A internet que a gente quer: Debora Baldin, do Canal das Bee

deborabaldin Vamos retomar aquelas perguntas de que a gente tanto gosta: como é a internet que você quer? Como você contribui para a construção dela?

Convidamos a Debora Baldin, do Canal das Bee, para recomeçar. Com mais de 260 mil inscritos, o canal dá voz à comunidade LGBT e aborda os mais diversos assuntos, da saída do armário a "não aceito meu filho gay", passando pelo começo da vida homossexualquem namora a travestiaceitação do corpo, o cuspe do Jean Wyllys.

Debora divide a câmera com Jessica Taune e outros colaboradores, postando em média dois vídeos por semana e iniciando conversas fundamentais com um público extremamente engajado, que se reconhece na diversidade das falas, se entende ao ver que muitos dos problemas são parecidos e, além de tudo, se apoia - e se celebra.

Vamos lá? :-)

#ainternetqueagentequer por Debora Baldin, do Canal das Bee

A internet que eu quero é uma que dê conta da diversidade geográfica, sexual, cultural e socioeconômica, já que essas são marcas características do Brasil (e dá pra dizer que da raça humana também, né?). Uma internet que consiga retratar e contemplar a diversidade dos 200 milhões de brasileiros (de acordo com o censo de 2010, do IBGE) é uma utopia, mas não deixa de ser uma obrigação.

Nossa estrutura comunicacional é problemática: o monopólio da mídia de massa é antigo conhecido do brasileiro e a internet tem feito um trabalho de resistência ótimo nesse sentido, porque tirou da mão das organizações Globo o poder único de formar opiniões. Não se engaveta tão facilmente qualquer assunto, é bem mais difícil omitir informações. O problema é que a internet só chega para a metade da nossa população. E a televisão segue formando a cabeça da outra metade.

A internet alterou a nossa forma de comunicar, e o mercado teve que acompanhar. A parte interessante é que a produção difusa do conteúdo expõe um panorama mais complexo de comunicação, porque não é produzido por uma única organização. O conteúdo é produzido por pessoas de diferentes origens, realidades geográficas e socioeconômicas (apesar da incidência da classe média ser a maior entre os produtores de conteúdo, já que é preciso ter alguma condição de se manter para produzir seu próprio material, ou seja, segue reproduzindo uma estrutura de classe de outra forma).

Uma vez que não foi e é tão fácil normativizar linguagem, ideias, estética, a internet propicia o impossível dentro da mídia de massa: que algumas vozes dissonantes apareçam e formem opinião. E por consequência eduque o mercado e abra uma nova frente de mudança social. A internet carregou alguns vícios e estruturas: ela ainda repete a forma e o conteúdo de ideias que já não cabem na nossa sociedade: temos esse mar de blogueiras de maquiagem que chegam a falar parecido, incessantemente reforçando esses padrões de feminilidade ultrapassados; esse mundo das blogueiras de maternidade que segue perpetuando um oceano de cagação de regra pra cima do mundo da maternidade real; esses vloggers de vídeogame que deram outra dimensão pra misoginia escondida no mundo nerd.

Mas ela também possibilitou que o Canal das Bee nascesse e crescesse; que vloggers como a Lorelay Fox (no qual uma drag queen colabora com a educação para a diversidade sexual) ganhassem visibilidade; que um canal dirigido por uma mulher transsexual, a Amanda, brilhasse no seu canal "Mandy Candy" no YT e ajudasse a quebrar uma série de estereótipos construído com anos de muita transfobia, que matam seu segmento da população todos os dias.

Eu quero uma internet mais criativa; quero a internet como uma fonte real alternativa de informação e formação de opiniões frente à mídia de massa. Principalmente, quero uma internet que reproduza as vozes que seguem silenciadas por aí. Quanto mais rica a internet for, mais próxima de representar a nossa sociedade, com fidelidade, ela estará.

Quem já passou por aqui:

Bia Granja, do YouPix Hub

Michell Zappa, da Envisioning

Dani Arrais4 Comments