A grande magia de trabalhar com disciplina e determinação

Tudo não passa de um instinto, um experimento, um mistério; então comece. Comece onde quer que esteja. De preferência, agora mesmo. E se a grandeza acidentalmente tropeçar em você, que ela o encontre empenhado em seu trabalho. Empenhado e mentalmente são.

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Nem em seus sonhos mais extravagantes a escritoria Elizabeth Gilbert pensaria em virar um best-seller lido por mais de 12 milhões de pessoas e adaptado para o cinema em um blockbuster estrelado por Julia Roberts. Por mais de 10 anos, a autora de “Comer, rezar e amar” acostumou-se a receber cartas de recusa aos seus textos originais. Não teve um dia, no entanto, que ela parou de trabalhar. Membro da vertente que enaltece a disciplina ante a inspiração, a norte-americana de 46 anos lançou em 2015 “Grande magia: vida criativa sem medo”, título que chegou ao mercado editorial com o peso de vir depois de um grande sucesso.

A pressão por mais um sucesso vinha do mercado, dos leitores, da crítica. Acostumada a altos e baixos, a escritora entendeu em determinado momento que não poderia associar seu ideal de felicidade ao trabalho que ama fazer. Afinal, se o seu livro fosse rechaçado pela crítica (e o New York Times fez isso, por exemplo), ela deixaria de escrever? Nem por um dia.

Em “Grande magia”, Elizabeth faz uma divisão em seis capítulos – coragem, encantamento, permissão, persistência, confiança e divindade – para falar de escrita como escolha de vida. Destrincha seu processo criativo, comenta sobre a visão de outros autores e artistas sobre seus trabalhos, aborda como os fracassos e as decepções são inevitáveis e insiste em confiar que existe algo além, essa grande magia que nos ajuda a conduzir a vida. “Percebi que o que produzimos nem sempre é necessariamente sagrado só porque acreditamos que seja. O que é de fato sagrado é o tempo que passamos trabalhando no projeto, a maneira como esse tempo amplia nossa imaginação e como essa imaginação ampliada transforma nossa vida. Quanto mais você consegue passar esse tempo com leveza, mais iluminada se torna sua existência”, diz ela.

Separei uns trechos que grifei pra dividir com vocês:

Às vezes esse encantamento acontece. Às vezes, enquanto escrevo, sinto como se estivesse em um daquelas esteiras rolantes de aeroportos; preciso percorrer um longo caminho até o portão em embarque e minha bagagem ainda está pesada, mas é como se estivesse sendo delicadamente impulsionada por uma força exterior. Há algo me carregando - algo poderoso e generoso -, e esse algo definitivamente não sou eu.

“Pare de reclamar. O mundo não tem culpa de você ter decidido ser artista. Não é o trabalho do mundo gostar dos filmes que você faz, e, sem dúvida, ele não tem nenhuma obrigação de financiar seus sonhos. Ninguém está interessado. Se precisar, roube uma câmera, mas pare de reclamar e volte ao trabalho.” [Werner Herzog]

Só posso me encarregar de produzir a obra em si. Já é um trabalho difícil o suficiente. Recuso-me a assumir tarefas adicionais, como tentar policiar o que os outros pensam a respeito de meus livros depois que deixam minha escrivainnha. “Percebi que, como compositor, a única coisa que faço, na verdade, é criar joias para enfeitar a mente dos outros.” [Tom Waits]

A primeira coisa a fazer é esquecer a perfeição. Não tempo para a perfeição. De qualquer forma, ela é inatingível: é um mito, uma armadilha, uma roda de hamster que vai fazê-lo correr até morrer. Como resumiu muito bem a escritora Rebecca Solnit: “Muitos de nós acreditam na perfeição, o que estraga todo o resto, pois o perfeito não é inimigo somente do que é bom, mas do que é realista, possível, divertido.”

A única coisa que posso dizer ao certo é que toda a minha vida foi moldada pela decisão que tomei muito cedo de rejeitar o culto do martírio artístico e depositar minha confiança na ideia louca de que meu trabalho me ama tanto quanto eu o amo, de que quer se divertir comigo tanto quanto quero me divertir com ele, e de que essa fonte de amor e diversão é ilimitada. Escolhi acreditar que havia um desejo de ser criativa codificado em meu DNA por razões que nunca conhecerei e que a criatividade não me abandonará, a não ser que eu a afaste à força ou a mate por envenenamento. Cada molécula do meu ser sempre me impulsionou na direção desta área de atuação: a da linguagem, da narrativa, da pesquisa. Concluí que se o destino não quisesse que eu fosse escritora, não deveria ter feito de mim uma escritora. Mas fez, e decidi ir ao encontro desse destino com o máximo de ânimo e o mínino de drama possível, pois a maneira como escolho me comportar como escritora só cabe a mim. Posso fazer de minha criatividade um campo de extermínio ou um interessante gabinete de curiosidades. Posso fazer dela até um ato de oração. Minha escolha, então, é basicamente sempre encarar meu trabalho com uma atitude de felicidade obstinada.

Às vezes acho que a diferença entre uma vida criativa atormentada e uma vida criativa tranquila não passa da diferença entre a palavra horrível e a palavra interessante. Afinal de contas, resultados interessantes são apenas resultados horríveis com volume de drama drasticamente reduzido.

Dani Arrais2 Comments