A internet que a gente quer: Gustavo Mini, publicitário/Conector

mini Existem uns blogs que a gente acompanha desde sempre - e lamenta quando a produção deles cai tanto (pô, Facebook!). O Conector é um deles. Criado por Gustavo Mini, o espaço existe desde 2005 e traz uma mistura de assuntos: música, internet, paternidade. É dele um dos textos mais lindos sobre esse último assunto, aliás (Ter filhos é uma droga).

Mini é publicitário, e também é músico. E, além de tudo, costuma refletir sobre os caminhos que essa internet tem tomado.

A resposta dele me deu vontade de chamá-lo para ser meu professor, de criar uma turma de interessados em discutir esse tema, de ir além. Ando cada vez mais apaixonada por essa série, viu?

#ainternetqueagentequer por Gustavo Mini

A Internet que eu quero: universal, horizontal e saudável.

Primeiramente, fora desconexão. A Internet que eu quero, antes de mais nada, é universal. Ainda temos no Brasil um déficit digital grave: entre 35 e 40% da população simplesmente não tem acesso à internet, o que significa estarem desconectados de todo um novo mundo de possibilidades culturais e econômicas. É muita gente de fora da maior mudança global desde a revolução industrial. Mesmo entre os conectados, ainda há uma grande diferença de acesso, com pessoas de classes mais altas dos centros urbanos do Sul e Sudeste com uma acesso mais avançado em termos de conexão e aparelhos. Existe, então, toda uma parcela dos brasileiros subconectada, se virando com acessos lentos e aparelhos (desktop, notebooks e celulares) de segunda categoria. Isso configura uma tremenda desvantages em termos de poder evoluir na vida dentro do contexto em que estamos operando hoje.

A inclusão digital vem ocorrendo, sim, mas de maneira desigual, muito mais por movimentos de mercado do que por políticas públicas. Dessa forma, mesmo que os números gerais de acesso melhorem ano a ano, o crescimento quase repete os padrões demográficos de desigualdade social: classes mais altas de centros urbanos do sul e sudeste estão sempre no início da fila. Além do mais, para quem está desconectado ou subconectado, essa deveria ser uma questão emergencial. Imagine se só fosse possível a você entrar na Internet em 2014, em 2017 ou em 2020? Imagine sua vida e a dos seus filhos sem internet desde que você acessou pela primeira vez? Que oportunidades você teria perdido? Quais seriam suas possibilidades de evoluir hoje? Uma das soluções para isso seria um plano de incentivo do Governo Federal nos moldes do fracassado Plano Nacional de Banda Larga dessa vez mais veloz e focado em facilitar a aquisição smartphones de última geração combinados com redes 4G para populações e locais que não tem acesso a isso. Esse pacote provavelmente seria uma injeção de cultura e economia nesses lugares perceba a revolução que profissionais autônomos tiveram com o Whatsapp ou o que jovens artistas de periferia fazem com as redes sociais e aplique a exponencialidade sobre essa equação simples. O potencial é imenso.

Em segundo lugar, a Internet que eu quero seria uma ferramenta de construção cultural, de cidadãos conscientes da sua inserção na sociedade, autores de suas identidades individuais e coletivas. Isso significa que a redução da desigualdade digital precisaria ser feita de forma bottomup: fornecer as ferramentas e o acesso à imensa diversidade de populações desatendidas e fomentar a expressão cultural e econômica dessas populações a partir das realidades e necessidades delas. Na prática, isso significa parar de enxergar as pessoas que não estão conectadas exclusivamente como 1) mão de obra para o mercado e 2) como possíveis repetidores do padrão empreendedor do Vale do Silício. A imaginação brasileira é maior do que isso e novas formas de usar a tecnologia não podem ser sufocadas com os clichês e com a visão tradicional deste meio. Por exemplo, seria revolucionário que os milhões de jovens do campo cujos pais estão engajados em pequenas cooperativas pudessem ver a possibilidade de, se assim desejarem, criarem uma nova forma de viver no interior conjugando suas culturas tradicionais com a tecnologia. Mas isso precisa ser feito a partir do ponto de vista deles. Talvez a maior expressão de força dessa lógica seja o rap brasileiro, que a partir da chegada dos primeiros computadores, muita criatividade e suas próprias verdades, criou toda uma forma de ser, viver e trabalhar que ofereceu uma real alternativa para milhões, além de enriquecer o caldo cultural e econômico do país. Isso não foi feito de cima pra baixo, do centro para a periferia, mas na direção contrária.

Em terceiro e último lugar, mas não menos importante, a Internet que eu quero precisa incluir a dimensão da saúde cognitiva de seus usuários. Estamos caminhando para um cenário de hiperconexão, da presença da Internet e suas derivações em todos os momentos do nosso dia a dia. O smartphone combinado com a rede 4G está derrubando a barreira entre momentos conectados e desconectados. Mais e mais usuários estão se acostumando com o modo always on, nunca se desligando da tela, estimulados pela novidade, pela vasta oferta de conteúdo e pela publicidade das operadoras de celular que vem incentivando essa forma de uso da rede (mesmo que aqui e ali publiquem campanhas dizendo o contrário). A fragmentação da atenção em escala nacional é algo que não deverá passar batido no que diz respeito à saúde pública. Já somos um dos países que mais dopa nossas crianças com remédios para hiperatividade e déficit de atenção, uma prática curiosamente democrática que atinge tanto as classes mais altas quanto as classes mais baixas. A saúde cognitiva deveria se tornar mais uma das bandeiras do Ministério da Saúde, provavelmente em um trabalho transversal junto com o Ministério da Cultura e o Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicação. É perfeitamente possível a inserção equilibrada e produtiva da Internet em nossas vidas, mas isso exige que o usuário assuma o protagonismo de seus momentos conectados, ou seja, que ele desenvolva a capacidade de selecionar ativamente o que vai fazer, por onde vai navegar, o que vai consumir, não apenas reagindo a todo e qualquer estímulo de informação, sendo carregado pelo fluxo interminável das timelines e newsfeeds, passando o dedão pra cima na tela do celular como um zumbi. Alguns usuários conscientes, experientes ou que simplesmente precisam se organizar para serem minimamente produtivos sabem como é possível ser dono da sua navegação e não ser levado pelo rio caudaloso da Internet em suas telas. A dificuldade de se relacionar de maneira saudável com as telas digitais que carregamos no bolso pode se tornar um fator a mais para o surgimento de ansiedades e depressões, o que, em um país de 200 milhões de habitantes, configuraria, repito, um problema de saúde pública.

Em resumo, a Internet que eu quero é a Internet com que provavelmente sonharam todos os grandes cientistas, pensadores, empreendedores e artistas que ajudaram a criála evoluí-la: uma Internet universal, que incentive a expressão coletiva de maneira horizontal e, por fim, que não nos deixe completamente malucos.

*** O que eu tenho feito para contribuir com isso? Bom, uma vez que eu fui longe na proposta, falando de Governo e políticas públicas, mas não atuo de fato nessa área. O que posso dizer é que durante os últimos 10 anos ou eu venho produzindo e repassando conteúdo de reflexão sobre o tema, tanto em iniciativas finadas, como o blog Conector, o portal OEsquema, a coluna Minimalismo na Oi FM, quanto nas minhas conversas e debates nos quais me envolvo atualmente. De vez em quando, talvez não tanto quanto eu gostaria, consigo inserir algumas dessas perspectivas no meu trabalho com publicidade. Além disso, sempre prestei trabalho voluntário em comunicação para centros budistas, cuja atuação está intimamente ligada à questão da saúde cognitiva. Essas são minhas contribuições.

Quem já passou por aqui:

Ana Paula Freitas, jornalista/Nexo

Luanda Fonseca, do No Drama Mom

Juliana Cunha, do Já Matei por Menos

Juliana Gomes, do Leia Mulheres

Rafa Cappai, da Espaçonave

Gui Poulain, do Moldando Afeto

Thaís Fabris, Larissa Vaz e Maria Guimarães, do 65/10

Carol T. Moré, do Follow the Colours

Ana Luiza Gomes, do projeto Andarilha

Patricia Abbondanza, da Dedo de Moça

Debora Baldin, do Canal das Bee

Bia Granja, do YouPix Hub

Michell Zappa, da Envisioning

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