Algumas respostas sobre a dimensão da crise

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Olha, esse ano vai ser complicado. Se 2015 já foi difícil, 2016 vai ser pior. Aquele mar de lama de Mariana foi a prova literal de que o país está atolado. Pior do que tá, fica. Frases como essas viraram lugar comum na boca de muita gente. Ao abrirmos os grandes portais de notícia, lemos matérias que endossam o discurso das ruas. O desemprego aumentou, a tarifa de ônibus também - a repressão policial, por sua vez, atingiu níveis criminosos (e isso nem sempre é noticiado assim).

Disso tudo a gente já sabe, e centenas de notícias fazem questão de reafirmar os problemas diariamente. Não é a primeira nem será a última vez que um país passa por um momento de crise. 2009, com o estouro da bolha imobiliária norte-americana que se alastrou como vírus pelo resto do mundo, foi ontem. O que dá pra aprender daquela crise ou da atual? O que podemos fazer para não deixar o discurso da escassez contaminar nossa vida, nossas relações, nosso trabalho?

Conversei com o economista Marcelo Carvalho para encontrar algumas pistas. Ele é doutor em economia pelo IE-UNICAMP. Atualmente é professor da EPPEN (Escola Paulista de Política, Economia e Negócios) e da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo).

- Qual é a dimensão real dessa crise?

Trata-se da maior crise econômica desde aquela de 1929. Felizmente, não chega a ser tão grave quanto aquela justamente porque não é primeira de sua escala e natureza. Aliás, foi por causa da crise de 1929 que foi concebida aquela parte da economia que hoje chamamos de macroeconomia, o estudo dos eventos econômicos em escala agregada, com as obras fundantes do polonês Michal Kalecki e do britânico John Maynard Keynes. Assim sendo, hoje nós temos - pelo menos - teorias que podem dar cabo de explicar o que está ocorrendo e, a partir disso, apresentar propostas de superação desta situação socialmente indesejável.

Trata-se de um fenômeno planetário, tanto por conta da desregulamentação financeira que avança forte desde a década de 1980, quanto pelo grau de internacionalização das próprias finanças e da produção. Em um mundo onde os elos econômicos entre os espaços nacionais são cada vez mais relevantes, os impactos de uma crise também o serão. É certo que há também determinantes locais para a atual crise, mas eles certamente teriam efeitos muito menores se a conjuntura externa fosse outra. Prova disso foi a expressiva capacidade de reação da economia brasileira ao primeiro momento dessa mesma crise: apesar da leve queda do PIB em 2009 (-0,13%), houve uma importante recuperação no ano seguinte (+7,53%).

Não nos enganemos, porém: sair da atual crise envolveria uma mudança drástica nas políticas macroeconômicas atualmente em uso no Brasil, quase sem alterações relevantes desde 1999: câmbio flutuantes, metas de superávit primário para as contas públicas (em nível federal) e regime de metas de inflação. Na vigência desse "tripé" (respectivamente, para as políticas cambial, fiscal e monetária), não haverá qualquer saída efetiva.

- O que podemos aprender com crises anteriores, tanto as recentes quanto as históricas?

Crises anteriores nos mostram o quanto é fundamental contar com rigorosos instrumentos de regulação do setor financeiro, especialmente no tocante ao processo de fornecimento de crédito. Um famoso documentário, ganhador de Oscar em 2011, dá conta de registrar como o processo de desregulamentação das finanças nos EUA permitiu que fosse lançadas as raízes da atual crise; o documentário "Inside Job" ("Trabalho Interno"). Ali é feita uma boa descrição de como o processo de concessão de crédito pro fora do sistema bancário tradicional deu vida aos famosos derivativos, posteriormente identificados como "armas de destruição em massa", dado o seu poder de colocar em risco todo o sistema econômico - produção, renda e emprego. Vem à mente a obra de um dos seguidores de Keynes, Hyman Minsky, e sua descrição do potencial devastador do crédito abandonado às suas próprias tendências.

É também de Minsky a ideia de que o Banco Central (BACEN) e as despesas efetuadas pelo governo central podem atuar como "defesas" (ou amortecedores) para as situações de crise: o BACEN, como emprestador de última instância, tem os instrumentos para efetuar o resgate das instituições financeiras em situação de iliquidez, já que é ele a autoridade monetária máxima (e emissor de moeda, sem limites quantitativos). Por seu turno, as despesas do governo federal (que contaria também com os créditos de seu BACEN) permitiriam retomar o circuito do gasto como gerador de renda, estimulando as atividades econômicas rumo à saída da recessão.

É claro, nada disso segue as linhas colocadas pelo nosso "tripé" de gestão macroeconômica. Mas vale a pena citar o fato de que as obras de Minsky estiveram esgotadas nas livrarias por mais de uma década, mas ganharam novas edições depois de 2008. Curioso, não? Apesar desse aprendizado, é também curioso notar que não foram colocados de volta os aparatos regulatórios (montados após 1929 e removidos entre as décadas de 1980 e 1990) do sistema financeiro dos EUA. Ninguém foi pessoalmente responsabilizado por nenhum ato ilícito e nem foram cobrados (mesmo que parcialmente) os recursos usados para o resgate do sistema financeiro privado. Com isso, aprendemos que muitas questões cruciais em Economia não são técnicas: são políticas, e se relacionam com os interesses estabelecidos.

Dá pra crescer oferecendo novos serviços? Aquele papo de que a crise também é um momento de novas oportunidades.

Há quem diga que certos "nichos" de negócios podem se dar bem em ambientes de crise econômica. De fato, os segmentos de mais alta renda não costumam mudar seus hábitos de consumo durante esse tipo de circunstância, especialmente porque dependem muito pouco de sua renda corrente: têm o patrimônio como fator mais relevante - além de derivar parte (ou a totalidade) de seus ganhos de operações financeiras, as quais estão sendo fortemente estimuladas pelas nossas taxas de juros, absurdamente altas em uma comparação internacional. Fora isso, há também as conhecidas iniciativas que se relacionam à redução de custos de operação e de produção; assim sendo, serviços de racionalização de processos e de aumento de eficiência tendem a ser muito procurados nesses momentos.

- O que devemos fazer para não quebrar? Se quebrarmos, quais medidas podem ser tomadas para aliviar o estrago?

É bem verdade que muito do que afeta o ambiente de negócios em que atuam individualmente as empresas não depende delas próprias: as determinações fundamentais são macroeconômicas; logo, dependem de iniciativas dos responsáveis pela condução da política econômica e dos responsáveis por grandes grupos empresariais que, muitas vezes, têm seus núcleos de decisão localizados fora do país. Isso é especialmente válido no caso dos fluxos de capitais (entrada e saída de moeda estrangeira), os quais podem limitar fortemente a margem de manobra do governo e das empresas locais.

No nível microeconômico (das empresas e dos consumidores, tomados individualmente ou por segmento), evitar o endividamento e enxugar custos são as estratégias mais conhecidas para este tipo de conjuntura. É claro que, no agregado (nível macroeconômico), os efeitos desse tipo de estratégia são desfavoráveis, já que as receitas de uns dependem dos gastos de outros... Com o câmbio fortemente desvalorizado, muitas empresas têm dedicado especial atenção às possibilidades oferecidas pelos mercados externos; exportar, num momento em que cada dólar é trocado por maior quantidade de reais no mercado cambial local, costuma ser um forte atrativo.

Dani Arrais2 Comments