A volta da revista Bravo

unnamed (1) Em 2013 a editora Abril anunciou o fim da revista Bravo. Na mesma leva, foram encerradas a Gloss, a Alfa e a Lola. Cada novidade dessas é uma má notícia para o jornalismo, para o mercado - e significa menos oportunidade para quem já atua e, principalmente, pra quem ainda vai chegar. Mas sempre gosto de lembrar que, por outro lado, surgem iniciativas independentes que oxigenam esse mesmo jornalismo que dizem estar respirando por aparelhos (falamos sobre isso no texto O jornalismo para além da crise).

Foi com entusiasmo, portanto, que recebi a notícia de que a Bravo! voltou. Três anos depois, um grupo de profissionais independentes conseguiu licenciar a marca e colocar de pé a nova versão do principal título de cultura do país, agora com mais foco em internet. Uma alegria para quem gosta de bons textos e reflexões sobre arte, música, literatura. 

Na plataforma digital bravo.vc, os publishers trabalham com o conceito de temporada. A primeira, chamada Incertitude, é dividida em episódios com duração total de três meses. O primeiro episódio versa sobre Inhotim, o centro de arte contemporânea localizado em Minas Gerais que completa dez anos em 2016. A ideia é ter edições impressas eventualmente, viabilizada por patrocínio. Nas redes sociais, a Bravo! faz conteúdo diário, focado em agenda.

Conversei com o jornalista Guilherme Werneck sobre a iniciativa: bravo.vc.

Como veio a ideia de retomar a publicação da Bravo? E como vocês se organizaram pra tirar isso do papel?

Quem começou tudo foi a Helena Bagnoli, que conseguiu licenciar a marca da Abril e me chamou pra ser sócio dela essa aventura. Foi no fim do ano passado. Junto com o Henk Nieman, nosso diretor visual, começamos a pensar como seria essa volta. A gente tava quebrando a cabeça pra achar um jeito de voltar com a Bravo que fizesse sentido hoje, sem desconsiderar a história maravilhosa da revista. Foi aí que quase por acaso a gente se conectou com o Peéle Lemos e a a Yentl Delanhesi. Nós cinco juntos chegamos a esse formato que ela tem hoje, com uma temporada temática de 3 meses, composta por 6 episódios que são dossiês multimídia, lançados a cada 15 dias.

A internet tem um papel fundamental nessa nova fase. Conta como vocês estruturaram o projeto?

A gente não queria nem fazer um blog de cultura, nem um site noticioso. A Bravo! pressupõe profundidade, textos longos, apuro estético. Daí pensamos em trabalhar em camadas. A primeira é essa das temporadas, nossa aposta para o que seria uma revista nos tempos digitais. E a camada mais densa. Ao lado dela, teremos edições impressas, lançadas quando fizer sentido e vendidas pelo site. Queremos fazer a primeira ao fim dessa temporada zero, que tem o nome de incertitude. Como a gente não quer nadar contra o inevitável, apostamos no Facebook como plataforma para escrever coisas mais quentes. Aí vamos trabalhar de três formas: produzindo conteúdo só pro Facebook, replicando diretamente postagens de artistas e curando diariamente o que sai de relevante em arte e cultura, sob a ótica da Bravo!.

Em uma internet cada vez mais acelerada, o que os fez decidir por textos grandes e longas imersões?

A gente não queria fazer mais do mesmo. Nem ser pautado pela lógica do Vale do Silício, que tem provado ser muito pouco eficaz para bancar o jornalismo, e aí democraticamente essa lógica tem destruído que faz conteúdo bom e quem só copia. Por isso apostar no que pouca gente está fazendo, mirando num nicho de quem ama cultura e arte. E quem ama arte sabe que boa informação não é perda de tempo. Para falar com essa comunidade, apostamos no conteúdo gratuito no digital. Uma característica da nova Bravo! é buscar inclusão pela qualidade. Quando a gente vê valor em alguma coisa, encontra tempo pra degustá-la.

Comercialmente, como colocaram de pé o projeto? Pensam em cobrar pelo material on-line?

A gente começou na cara e na coragem. Estruturou um plano diferente de negócios, mais próximos das marcas, mantendo a integridade do jornalismo. É uma aposta. Hoje está alinhada ao discurso de muitas marcas. Temos fé que vamos conseguir aliar discurso e prática. A ideia é criar junto, não entregar um espaço pra logo ou para um banner que ninguém clica. A entrada do Spotify no episódio de Inhotim aponta esse caminho. Gostamos de pensar que a arte é um dos caminhos mais bonitos de inclusão social e cultural e que a Bravo! tem a capacidade de ser protagonista nessa inclusão, o que tem valor. Não dá pra incluir ninguém colocando uma barreira monetária. As marcas que compartilharem dessa visão vão saber trabalhar com a gente e ajudar nesse processo tão necessário para um país como o Brasil.

Quais as vontades mais absurdas que vocês têm para o futuro da Bravo?

São muitas, mas não vou dar spoiler. Basta dizer que a gente não pensa só na produção jornalística para abarcar todas as nossas ambições. Se você viu Austin Powers sabe do que estou falando, kkkk.

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Dani Arrais2 Comments