Bode pós-férias

Voltar de uma viagem nunca é fácil. Em 2008 morei e trabalhei em Barcelona, e por lá a maioria das empresas fecham suas portas em agosto e voltam somente no mês seguinte. Ou seja: todos os funcionários tem férias no mesmo mês, quer queiram ou não. Quando voltei, em vez de encontrar pessoas felizes, descansadas e motivadas me deparo com o fenômeno que por lá leva o nome de “bajón post vacacional”. Em bom português seria algo como “bode pós-férias”. Nunca vou esquecer o efeito de ver uma empresa inteira pós-férias de 30 dias! o.O

Essa intro foi pra dizer que ando acreditando que a volta das viagens nem sempre precisa ser deprê. Que tudo muda quando a intenção da viagem muda.

Minhas últimas viagens além de terem sido excelentes para descansar e curtir e tudo mais que se espera de férias, também foram muito intensas, sentimentalmente (e existencialmente) falando. No início do ano passado, quando conheci a Tanzânia já aconteceu uma grande revolução dentro de mim: passei 20 dias vivendo em um lugar onde todos os conceitos de mundo como conhecemos são outros. Tudo o que você sabe não tem valor por lá. Para começar isso faz com que você tenha muita, mas muita humildade diante das situações. Você está nas mãos das pessoas que estão te ajudando por lá. Você não fala a língua, você não conhece as regras da selva e o comportamento dos animais. Resumindo: sem eles você não dura nem um dia. A noção de tempo também é outra. Logo que chegamos perguntamos que horas sairia o ônibus que precisávamos pegar e escutamos como resposta a frase: “quando ele ficar cheio”. Tão simples que chega a ser óbvio e tão distante do mundo de grandes cidades e da correria que vivemos hoje. Um mundo que é pequeno, mas que quanto mais nos fechamos dentro de nossas rotinas, maior ele fica. E estar em um ambiente como o dessa viagem nos força a ver o quanto temos tão mais do que precisamos enquanto uma parte gigante do mundo tem tão pouco. Falta água, falta saúde, falta tudo o que consideramos essencial e muitas vezes nem pensamos sobre. Não agradecemos e o pior, não temos consciência do tanto que temos. Na verdade, nem precisamos ir muito longe para encarar realidades bem parecidas perto de nós. Mas a rotina as vezes nos blinda a vista. Enfim, voltei dessa viagem querendo desacelerar, expandir o meu mundo e principalmente ter mais foco no que é verdadeiramente importante.

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Mas a vida é engraçada e menosprezamos o poder da rotina. Ela nos engole, não acham? Sinto que mudei um pouco, mas não o tanto quanto senti que essa viagem me mudaria.

No meio do ano passado, outra viagem mexeu bastante comigo. Dessa vez o destino foi mais perto, o Pará - mais precisamente Alter do Chão, mas mesmo assim senti uma distância enorme na forma como vivemos comparada a de algumas pessoas que conheci. Em Alter conheci pessoas que passam a impressão de que estão com suas prioridades em ordem. Pessoas que tem missões de vida tão definidas que dá vontade de sentar e só escutar, aprender. De estar perto. E novamente senti o nascer de uma pequena revolução dentro de mim.

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Voltei sem tanta pressa para mudar, mas com uma vontade enorme de ser uma pessoa melhor. E essas viagens me fizeram encarar as férias com outros olhos. Viajo para curtir e descansar, mas hoje meu principal intuito com cada viagem é aprender. Assim, em vez de voltar desanimada com a rotina, volto querendo aplicar tudo o que aprendi na minha vida. Esse tem sido o meu antídoto contra bode pós-férias. Qual é o seu?

Luiza Voll6 Comments