A internet que a gente quer: Ana Paula Freitas, jornalista/Nexo

ana2 Ana Paula Freitas é uma jornalista clássica, dessas que fareja notícia, que vai atrás de histórias e faz de tudo para contá-las da melhor maneira possível. Adoro acompanhar o trabalho dela, que atualmente está no Nexo - veículo que a gente curte bastante e sobre o qual falamos no post O jornalismo para além da crise.

Um dos momentos mais marcantes da carreira dela foi quando fez a reportagem Nerds e machismo: por que mulheres não são bem vindas nos fóruns e chans e acabou recebendo ameaças horrorosas. "Nas últimas semanas, tenho recebido uma série de pacotes pelo correio, de todos os tamanhos e formas, vindos de todo tipo de destinatário, de grandes lojas a vendedores do Mercado Livre. Dentro deles, vêm brinquedos eróticos, esterco, vermes de mosca, livros para emagrecer, camisetas com montagens feitas a partir de fotos minhas, materiais de construção mais um monte de outras coisas que eu nem sei, já que durante um tempo resolvi recusá-los. Queria que essa fosse uma história engraçada sobre estarem me confundindo com alguém, mas eles eram pra mim, mesmo, ainda que eu não tenha comprado nada daquilo. Esses pacotes estão sendo enviados pro meu endereço porque eu escrevi esse texto, sobre machismo e misoginia em espaços na web dedicados à discussão de cultura pop", escreveu no texto Mensagens diziam que o objetivo era não parar até que eu cometesse suicídio.

Abaixo, ela faz uma reflexão importante sobre a internet que quer.

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#ainternetqueagentequer por Ana Paula Freitas

A internet que eu quero, na verdade, é um reflexo do mundo que eu quero. E eu acho que isso vale pra qualquer pessoa, de certa forma: refletir sobre o que esperamos da sociedade digital (isso existe?) fica mais fácil se você sabe exatamente o mundo em que gostaria de viver. É uma reflexão política, como muitas que a gente precisa fazer no cotidiano e não se dá conta.

Dito isso, o mundo (e a internet) que eu quero é um lugar livre para que mulheres possam ocupá-lo sem serem assediadas ou ameaçadas por isso. Na internet e fora dela, mulheres são as maiores vítimas de violência de gênero. Na internet, aliás, basta que uma mulher tenha opinião sobre algo para que ela seja atacada.

É um mundo com menos espaços de comentários anônimos em notícias. Eu sou da opinião que campos de comentários anônimos se tornaram o maior reduto de discurso de ódio a céu aberto na internet. Há muitos lugares na rede em que o anonimato pode e deve ser garantido; campos de comentários em sites de notícias não são um deles, na minha opinião. As pessoas precisam se responsabilizar pelo que dizem nesses espaços.

A internet que eu gostaria de usar ainda é cheia de memes e de zueira, mas tem menos linchamento e perseguições arbitrárias àqueles que cometem erros. Eu vejo o benefício da vergonha pública em muitos casos, especialmente naqueles que envolvem figuras de interesse público que falam merda, que ajudam a perpetrar preconceitos. Mas gostaria de um espaço mais seguro para que as pessoas comuns possam cometer erros - e que os erros sejam sim observados e punidos socialmente, mas não de maneira desproporcional.

O que você faz para contribuir com isso?

Como produtora de conteúdo e mulher, eu considero que me expôr - opinar de maneira aberta, dar a cara à tapa em vídeos e textos - é uma maneira de ocupar o espaço digital e contribuir, de alguma forma, pra enriquecer a representatividade feminina na rede. É claro que isso é uma consequência direta do meu trabalho, e não a motivação principal dele, mas eu espero que de alguma forma contribua para, lentamente e tijolo por tijolo, fazer com que a internet seja um espaço mais seguro pra todas as mulheres.

Não é nada muito significativo, mas eu tento evitar publicações que simplesmente mostrem pros outros como a minha vida é boa. A minha vida é ótima, no geral, embora tenha problemas pontuais - alguns maiores, outros menores. Não é diferente da vida de muita gente. Mas exibições despropositadas de sucesso e demonstrações de status não servem pra nada além de inflar o meu ego e gerar ansiedade nos outros. Não tem nada de Gandhi em mim e eu acabo incorrendo no erro o tempo todo, mas tento - às vezes, pelo menos - identificar esse tipo de comportamento e evitá-lo quando possível.

Além disso, faz parte das minhas convicções não incitar o ódio contra qualquer grupo em nenhum contexto na rede - e, nas minhas reportagens, persigo o equilíbrio de uma maneira obsessiva. Não só porque essa é minha função como jornalista, mas porque não posso e não quero produzir conteúdo que dê ferramentas a pessoas que queiram perseguir alguém. Preservo nomes, perfis de usuários e fotos sempre que possível.

Defendo a liberdade de expressão absoluta - o direito de todo mundo de dizer o que pensa, desde que isso não signifique cercear o direito dos outros. E bato recorrentemente nessa tecla. Não é nada além da minha obrigação como produtora de conteúdo - e pode ter um impacto muito pequeno no todo -, mas gosto de pensar que é uma maneira de transformar a internet naquilo que eu gostaria que ela fosse: um espaço mais seguro, saudável e confortável pra todo mundo.

É o que ela é pra mim na maioria do tempo, ao contrário de um lugar que as pessoas reportam, frequentemente, como sendo fonte de angústia, ódio e ansiedade. A bolha pode ser ruim, sim, mas se você escolher bem quem segue - e usar critérios equilibrados -, a vida pode se tornar mais fácil.

Quem já passou por aqui:

Luanda Fonseca, do No Drama Mom

Juliana Cunha, do Já Matei por Menos

Juliana Gomes, do Leia Mulheres

Rafa Cappai, da Espaçonave

Gui Poulain, do Moldando Afeto

Thaís Fabris, Larissa Vaz e Maria Guimarães, do 65/10

Carol T. Moré, do Follow the Colours

Ana Luiza Gomes, do projeto Andarilha

Patricia Abbondanza, da Dedo de Moça

Debora Baldin, do Canal das Bee

Bia Granja, do YouPix Hub

Michell Zappa, da Envisioning

Dani ArraisComment