A internet que a gente quer: André Czarnobai, o Cardoso

cardoso3 Quem aí é da época do CardosOnline? O fanzine existiu entre 1998 e 2001, consistia em dois emails semanais enviados para os assinantes (chegando a atingir 3.000 pessoas em uma época que a internet engatinhava) e reunia contos, ensaios, poesia, textos, comentários sobre música, festa e o que mais desse vontade. Ajudou a criar um estilo de escrever na internet que depois se espalhou por blogs, pelo jornalismo cultural. E ainda foi o primeiro espaço para nomes que se tornaram expoentes da literatura brasileira, como Clara Averbuck, Daniel Galera e Daniel Pellizzari.

O COL foi criado em 1998 por estudantes da UFRGS durante uma greve que paralisou várias universidades do Brasil. Para espantar o tédio, André Czarnobai, o Cardoso, resolveu enviar um email para uns amigos, contando causos. Foi Daniel Galera quem sugeriu que aqueles emails se tornassem um fanzine online, só com texto, sem imagem, já que na época a internet era discada, e carregar cada linha de informação demorava um tanto (que muitos de vocês nem imaginam)...

Lembro demais como a chegada do COL era aquele momento da semana em que novos mundos se abriam. Não existiam Orkut, Facebook, Twitter, Instagram. A internet era outra, o volume de informação, também. E ver um grupo de jovens escrevendo sobre qualquer coisa, com bastante egotrip (o que gerava uma sensação de aproximação, talvez parecida com a que os youtubers despertam hoje em certos públicos), dividindo suas referências em música, literatura e tudo mais era foda. Eu era muito fã.

Por isso é uma alegria ter o Cardoso nesta série - e ele resume sua trajetória: "Nasci em Porto Alegre em 1979 e vivo em São Paulo desde 2012. Criei, com o Daniel Galera, o fanzine por e-mail CardosOnline, no qual também escreviam Daniel Pellizzari e Clarah Averbuck. Fui consultor criativo da agência Box1824 e da produtora RT Features. Colaborei com jornais como Zero Hora e Folha de São Paulo e revistas como Piauí e Trip. Escrevi roteiros para Multishow, GNT, MTV, RBS/TV e Rede Globo. Publiquei o livro Cavernas & Concubinas e traduzo para a Companhia das Letras."

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#ainternetqueagentequer por André Czarnobai, o Cardoso

Já escrevi muito textão, muito antes de existir Facebook - e, curiosamente, desde que surgiu o Facebook, nunca mais escrevi textão. Talvez porque eu tenha ficado mais velho, talvez porque use muito mais o Twitter, talvez porque o excesso de ruído dá cada vez mais a impressão de que todo mundo já está dizendo as mesmas coisas que eu diria - inclusive muitas vezes bem melhor do que eu diria.

Então estou curtindo uma fase bem sucinta.

De modo que serei (o mais) sucinto (possível) para falar da minha internet ideal, que é simplesmente LIVRE.

No sentido mais amplo da palavra.

Num momento em que a maioria optou por bloquear amigos em redes sociais para não ter contato com suas diferenças e algoritmos complexos se oferecem para escolher o que eu devo fazer, pensar ou com quem eu devo ou não me relacionar, decidi nadar na contramão. Em vez de eliminar quem pensa diferente, mantive todos os meus contatos e passei a acompanhar com mais atenção quem representa o meu oposto. E isso por um motivo apenas: porque acredito em liberdade na circulação de ideias. Total e irrestrita. Mesmo que me ofenda.

Vejo um problema muito grave nas pessoas se fechando em seus castelos, que é o seguinte: ignorar um problema não faz com que ele desapareça. A única coisa que acontece é que você limita sua visão. Se você começa a viver num mundo em que todos às suas voltas tem a mesma opinião, fica cada vez mais fácil se chocar quando uma opinião destoante aparece com força do outro lado. E cada vez mais fácil não entender o mundo em que você está inserido, junto com todas essas pessoas que pensam igual, mas também todas aquelas outras que pensam diferentes. Eu penso que: é direito de todo mundo pensar o que quiser, e se expressar como bem entender. E também acho que é dever de todos respeitar as diferenças.

O mundo não é preto e branco. O mundo e formado por todos os tons do espectro entre uma ponta e outra. Acho muito triste esse movimento global de resgate do maniqueísmo, que pode ser verificado nas numerosas eleições divididas, nas vitórias por margens apertadas, sempre numa fronteira muito próxima dos 50%. Não existe mais o meio termo, ou você é a favor ou você é contra. E isso é muito ruim. Muito pobre. E é isso que mais me incomoda na forma como a internet funciona hoje - ou, pelo menos, a forma como uma grande parcela das pessoas decidiu utilizá-la.

Agora, claro: exercer essa democracia toda na prática não é uma tarefa fácil. Quando comecei a fazer isso eu não imaginava o impacto que teria na minha vida ficar lendo diariamente argumentos contra oferecer abrigo a refugiados, ou descriminalização do aborto ou do uso recreativo de maconha, ou do casamento gay - entre inúmeros outros assuntos. Confesso que muitas vezes tenho vontade, sim, de bloquear uma pessoa, ou parar de ler o que ela escreve. Mas aí eu sempre penso que isso fere profundamente a minha crença. Para existir um debate é preciso haver contraponto. Eu preciso conhecer o outro lado se eu quero combatê-lo. Preciso entender como é que pensa quem pensa diferente. E eles, os diferentes, também precisam me entender. Me ver. Me ouvir. Saber que eu existo, que eu estou aqui, sou uma pessoa também.

O grande exercício é se colocar no lugar do outro. É ver que tem uma outra pessoa ali e que, para ela, o diferente sou eu. Então, a minha cruzada nos últimos anos tem sido essa: ouvir, compreender e aprender. E, claro: falar, argumentar e ensinar também.

Nessa altura da minha vida, vivendo o que vivi, convivendo com quem convivi, estou convencido de que este é o caminho mais correto a seguir.

Mas, ao mesmo tempo, também estou totalmente aberto a ouvir argumentos contrários, que podem, inclusive, me fazer mudar de opinião.

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