Buzzfeed muito além das listas

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O Buzzfeed mudou a forma como nós consumimos entretenimento. Tornou-se o endereço certo para testes que nos fazem rolar de rir (alô, Rafael Capanema!), listas e GIFs da cultura pop, assuntos do dia com uma pegada zero isentona (Por que a nova Miss São Paulo é tudo o que queríamos ver no palco). Uma fonte assiduamente abastecida de conteúdo que compartilhamos porque nos divertem, emocionam e nos fazem entender mais do dia a dia.

Sinônimo de conteúdo rápido, principalmente em formato de lista, o Buzzfeed também aposta em jornalismo. E cada vez mais. Nos Estados Unidos, a guinada começou em 2012, com a contratação de jornalistas e jovens escritores para fazer “jornalismo sério”. Há dois anos, abriu uma vertente investigativa, que conta com jornalistas premiados com o Pulitzer em seu quadro de funcionários. O investimento deu resultados impactantes, como a reportagem, publicada em parceria com o Guardian, sobre fraudes no mundo do tênis.

No começo de maio, o Buzzfeed anunciou a abertura da operação formal de notícias no Brasil, com a contratação de Graciliano Rocha, ex-repórter da Folha de S.Paulo. Foi o gancho para eu fazer o que tinha vontade há um tempo: conversar com a Manuela Barem, editora-chefe do Buzzfeed no Brasil e autora do livro "58 listas (33 úteis & 25 nem tão úteis assim". Ela é formada em jornalismo no Mato Grosso do Sul, mudou-se para São Paulo há cinco anos e passou pelo YouPix e pela F451 Midia. Na entrevista a seguir, ela conta como é estar no comando do endereço mais pop da internet.

- Você sempre gostou de fazer listas, de embalar informação desse jeito rápido e divertido?

Nunca fui exatamente fã de listas em si. Eu sempre fui encantada pela comunicação e por gente que sabe contar histórias. Tem gente que se comunica de uma forma quase minimalista, simples, e chega a todo mundo, independente da idade e formação cultural, né? Isso é o que eu sempre busquei e ainda busco. Já as listas são uma coisa recente para mim. Eu comecei a enxergá-las como ferramenta de comunicação especialmente por causa do BuzzFeed.

- Como é tentar entender diariamente a cabeça e o gosto dos jovens de 20, 30 anos que passam o dia na internet?

É um desafio que, com o tempo, eu e a minha equipe transformamos em um exercício diário. A gente quer chegar nesta geração que está consumindo notícias e criando tendências nas redes sociais todos os dias, e para isso tentamos nos colocar no lugar destas pessoas e imaginar como é viver em um ambiente tão complexo como a internet. O dia-a-dia da produção de conteúdo geralmente faz este caminho de pensamento.

- Trabalhar no Buzzfeed te transformou numa maníaca das listas? Como é passar o dia pensando em listas?

Hahaha, não, pelo contrário! Mas acho que todo mundo pensa o nosso trabalho assim. As pessoas sempre me abordam brincando e dizendo "10 coisas que só quem nasceu em 1980 sabe", mexendo comigo. Na verdade, a gente não pensa nas listas em si, com os números e os itens. Pensamos nos temas, depois nos recortes deles e em como contar uma determinada história tentando incluir este tema. Então, nosso trabalho é mais focado em escolher uma história para contar. Fora que, hoje em dia, muitas das nossas listas nem são numeradas. Eu diria que, no lugar das listas, o BuzzFeed me tornou uma maníaca do "conteúdo relacionável".

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- O Buzzfeed mudou a forma como a gente consome notícia e demais conteúdos na internet. Como é acompanhar isso de perto, estando à frente da operação no Brasil?

Para mim, a parte mais legal de trabalhar no BuzzFeed é a sensação de que o jogo nunca está ganho e que é preciso seguir as tendências porque tudo muda, muitas vezes, em um curto período de tempo. Isso me mantém motivada. Eu comecei a trabalhar em jornal impresso, então também é legal poder olhar para trás e pensar sobre a forma como fazíamos jornalismo e consumíamos informações até pouco tempo. Tendo tudo isto em mente, penso em como aplicar para o público brasileiro o que aprendo com o BuzzFeed americano e com o trabalho dos meus colegas editores internacionais (o BuzzFeed está em nove outros países), além de tentar "hackear" novas ideias e formatos para o público local.

- Por aqui o Buzzfeed ainda é muito associado a humor, enquanto nos Estados Unidos começa a avançar também no desenvolvimento de sua equipe de jornalismo, chegando a dar furos de reportagem. Existe essa vontade de trazer essa pegada também para o Brasil?

Sempre tive a vontade de ter uma equipe de jornalismo no site porque entendo que as notícias são poderosas e isso nunca vai morrer, assim como o jornalismo. Então, com o tempo fomos desenvolvendo alguns experimentos de notícias no site. Um deles é o que classificamos como social news — no caso as coisas que surgem nas redes sociais e que a gente vai atrás, apura e transforma em notícias. Fizemos também alguns explainers, que são os posts onde tentamos responder alguma pergunta da audiência, como o que fizemos neste post do ano passado sobre o que aconteceria se a Dilma sofresse um impeachment.

Todos estes experimentos, aliados à criação de uma base de leitores, nos levaram à expansão da operação no Brasil em direção ao conteúdo, digamos, "mais sério". Então no começo deste mês anunciamos a abertura da operação formal de notícias no Brasil com a contratação de Graciliano Rocha, ex-repórter da Folha de S.Paulo, como editor de notícias do BuzzFeed Brasil. Neste início teremos uma equipe pequena, mas de peso, e atualmente estamos fechando os nomes. A primeira repórter já foi contratada: Tatiana Farah, uma repórter com mais de 20 anos de experiência que passou por redações como O Globo e Notícias Populares. O test drive deles foi a cobertura da votação do impeachment no Senado e fizemos coisas bem legais.

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- Fico curiosa pra saber como é sua rotina na internet. Quais são suas fontes preferidas de informação, quais redes mais usa?

Todas as manhãs eu e a redação temos uma reunião em que alguém da equipe apresenta uma espécie de "jornal matinal" com as notícias mais compartilhadas nas redes sociais naquele momento. Assim a gente começa o dia definindo o que pode ser pauta, além das coisas que a gente já programou para a semana. Eu acho que ser heavy user de internet também me ajudou bastante no trabalho. Hoje em dia, não consigo passar muito tempo nas redes sociais, mas sempre que tenho um espacinho dou uma checada no que está rolando no Facebook e no Twitter, que ainda é a minha rede social preferida graças a minha timeline, que é totalmente maluca e engraçada.

- Você consegue desconectar em algum momento?

Sim, e muito. Em casa, pela noite, e nos fins de semana eu geralmente estou bem desconectada. Com o tempo, vi que isso era necessário e consegui achar mecanismos para deixar o celular de lado sem nem perceber. Então consigo desligar ouvindo música, saindo com meus amigos, organizando minhas coisas (estou numa vibe Marie Kondo ultimamente) ou até mesmo sentada no sofá olhando para o nada (uma cena bem estranha de se ver, confesso).

- Antes do Buzzfeed, por onde você passou? E quais são seus planos pro futuro?

Mudei para São Paulo há cinco anos e aqui trabalhei na maior parte do tempo com internet, como editora de sites como youPIX e Jezebel Brasil (atualmente desativado). Já em Campo Grande (MS), de onde vim, trabalhei com tanta coisa, de jornalismo impresso a coletivo de música, passando por assessoria de imprensa de órgão oficial até programa de rádio de garagem. Não faço ideia do meu futuro no momento e não me sinto mal por isto. Estou aberta ao que vier; se eu puder usar o que eu aprendi e aprender mais coisas, melhor ainda!

Dani Arrais2 Comments