Da internet para a prateleira

Não sei se com vocês tem acontecido o mesmo, mas basta eu dar uma olhada no Instagram para ver que tem muita gente lançando livro. Das blogueiras fitness e de moda aos caras da Porta dos Fundos (pra ficar no mainstream), passando pelas centenas de expositores da Feira Plana, que aconteceu este mês em São Paulo. Talvez seja aquela coisa de ver ao redor o que acontece com a gente - afinal, estou editando um livro e pretendo lançá-lo em algum momento (travei no processo, mas esse é outro assunto).

Daí me veio o raciocínio: livro é o novo projeto. Lembram que há um, dois anos muita gente fazia algum projeto na internet? Agora me parece que a iniciativa deu lugar a um novo desdobramento, desta vez no mundo físico, na forma de livros com conteúdo compilado a partir do que já foi publicado na internet.

Conversamos com autoras e editores que lançaram livros recentemente para tentar entender um pouco mais desse momento em que a internet está saindo da internet para, talvez, cativar a atenção das pessoas de um jeito menos caótico e mais perene.

contracapa O Pintinho 2

“Quando a gente vê no computador ou no celular, é normalmente entre um monte de abas, pulando de um aplicativo pra outro. Com o livro, existe um outro tipo de experiência; não uma ‘percepção’ pernóstica de ‘ai o livro’, mas simplesmente porque pelo menos não tem um monte de abas, não disputa com uma fila de mensagens não lidas, a vista dói menos”, diz Alexandra Moraes, autora de “O Pintinho” (ed. Lote 42), a maravilhosa tirinha que “tem como eixo central os diálogos entre um pintinho insolente e uma mãe indolente” e que ganha continuação com “O Pintinho 2 - Para Sempre Classe Média”, que será lançado no próximo sábado (29/3).

“Os textos que lemos na internet muitas vezes entram num hall gigantesco de coisas para se fazer online. Ler um livro segue sendo algo exclusivo. Não conheço ninguém que leia um livro enquanto está passeando pelo Facebook”, diz Lia Bock, autora de “Manual do Mimimi - Do Casinho ao Casamento (ou Vice-versa)” (ed. Paralela | Companhia das Letras), uma compilação dos textos que ela publicou no blog Eu Lia, Tu Lias, hospedado no site da revista TPM.

“É um movimento natural, tem tantos blogs bons com gente que escreve, que não tem como não acabar virando livro, ganhando novos leitores. E não é a mesma coisa. Na internet o seu link tem uma vida curta, quando sai no livro o texto fica ali pra sempre na sala da casa de alguém, do lado da cama, numa estante bem linda, é mais emocionante”, diz Jana Rosa, que lançou com Camila Fremder o “Como Ter uma Vida Normal Sendo Louca” (ed. Agir).

"A gente já tinha toda a química de trabalhar juntas e uma completar a frase da outra, nosso humor é o mesmo e tínhamos criado dois apps de celular de teste, engraçadinhos (Namoro ou chave de cadeia? e Namoro ou amizade?). Aí pensamos, se todo mundo tem blog, porque não fazemos um livro?"

Para Juliana Cunha, que lançou na Feira Plana “Kimland”, sobre sua viagem a Coréia do Norte, e no ano passado o “Já Matei por Menos” (ed. Lote 42), com textos postados em seu blog homônimo (leitura indispensável, aliás), estamos passando por um revival. “Lá para 2005 saiu uma leva grande de blog virando livro, foi uma coisa que até começou a encher o saco na época. Daí parou completamente, até porque os blogs mudaram muito e não tinham tanto conteúdo autoral. Agora parece que está voltando. Tem essa coisa da materialidade e de sentir que concluiu algo. Na internet as coisas estão sempre por fazer [o que é a beleza dela, mas às vezes angustia]”, diz.

Fabiane Secches, que faz a Confeitaria Mag e editou o livro “Amor: Pequenas Estórias”, acha que esse movimento acontece por conta da facilidade em se começar algo de maneira independente em um site, blog, rede social. “Mais tarde, caso ganhe consistência e justifique o interesse, pode-se considerar outras possibilidades.”

Audiência x volume de vendas

Ter um número expressivo de seguidores em redes sociais ou um blog com audiência significativa pode até ser o primeiro incentivo para se publicar o conteúdo postado neles, mas tanto autores quanto editores ainda estão tentando entender se o movimento online gera receita offline.

“O que fazemos basicamente é bater bumbo em redes sociais e disparar releases. Felizmente tem dado certo, já que nossos lançamentos tem recebido um público considerado excepcional até mesmo em comparação com as editoras grandes”, diz João Varella, da editora Lote 42,  que tem lançado alguns títulos surgidos da internet.  Ele não revela quais são esses números, mas conta que o "Manual de Sobrevivência dos Tímidos", de Bruno Maron, está em sua primeira reimpressão, oito meses depois de ter sido lançado. E acrescenta, ainda, que a projeção dos autores na internet ajuda nas vendas. “São autores já com um público interessado.”

Expandir a experiência do livro foi uma das estratégias da Confeitaria Mag para “Amor”. “Criamos conteúdos especiais complementares ao livro, mas que não dependem dele, para quem não quiser comprar, mas quiser fazer parte. Vídeos com frases sobre amor em nosso perfil no Instagram, uma série especial com dicas de leituras sobre outros livros de amor no Instagram do @livrodecabeceira [outro projeto da Confeitaria], conteúdo exclusivo para o site e ainda um app gratuito com algumas frases e ilustrações do livro”, diz Fabiane. A primeira tiragem, de 400 exemplares, esgotou em menos de um mês, segundo ela - e a próxima deve sair em junho.

Fugir das livrarias tradicionais também tem sido uma alternativa. “Pensamos em não fazer lançamento em livraria porque achamos burocrático para quem vai e chato para o autor (e também porque as livrarias costumam comer 50% do preço de capa dos livros, o que eu acho ultrajante e mina muito as editoras pequenas e médias). Também focamos a divulgação nos blogs e não nas revistas e nos jornais, já que é mais complicado para autores e editoras novas achar espaço nos veículos tradicionais. No fim até que os livros saíram em alguns veículos maiores que não esperávamos que dessem trela, mas foram os blogs que fizeram resenhas e entrevistas mais aprofundadas”, diz Juliana.

“As pessoas que curtem a página ou acompanham as tiras são uma força poderosa na divulgação e na venda do livro”, diz Alexandra, que fez uma espécie de teste, mesmo sem saber, quando criou calendários do Pintinho na virada de 2012 para 2013. “Mandei imprimir poucas cópias e recebi três vezes mais pedidos do que tinha de calendários. Ali eu vi que talvez houvesse mesmo algumas pessoas querendo um produto mais perene do Pintinho.”

“A fórmula nunca é muito exata, não existe uma conta tipo ‘o blog tem X acessos, logo, vamos vender Y livros’. Depende muito se aquele conteúdo ganha ou perde quando muda de suporte e qual a relação dos leitores com aquele blog”, acrescenta Juliana.

O boca a boca continua sendo a melhor estratégia, com a diferença de que agora vem acompanhado por uma hashtag. “Não tem jeito, a maioria das pessoas que lê indica, fico vendo quem marcou o livro na hashtag do Instagram e nos comentários sempre alguma amiga também leu ou alguma amiga pergunta se é bom, pede emprestado”, diz Jana.

Lia Bock

Vem então a pergunta que volta e meia ressurge: livro em papel sempre vai ter espaço, por mais que estejamos cada vez mais conectados?

João Varella, da Lote 42, responde: “Se depender de mim, sim. E acho que muita gente concorda que livro físico é um objeto muito bem acabado. Bateria infinita, não estraga fácil, proporciona possibilidades gráficas que e-book algum consegue fazer, não cansa a vista como as telas e são dotados de um sex appeal que a Apple jamais conseguirá imitar. Livro é basicamente a mesma coisa há séculos e o pessoal parece gostar disso. Não que isso signifique que não dê para inovar, claro.”

Sem falar que publicar ainda pode trazer mudanças. “Uma coisa é verdade, eu sempre escrevi, tenho o blog há cinco anos, mas só depois de lançar o livro comecei a ser chamada de escritora. Curioso, né? Acho que o livro ainda tem um glamour”, diz Lia.

E aqui falamos apenas do fetiche do livro físico mesmo, já que nenhum dos exemplos do texto ganharam versão para e-book. “Estamos estudando uma forma de entrar nesse meio. A estrutura atual de venda e distribuição de e-books privilegia as grandes editoras, o que nos afastou um pouco desse segmento”, finaliza Varella.

Dani Arrais1 Comment