A internet que a gente quer: Liliane Prata, escritora e youtuber

liliprata Liliane Prata é jornalista, escritora e youtuber. Adoro a forma como ela escolhe falar das coisas. Geralmente é sobre amor, relacionamento, mas ela também se aventura a discorrer sobre política, meditação, empatia. Tenho a impressão que ela está sempre com o radar ligado para encontrar assuntos que valem a pena ser disseminados pra mais gente, sabe?

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#ainternetqueagentequer por Liliane Prata

Pensar na internet que a gente quer passa por pensar na pessoa que a gente tenta ser, mas é possível isso, ser essa pessoa que a gente tenta ser e, por consequência, ter a internet que a gente quer?

Outro dia, meu vizinho me contou: a duas quadras aqui de casa, ele e o filho estavam atravessando a rua na faixa de pedestre para tomarem sorvete; um motorista nada respeitador das faixas de pedestres, que dirá comovido com pais e filhos tomando sorvete, acelerou em direção a eles, acelerou em direção a eles, e, se os dois não tivessem apertado o passo, sabe Deus o que teria acontecido – quer dizer, não vamos botar Deus nessa história de vida e internet melhor, que a convivência humana já é bagunçada o suficiente.

Sério, espero não ter esse motorista nem na rua que eu estiver atravessando com a minha filha, nem no meu feed.

Outro dia, sem ser o dia já citado, mas outro dia, eu, veja só, eu que estou escrevendo este texto e que portanto deveria me colocar a salvo de tudo o que as pessoas fazem de repreensível ou de ridículo, nesse outro dia eu falei demais, depois falei uma coisa e fiz outra, tomei uma decisão e mudei de ideia e ainda fui muito rude com uma pessoa que não tinha me feito nada de errado – fui rude unicamente porque estava com fome. Provavelmente como você, eu gostaria de uma internet mais cordial, mas estou ciente de que não há cordialidade que resista a um estômago roncando e me pergunto quantas pessoas, neste momento, estão no Facebook com o estômago roncando.

A internet que a gente quer, o estômago que a gente tem, o mundo em que a gente vive, o (des) equilíbrio frágil dos pobres eus destemperados que fazem parte dessa abstração chamada a gente – como sempre, o desafio é conciliar a imensidão do nosso querer com o miúdo do possível, do razoável; nossas melhores intenções de retidão com nosso caos interior. Se os internautas (ai, que palavrinha) estiverem razoavelmente bem internamente, a internet será razoavelmente boa, razoavelmente amorosa, humana; se forem (formos) preconceituosos, difíceis, gritalhões, rasos, tapados, mais mal-resolvidos do que a mal-resolução existencial que nos é inerente, aí a internet será isso que é: muita notícia útil misturada com futilidades, distrações e exibicionismos inúteis, mas inofensivos, e também muita distorção, desonestidade da pior espécie, agressividade gratuita, falta de compaixão, homofobia, machismo e intolerância em todos os níveis – para não falar naquelas questões de difícil resolução que refletem um mundo cuja transformação se dá mais rapidamente do que a nossa capacidade de absorção, tipo direitos autorais, privacidade, vício digital, etc etc etc.

Talvez equilíbrio, bom senso, amorosidade na internet sejam possíveis se fora da internet forem possíveis, mas existe mesmo uma possibilidade que vença tanta bagunça existencial?

Faço minha parte, e imagino que você que se interessou pelo tema desta série de textos também faça sua parte, mas certamente compartilhamos aquela sensação incômoda de estar enxugando gelo como motoristas, como internautas e como nós mesmos, não só por fazermos pouco, mas por esperarmos tanto. Esse excesso de expectativa em relação aos outros, a nós mesmos e a tudo que é vivo tira nossa alegria e compromete nosso potencial, estou certa. Melhor aceitar que é assim que é, que a gente se esforça para fazer nossa parte e consertar um encanamento aqui, mas logo, logo outro vai estourar ali e o caos não tem fim e é isso aí.

No entanto, tem uma frase que eu amo e sempre cito, não sei de quem é, mas amo e sempre cito: "Não é porque a assepsia absoluta é impossível que vai ser admissível realizar uma cirurgia no esgoto". Equilíbrio até existe, mas dura pouco; somos todos um bando de desequilibrados, ou melhor, somos uns equilibristas, e seguimos equilibrando dentro e fora de nós, buscando ser a melhor versão de nós mesmos e tendo paciência ou impaciência (depende do dia) com aqueles colegas humanos que, na boa, não se esforçam nem um pouco por eles mesmos e por seu entorno offline e online.

O que eu faço para contribuir: ser uma pessoa amorosa, a melhor equilibrista emocional, digamos, que consigo ser, e aí acho que o resto vem meio que naturalmente. Ah, também procuro não me apressar para opinar nas redes antes de pesquisar sobre o que estou opinando; procuro não compartilhar nada por compartilhar – "Espalhar esse artigo intolerante vai acrescentar alguma coisa ou só vai dar mais voz a essa pessoa intolerante?" é uma pergunta que costumo me fazer –, e ser consciente sobretudo nas crônicas que escrevo no site da CLAUDIA e nos vídeos que gravo para o meu canal. Em ambos, procuro produzir fora do modo piloto automático, e sim de modo consciente, buscando de alguma forma acrescentar à vida das pessoas, sabe? Afinal, "apesar dos pesares", como diz minha mãe, a internet acrescenta muito à minha vida, todos os dias.

Quem já passou por aqui:

Gustavo Mini, publicitário/Conector

Ana Paula Freitas, jornalista/Nexo

Luanda Fonseca, do No Drama Mom

Juliana Cunha, do Já Matei por Menos

Juliana Gomes, do Leia Mulheres

Rafa Cappai, da Espaçonave

Gui Poulain, do Moldando Afeto

Thaís Fabris, Larissa Vaz e Maria Guimarães, do 65/10

Carol T. Moré, do Follow the Colours

Ana Luiza Gomes, do projeto Andarilha

Patricia Abbondanza, da Dedo de Moça

Debora Baldin, do Canal das Bee

Bia Granja, do YouPix Hub

Michell Zappa, da Envisioning

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