A vida como ela não é nas redes sociais

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Texto publicado originalmente no M de Mulher.

Trocamos o intervalo comercial da TV pela propaganda constante de como todos à nossa volta são extremamente felizes, todos os dias da semana - e no fim de semana, então, nem se fala. Dependendo do momento em que estamos, o broadcasting da vida alheia por Facebook e Instagram tem o poder (ou nós damos esse poder a ele) de nos deixar alegres ou tristes, satisfeitos com nós mesmos ou desejando o que não temos.

Há uns anos, quando estávamos em casa no sábado à noite, felizes em fazer maratona de "Game of Thrones" comendo pizza, abríamos o Instagram e era inevitável sentir um pouco de FOMO (fear of missing out, em inglês), o medo de perder o bonde dos acontecimentos. Uma sensação que já foi tão falada e estudada que deu origem a seu contraponto: a JOMO (joy of missing out), a alegria de perder essa avalanche de acontecimentos da nossa timeline.

Das teorias para a prática, aprendi nas últimas semanas que cada vez mais estamos tão acostumados a criar uma narrativa irretocável de nossas vidas que é comum aos espectadores, ou seguidores, comprarem nossa ideia de felicidade.

Nada que uma mesa de bar não resolva.

Dia desses, uma amiga dessas que não fazem parte do dia a dia e cuja vida perfeita inclui quatro filhos adoráveis, viagens de trailer por lugares remotos e muitas comidas deliciosas mandou um email contando que tinha se separado. O choque foi tão grande que nunca foi tão rápido marcar um almoço pra ela contar tudo. Acabei falando que era impossível pensar que na vida dela de comercial de Instagram existia lugar pra crise. E logo percebi, mais uma vez, que entre um post e outro existe, na verdade, espaço pra muita vulnerabilidade.

Ela contou sobre sua jornada de autoconhecimento, das novas escolhas que passou a fazer. Seus posts nem mudaram tanto, mas ver o Instagram com o filtro da realidade me deixou mais em paz com os meus próprios conflitos.

Saí do almoço pensando: vamos continuar assistindo a esses comerciais em looping, sendo que cada vez mais vamos interiorizar essa ideia de que a internet é um pedaço da vida inteira. Um pedaço grande até, mas ainda um pedaço, por mais que os limites estejam cada vez mais tênues dependendo do quanto cada um usa a rede.

Da próxima vez que você estiver sentindo que a vida dos outros é melhor que a sua, pare e pense: estamos todos fazendo a transmissão quase ao vivo dos comerciais das nossas vidas. Roteiro irretocável, produção ímpar, filmagem com alto orçamento e edição cirúrgica. Não tem como ficar ruim. A gente bem sabe, no entanto, que são as reviravoltas que deixam a vida bem mais eletrizante ou, pelo menos, mais divertida.

Dani Arrais1 Comment