Adeus, referências em comum

A multiplicidade da internet e como a gente vai se perder nas referências pop das próximas gerações

Uma conversa no hangouts com colegas de trabalho chegou ao assunto das novelas mexicanas e venezuelanas: quem atendia o telefone na hora da atração e não falava alô, falava “A Usurpadora”? Muita gente se identificou. Tivessem nascido um pouquinho depois e teríamos que explicar o assunto. Temos que explicar para você, que nos lê?

Aproveite os memes e as piadas internas, pois as chances de sermos a última geração que teve as mesmas referências de cultura popular é grande. Todo mundo (na casa dos 30 anos) sabe quem é a Gisele Bündchen, quem é o Faustão. Todo mundo reconhece uma música da Xuxa, uma fala do Chaves, a imagem do Pica Pau e do Rei Leão.

Mas a internet veio para segmentar mais os nossos gostos. Com tantos canais, possibilidades e nichos é possível que um sucesso como os Beatles fizeram nunca mais se repita.

Quem será o guru dos seus filhos?

Os mais jovens não assistem mais televisão, não lêem as mesmas revistas que seus pais. O jeito de consumir informação mudou. Agora a rede será feita de pequenos grandes sucessos, e muito provavelmente a gente não vai nem entender quando um grupo falar de seu guru muito reconhecido, com milhões de seguidores, mas que de alguma forma não pareceu interessante para os nossos algoritmos ou sequer está nas mesmas redes sociais que preferimos.

As gravadoras, grandes responsáveis pelo sucesso dos artistas até o início dos anos 2000, já sentiram isso. Tanto é que, na Europa, fazem parte do lobby que tenta fazer passar uma lei que pode simplesmente inviabilizar o Youtube por lá por conta de direitos autorais.

O Youtube, como você sabe, revelou pro mundo uma série de artistas que antes não teriam a menor chance sem uma gravadora ou um espaço na televisão. Agora, com uma ideia na cabeça e uma webcam, já conseguem produzir e lançar sua arte e suas ideias pro mundo todo (inclusive em super produções), atraindo seguidores e criando seus clãs que muitas vezes surpreendem quem não segue o mesmo nicho.

Este caminho, cada vez mais segmentado, vai se bifurcando, e a gente não vê muita volta. Bia Granja, idealizadora do Youpix, falou sobre isso recentemente numa conversa com a Rafa Cappai. As pessoas não procuram mais ídolos para colocarem em pedestais. Elas querem encontrar gente parecida com elas, querem identificação, querem conversar, querem troca e aprendizado.

Não só o mundo das celebridades ficará muito mais múltiplo (e com menos celebridades), como também as redes e plataformas serão muito mais diversas. É provável que você e sua tia não frequentem a mesma rede social por diferentes afinidades.

E neste espaço dividido e multiplicado ao mesmo tempo, talvez não exista mais demanda para as grandes celebridades no futuro. A fama será mais pulverizada. Teremos artistas e influencers bem mais de perto, ainda que muito distantes. Quiçá de lugares improváveis. Vamos conhecer e acessar o trabalho de alguém que nasceu na Tanzânia e construiu carreira na música. Imagine quantos Freddie Mercurys poderão surgir na sua timeline!

E como fica a comunicação?

Toda essa transformação tem dois lados. Gostamos de ver o lado bom e positivo do que é múltiplo e democrático, mas enxergamos também os seus bemóis. Como o próprio título diz, não teremos uma referência comum com uma grande parcela da população. Como ficará a comunicação com quem é diferente? "Ora, ninguém precisa ter a mesma referência pop para conseguir se comunicar", você pode dizer. E, de fato, não precisa, mas perder esses pontos de proximidade podem comprometer exatamente uma necessária aproximação entre diferentes.

Sem a grande mídia para ditar as regras, caberá também ao público definir o que é bom e ruim, certo e errado neste espaço. E, sendo assim, convidamos você a ler nosso texto sobre as fake news e o papel da sociedade neste controle. O risco de nos perdermos ou termos muitos amigos perdidos em oceanos de mentiras é alto. "Check news" e "desconfie" são palavras que já deveriam ter virado placas das ruas uma hora destas.

O caminho é sem volta e a gente volta a falar que tem um lado bom. Se todo mundo tiver a chance de divulgar seu trabalho, encontrar outros trabalhos diferentes e se identificar com nichos alternativos, as perspectivas apontam para mais qualidade, mais diversidade e menos histeria. É um ponto positivo pra compensar que ficaremos um pouco perdidos neste mar de opções de talentos, assuntos e plataformas. Ainda pode ser #ainternetqueagentequer !

E você, já percebeu esse andamento da internet? Você conhece os ídolos dos seus sobrinhos? Conta pra gente suas histórias com essa que a gente vem observando ou com essa #internetqueagentequer .


Diorela Kelles