A hora de começar a cuidar do seu dinheiro é agora

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Existe vida financeira antes e depois da Denise Damiani. Foi em um curso há dois anos que tivemos o privilégio de conhecer essa consultora financeira cuja trajetória nos deixou com os olhos brilhando. Desde então, lidar com dinheiro se tornou rotina, além de aprendizado constante, daqueles que às vezes até nos dá preguiça, mas que sem dúvida nos empodera.

Denise começou a carreira como técnica em engenharia de sistemas. Empreendeu desenvolvendo os primeiros softwares de home banking no Brasil, nos anos 1980. Na sequência, passou a trabalhar em uma consultoria de gestão. Chegou a ser responsável por metade do faturamento da empresa quando descobriu que ganhava menos do que o colega em último lugar na hierarquia. Questionou o chefe e ouviu dele algo como “achei que você não se importasse”.

Virou sócia da consultoria, onde trabalhou por 13 anos. Também foi vice-presidente de estratégia de outra grande empresa. Hoje é sócia da consultoria de estratégia Bain & CO e também atua como consultora, além de abrir espaço na agenda para jovens mulheres empreendedoras - como nós aqui da Contente (obrigada, Kind, pela apresentação!). Em conjunto com o Itaú, ajudou a criar a plataforma Itaú Mulher Empreendedora, onde dá mentoria on-line para pequenas empresárias.

Acostumada a ser a única mulher em cargos de liderança na maioria das empresas por onde passou, Denise começou, em 2003, a trabalhar para diminuir o abismo entre os gêneros no mundo corporativo. Em mais de dez anos, ouviu cerca de 300 mulheres pessoalmente sobre os temas carreira, ascensão e dinheiro. Também fez grupos de trabalho e atendimentos individuais. Entre os temas, os mais recorrentes são mudança de carreira, de emprego, problemas com chefes, desespero com dívidas, inexperiência para investir, tendo pouco ou muito dinheiro.

No bate-papo, Denise conta da sua trajetória, relembra desastres financeiros de clientes milionárias, fala de sua atuação com políticas públicas e reitera a importância de todas nós começarmos a cuidar do nosso dinheiro hoje, sem adiar nem mais um dia. E aproveitamos pra adiantar: em breve ela lança um livro sobre finanças para mulheres.

A gente já conhece sua história - e sempre fica impressionada com ela. Você poderia fazer um resumo da ópera pra quem vai te conhecer por meio dessa entrevista? Quem é Denise Damiani? Como tudo começou, que caminhos você percorreu, onde está hoje?

 Sou filha de uma família com muitos homens, sempre quis ser livre e, para isso, achava que o mais importante era ter liberdade financeira. Sem dinheiro eu dependeria de pedir coisas aos outros, no caso meu pai/minha mãe, e isso me corroia, pois sabia que com o dinheiro viriam condições, que nunca eram as que eu queria. Sempre entendi tambem que dinheiro é igual a trabalho duro. Comecei cedo. Dava aulas, fazia tricô e era bem econômica. Guardava para meu sonho de estudar línguas para ser aeromoça! Estudava, lia e trabalhava. Era competente e esforçada, e as duas coisas juntas davam bom resultado. 

Por que é tão importante aprendermos a lidar com dinheiro o quanto antes?

Porque a mecânica de ganhar/guardar e investir tem que ser automatizada, como escovar os dentes, comer corretamente, fazer exercício. Ter a ambição de realizar algo é o que nos move a ir buscar a vida. Se você não tem sonho/ambição, então nem sai da cama. Eu amo a vida, queria viajar, ter coisas bacanas, mas principalmente queria ter uma casa bonita.

Existe hora certa para começar a correr atrás do prejuízo? O que podemos fazer para nos familiarizarmos melhor com o vocabulário financeiro?

A hora é agora. Não dá para ser antes, porque o passado já foi. Antes tarde do que mais tarde. E ficar se lamentando só te gasta energia e tempo sem resultados.

Historicamente não somos ensinadas a fazer isso. Quais são as implicações dessa falta de familiaridade com o assunto nas nossas vidas?

As mulheres tendem a achar que alguém vai cuidar delas: pais, maridos, depois os filhos. Então se não tenho que me preocupar, não há razões para estudar e entender do assunto. Como tudo na vida, há que se informar. E não se começa como um “gênio da lâmpada”, mas quanto mais lemos, conversamos e nos informamos, normalmente mais gostamos de um assunto - e com dinheiro é igual. Pergunte, leia revistas e blogs, converse com alguém que você acha que está fazendo bem. Mas pondere. Não há vida igual a outra, e ninguém pode tomar decisões por você melhor do que você mesma.

Quais são as histórias mais impressionantes que você já ouviu ao longo dos anos? Aquelas que podem ajudar a ligar um alerta na vida de quem acha que não tem que se preocupar com o assunto?

Uma senhora de 70 anos, herdeira que tinha sido milionária, filha de um grande industrial. Chegou para me ver sem ter o dinheiro do táxi. Vivia de favor 3 meses na casa de cada filho e não conseguia pagar nem o seguro saúde. Ganhou uma grande herança, foi roubada pelo irmão, se separou de um marido bacana para ir atrás de um traste (amor de infância), que roubou o seu dinheiro e a deixou com nome sujo e com dívidas. Como ela nunca havia trabalhado, não sabia por onde comecar. E os filhos também não estavam em boa situação. Ela começou a fazer alguns trabalhos para ganhar algum, mas não consegue se organizar para ter uma vida de grande trabalho pela idade, falta de estímulo e uma pequena depressão. As de mais idade são as que me dão mais tristeza, pois não entendem como não viram o trem chegando antes.

Conta um pouco como é sua atuação hoje em dia? Você presta consultorias para marcas, atua também na discussão de políticas públicas…

Eu fiz uma carreira como executiva de multinacional, depois de ser técnica em sistemas. Fiz consultoria, muitas startups, projetos complexos e cuidei de grandes equipes e clientes imensos. Viajei mais de 4 milhões de milhas! Depois de 35 anos nesta vida, resolvi aplicar tudo que aprendi para apoiar empresas familiares e nacionais a se desenvolverem: faço planejamento estratégico, revisão de crescimento, merger e aquisition. Também estou em quatro conselhos de administração no momento.

Me dé muita alegria poder contribuir sem ter que executar, mas orientando os executivos mais jovens que estão na linha de frente. Como retribuição a uma causa de ajudar mulheres a terem uma vida financeira mais bacana, atendo pequenas empreendedoras e pessoas físicas nos temas de crescer empresas e cuidar do seu dinheiro. E isso sempre envolve muitos temas: revisão das empresas, revisão situações de ganho/gasto/investimento e também muitas resoluções de conflitos familiares e societários.

Qual é o seu propósito de vida? Você sempre soube qual era ou foi descobrindo com o tempo? 

Olhando hoje vejo que meu interesse já existia desde muito cedo: lembro que aos 8 anos criei grande confusão em familia quando fui defender a namorada do meu primo mais velho, que na época acho que tinha 16 anos. Ele a estava tratando muito mal - a deixava em casa para sair sozinho, era grosseiro. Minha tia quase que me execrou: como podia defender uma estranha em vez de defender meu primo? Pois é, ela não me ouviu, casou com esse babaca que a destratou a vida inteira e a largou com 3 filhos depois de 20 anos de sofrimento. Eu não entendia e perguntava a ela: por que você não vai cuidar da tua vida?

O que você já conquistou até hoje? E o que pretende conquistar nos próximos anos?

Tenho uma familia linda: dois filhos incríveis, pais, irmãos, sobrinhas, cunhadas. Todos respeitosos e respeitados, com saúde. Só isso já é uma benção. Tenho uma vida como eu queria: livre. Sou dona do meu nariz. Tenho muitos amigos e amigas. Tenho um namorado que é um grande companheiro. Tenho saúde. Tenho uma vida de trabalho interessante. Tenho a reserva financeira que me permite fazer o que acho correto e ter uma vida confortável.

Agora quero fazer uma devolução mais significativa pra sociedade perto de mim. Há anos trabalho em prol de meninas mais pobres, sem condições. Mas é pouco. Quero implantar políticas públicas em educação para poder preparar melhor jovens em ciências e matemática. Para isso entrei como conselheira da ONG Worldfund. Quero ajudar meninas pobres de 13 anos a não engravidarem e, assim, poderem terminar seus estudos e ter mais chances de uma vida digna e feliz - trabalho neste projeto em comunidades de Mogi das Cruzes e quero expandir o projeto. Quero implantar políticas públicas para termos cotas para mulheres no poder (conselhos e alto escalão), pois com mais equidade de gênero a dinâmica da sociedade com certeza será melhor.

Quero viver meus filhos, família, amigos e amor com paz, harmonia e alegria. Fazer projetos de sucesso. Ganhar bom dinheiro. Viajar muito. Curtir a vida que é linda cheia de saúde e energia. Só isso :-) E quando alguém me pergunta “mas você não se cansa de falar em prol das mulheres por tanto tempo e de ver que muita gente não entende?”. E minha resposta é: “eu ganhei uma vida inteira para fazer isso!”

Dani Arrais4 Comments