar seu dispositivo paga a conta para todos. Uma maneira deliciosa de desligar a web para manter todos juntos no momento.

Eu também gosto de como as pessoas estão encontrando maneiras de estar na web de uma forma lenta. Olhe para todos os aplicativos meditação e mindfulness. Ou como os geeks do software estão projetando o jogo com uma estética lenta. Estou trabalhando com um novo aplicativo de mensagens chamado Jack, em que o remetente escolhe quando o destinatário pode abrir a mensagem - de uma hora até recebê-la até o infinito. É tudo sobre como usar a web para promover uma gratificação sem uma pressão de tempo, combatendo o imediatismo, entendendo um pouco da alegria de esperar ansiosamente por algo.

- Você tem conselhos para pessoas que são viciadas em internet, Whatsapp e redes sociais?

Diminua o ritmo lentamente! Em outras palavras, dê pequenos passos para desligar. Talvez tente por uma hora em um domingo e preencha esse momento sem tecnologia com uma atividade no mundo real. Dessa forma, você minimiza os sintomas de abstinência e lembra-se do prazer de experiências sem tecnologia. E então comece a construir a partir disso mais horas de desconexão.

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- Como é a sua rotina? Como você divide o seu tempo entre trabalho, família, amigos, exercício e lazer?

Eu tenho bem claro um antes e depois. No passado, cada momento do meu dia era uma corrida contra o relógio. Agora quase nunca me sinto apressado. Faço menos coisas, mas faço-as melhor e gosto mais delas. Eu faço pausas durante o dia de trabalho para relaxar, comer e fazer um pouco de meditação. Isso me fez muito mais produtivo e criativo.

Agora tenho tempo para aqueles momentos que dão significado e textura à vida - lendo uma história de repouso para os meus filhos, desfrutando de um copo de vinho com a minha mulher à noite, conversando com um vizinho, parando e olhando para um belo edifício ou pôr do sol. Eu sinto que estou vivendo minha vida agora, em vez de correr por ela.

Para conseguir isso eu tenho que ser disciplinado e ter limites. Então, quando estou trabalhando, estou trabalhando. Quando eu não estou, eu desligo completamente, incluindo meu iPhone e laptop.

- Quais foram as experiências que mudaram a sua vida?

São duas.

Primeiro foi quando eu trabalhei com crianças de rua em Fortaleza. Isso me causou um choque profundo. Foi enquanto vivia no Ceará que decidi que minha vocação na vida era mudar o mundo escrevendo sobre injustiça. O primeiro artigo que publiquei foi sobre os meninos de rua de Fortaleza. Seu nome era Henrique. Muitas vezes me pergunto o que aconteceu com ele.

A segunda experiência surgiu cerca de 12 anos depois. Minha vida tinha se tornado uma corrida sem fim contra o relógio. Eu sempre estava com pressa, lutando para salvar um minuto aqui, alguns segundos lá. Minha chamada de despertar veio quando eu me encontrei cogitando a idéia de comprar uma coleção de histórias de dormir - Branca de neve em 60 segundos! - para ler para o meu filho. De repente, isso me atingiu: meu “rushaholism” ficou tão fora de mão que até estou disposto a acelerar esses preciosos momentos com meus filhos no fim do dia. Tem que haver uma maneira melhor, eu pensei, porque viver no fast foward não é mesmo realmente viver. É por isso que comecei a investigar a possibilidade de desacelerar.

- Você tem fé em alguma coisa? Se sim, como ela se manifesta em relação ao seu trabalho?

Tenho fé na humanidade. Apesar de todos os horrores do mundo eu acredito firmemente que o nosso instinto como seres humanos é fazer o melhor por outras pessoas e ver o melhor nelas. Quando os seres humanos se reúnem somos capazes de encontrar uma magia que faz o coração cantar.

10 dicas para desacelerar

  1. Reduzir a sua agenda

Nada faz você se apressar mais do que uma agenda recheada de compromissos. Em vez de ceder à tentação de fazer mais e mais, tente fazer menos. Durante a temporada de férias, reduza as compras, diminua seu calendário de eventos sociais, assista a menos TV. Aliviar a pressão sobre o seu tempo tira a pressão da sua vida e torna tudo mais agradável.

  1. Questionar o seu senso interno da velocidade

Estamos tão obcecados em ir mais rápido e economizar tempo que acabamos apressando tudo. Da próxima vez que você se pegar correndo por algo - o banho da manhã, o almoço de Natal, ao abrir um presente - pare e pergunte se você realmente precisa ir tão rápido. Se a resposta for não, respire fundo e diminua a velocidade. Você vai ver que vai passar a aproveitar mais a vida e a se sentir mais sereno.

  1. Encontrar um passatempo

Atividades como jardinagem, ioga, tricô, leitura e pintura podem ensinar o hábito da lentidão - não são as coisas mais fáceis em nosso mundo apressado, mas um primeiro passo para qualquer pessoa que queira escapar da armadilha de velocidade.

  1. Parar de olhar o tempo todo para o relógio

Tente ser menos neurótico sobre o tempo. Pense nele não como um valentão a ser temido ou conquistado, mas como um elemento benigno da vida. Tire o relógio de pulso durante as férias. Você pode começar a sentir-se menos dependente do relógio. Aceite que o velho ditado "tempo é dinheiro" nem sempre é verdade: você não pode economizar tempo para um dia chuvoso da maneira que você pode economizar moedas em um cofrinho. Além disso, lembre-se que a melhor maneira de obter valor para o seu tempo não é sempre ir mais rápido. Priorize qualidade frente à quantidade.

  1. Redescobrir as alegrias de sentar à mesa

Uma refeição de convívio com amigos e familiares pode ser divertida, saudável e relaxante. Tente comer à mesa, em vez de equilibrar o prato em seu colo na frente da TV.

  1. Dar um passeio

Caminhar - e não estamos falando de andar correndo - é uma maneira reconfortante de se conectar com a natureza, com outras pessoas e com você mesmo. Também é um bom exercício. Da próxima vez que você estiver prestes a pular no carro para uma viagem curta, vá a pé.

  1. Meditar

Meditação está virando mainstream. Dez milhões de americanos agora praticam regularmente, e salas de meditação estão surgindo em todo o mundo, em aeroportos, escolas e prisões até hospitais e escritórios. A meditação acalma a mente e o corpo. Você não precisa ir a um retiro extravagante para aprender; qualquer pessoa pode começar a meditar imediatamente com algumas técnicas básicas. Por que não escapar da correria do feriado, por exemplo, e sentar em um quarto tranquilo por 15 minutos, respirando lentamente com os olhos fechados?

  1. Considerar uma abordagem alternativa à sua saúde

Cerca de metade da população da América do Norte agora procura cuidados fora do sistema de saúde mainstream, desfrutando assim dos benefícios das tradições de cura holística, sem pressa, como massagem, acupuntura e reiki.

  1. Tirar férias lentas

Visite um lugar que celebra a lentidão. As cidades lentas oficiais fazem mais espaço para pedestres e ciclistas e incentivam mercados de fazendeiros. Passeie pelas ruas sem trânsito, desfrute de vinhos e queijos locais, relaxe em restaurantes com o seu parceiro ou sua família.

  1. Desligar

Encontre momentos para desligar os dispositivos eletrônicos que nos mantêm como zumbis. Reserve algumas horas sem computador e e-mail, telefone celular e telefone residencial, televisão. Deixe seus dispositivos recarregarem para que você possa fazer o mesmo. Dê a si mesmo a liberdade de desligar, de ser lento.

Outros pensamentos: vá para casa cedo do escritório, se você tiver terminado o seu trabalho - não fique ao redor apenas para colocar no cronograma. Sempre pergunte-se se você precisa enviar ou responder um e-mail.

Dani Arrais1 Comment