A internet que a gente quer: Juliana Cunha, do Já Matei por Menos

cunha Juliana Cunha é jornalista e escritora. Com seu Já matei por menos, fornece desde 2002 um vasto material sobre comportamento humano. Seus textos são afiados, precisos, fogem do lugar comum - e, algumas vezes, causam polêmica. Gosto demais do fato de que ela praticamente liga o foda-se e escreve em um fluxo muito corajoso, fora do lugar comum. Não são poucas as vezes em que a gente termina de ler e solta um “é exatamente isso que eu penso (só não tinha me dado conta ainda)”.

Quando li a resposta dela para esta seção, quis dar um abraço e ir pra mesa de bar conversar mais. Foi, até agora, a mais completa tradução do que eu também penso sobre os rumos que a internet tem tomado ultimamente.

#ainternetqueagentequer por Juliana Cunha

A internet que eu quero talvez tenha existido por um breve período no começo dos anos 2000, talvez seja só saudosismo e projeção da minha parte. Ela é antes um escape da vida do que uma intensificação dos problemas da vida. É o lugar onde você conversa com estranhos, inventa nomes, compartilha arquivos, brinca de cronista em blogs. É um lugar onde grana, contatos, poder e beleza importam menos, e não mais do que na vidinha. Ela tem um espírito mais anárquico e contra as empresas e menos vigilante e contra as pessoas. Na internet que eu quero, ninguém escava tuítes e textos de blogs de dez anos atrás para desmoralizar um desafeto. As pessoas se juntam contra empresas e derrubam a indústria da música download por download, não contra o inimigo da semana e “descobrem” que, em 2012, uma atleta que hoje é simpática ao PSOL fez um comentário maldoso sobre um BBB transsexual, numa época em que a discussão sobre transfobia não era popularizada, ninguém tinha ouvido falar em passabilidade e a moça talvez fosse outra pessoa. É um ambiente de menos fechação, lacração, exibição e de mais discussão. Um lugar meio mal visto. Nele a gente admira as pessoas menos por suas habilidades como “entertainers” e mais por seus conhecimentos e ideias originais. É um lugar que te ajuda a ver as pessoas como multifacetadas, e não como ainda mais chapadas do que na “vida real” (era ótimo quando a gente podia falar isso sem aspas, porque havia de fato uma separação entre essas duas dimensões). É um lugar menos disperso também, um lugar em que a nossa atenção é menos commodity. Um lugar onde éramos menos produto e mais agentes. Não produtores no sentido de postarmos nossas fotos, fazermos nossos vídeos. Isso não é criar nada, necessariamente. Quando você usa uma rede social criada para postar fotos de comida, viagem e barriga negativa e posta fotos de comida, viagem e barriga negativa, você não está criando nada, está apenas gerando mais volume de dados em um molde concebido por publicitários em uma sala. Se você posta exatamente o que os idealizadores de uma plataforma planejaram que você postasse, isso não é criação de nada. Um exemplo que foge disso é a instituição brasileira do textão de Facebook. Isso sim é criação nossa. Pegamos uma rede social feita para esfregar seu anel de noivado na cara das colegas de escola e transformamos em um espaço de debate da sociedade. Para ser criação de verdade, um conteúdo precisa ser levemente inadequado àquela plataforma. A internet que eu quero é, em suma, uma internet menos parecida com briga de escola e televisão ruim, menos benéfica aos interesses de empresas e menos reprodutora de privilégios.

Quem já passou por aqui:

Juliana Gomes, do Leia Mulheres

Rafa Cappai, da Espaçonave

Gui Poulain, do Moldando Afeto

Thaís Fabris, Larissa Vaz e Maria Guimarães, do 65/10

Carol T. Moré, do Follow the Colours

Ana Luiza Gomes, do projeto Andarilha

Patricia Abbondanza, da Dedo de Moça

Debora Baldin, do Canal das Bee

Bia Granja, do YouPix Hub

Michell Zappa, da Envisioning

Dani Arrais2 Comments