A #gratidão é pop

[contente]gratidaoB A gratidão é pop e não poupa ninguém que tem Instagram. De repente a rede social foi inundada por mais de 600.000 fotos com a hashtag. Os assuntos são variados: declarações para filho, mãe, pai, avós, viagens dos sonhos, a perda de muitos quilos com o combo academia e alimentação saudável, a desejada formatura, aquela paisagem deslumbrante. Há espaço também para o nonsense, como vi esses dias: uma foto dos pés em uma sandália apertada acompanhada por uma frase de autoajuda e a famigerada hashtag.

Não é que um tsunami de #gratidão seja uma coisa ruim, só me parece exagero usar um sentimento nobre tão corriqueiramente. A internet às vezes é tão comercial de margarina que o “muito obrigado” perdeu a força, deixou se significar um agradecimento realmente especial. Temos que ser gratos - e mostrar isso para o mundo, todos os dias.

Daí tem dia em que eu canso. E fico pensando nos porquês. Em seguida, me interrompo: deixa a galera falar de gratidão, Daniela. Claro que sim, só acho meio over. Esses bodes costumam vir acompanhados de questionamentos. Quando foi mesmo que a palavra tomou a internet?

Tiago Dória, jornalista e pesquisador especializado em estratégia e inovação pelo MIT (Massachusetts Institute of Technology), arrisca um palpite. “Acredito que as pessoas estão falando tanto porque gratidão está no DNA da web. Quando Tim Berners-Lee projetou o que seria a web, ele pensou, sobretudo, em facilitar o compartilhamento. E compartilhar é uma forma de gratidão e respeitar o próximo”, diz ele em entrevista para o blog.

Outro motivo se deve ao fato de estarmos entrando numa fase de equalização, diz ele. "Durante muitos anos (anos 1960 e 1970) dinheiro e sucesso eram vistos como aspectos ruins e secundários. Vinte anos depois, tivemos o movimento contrário, no qual sucesso profissional e carreira eram vistos como os aspectos mais importantes da vida. Hoje, temos nitidamente um movimento para equalizar isso: a importância da vida pessoal e professional, do sucesso profissional, mas também da vida afetiva e emocional. Penso que o crescimento da hashtag gratidão se insere neste contexto. Estamos tentando ser mais gratos e harmonizar melhor todos os aspectos da vida. Não vejo nada de ruim nisso. Acredito que seja algo natural e emocional do ser humano”, completa.

O pesquisador fala também do “efeito rede” que atingiu a hashtag. “Quanto mais pessoas utilizam uma hashtag, maior a sua influência e a quantidade de pessoas que aderem a ela. É como uma bola de neve. Houve um aumento principalmente nos últimos meses. O interessante é que, ao verificar alguns sites de monitoramento de hashtags, percebe-se que a hashtag #gratidao alavancou outras tags, como #vida #paz e #amor. Na maioria das vezes, a hashtag é utilizada associada a outros termos.”

Fernando Fontanella, professor de comunicação social da Universidade Católica de Pernambuco e pesquisador da cultura pop na internet, acrescenta. “Recentemente, a hashtag passou a ser mais usada fora de um contexto de espiritualidade ou atitude frente à vida. Mas isso acontece com qualquer prática de uso de hashtag: aumenta em número de pessoas usando e em volume, mas perde o contexto e enfraquece o significado. Ao mesmo tempo, me parece que, em uma época em que as redes sociais estão mais conflituosas e pessimistas, com o acirramento do cenário político, por exemplo, as pessoas sentem um pouco a necessidade de expressar sentimentos mais positivos, para aliviar um pouco. Aí uma hashtag como essa ganha um novo contexto, um valor de contrapeso à negatividade trazida pelas discussões agressivas que tomaram conta das redes”, diz.

É um movimento ótimo e legítimo, mas por que ainda deixa um leve incômodo? Gosto do palpite de Fontanella pra isso. “Por ser um uso mais frívolo - que até mesmo serve como ‘fuga’ em relação a esses conflitos - não dá para evitar a impressão de que a #gratidão não vai muito além de uma performance mais exibicionista, ou uma mera intenção não realizada plenamente.”

Entre escrever gratidão e realmente senti-la e apreciá-la existe uma diferença. Tanto é que o termo remonta ao sagrado, a um sentimento religioso universal, significando mais uma busca constante e incessante do que um sentimento onipresente. Isso me faz pensar que o extraordinário, quando é banalizado, pode causar o efeito contrário, nos deixando até meio desconectados de nós, do outro, das coisas mais profundas. Então que a gente tente sempre sentir gratidão, mas sem banalizar o sentimento em um emaranhado de hashtag.

Dani Arrais2 Comments