O acesso à internet, a prova do ENEM e algumas reflexões

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Quando falamos de internet temos a impressão de estar entre iguais. A internet é democrática e oferece praticamente as mesmas oportunidades boas e ruins para quem está nela. Falamos da internet porque temos acesso a ela.  Um acesso que ainda é privilégio.

Três em cada dez casas brasileiras não possuem internet. Segundo dados das Nações Unidas, em 2016, mais da metade das pessoas do mundo ainda eram privadas de uma vida conectada.

Uma pesquisa do IBGE, também no ano de 2016, indicou que entre os jovens de até 24 anos, o acesso à internet é de 85%. Esse e mais alguns dados sobre a conectividade dos brasileiros estavam nas instruções para a prova do ENEM de 2018. As instruções culminavam no pedido para escrever um texto dissertativo-argumentativo sobre a “manipulação do comportamento do usuário pelo controle de dados na internet” apresentando proposta de intervenção que respeite os direitos humanos.

Intervenção que respeite os direitos humanos. Achamos interessante essa proposta porque a primeira coisa que a gente pensa quando lê ou escuta a palavra intervenção é justamente “proibição, prisões, militarismo”.

Como intervir na manipulação do comportamento do usuário da internet sem desrespeitar o ser humano? E ainda: como falar sobre isso se você fizer parte das estatísticas de pessoas que estão alheias à internet?

Uma consideração: a manipulação do comportamento não começou com a internet. Ao longo da história, sempre houve manipulação (individual ou de massa ou) de quem tinha mais poder em algum nível. Isso inclui as mídias tradicionais, mas não somente. Elas são apenas um veículo (para desinformar ou informar quando é o caso). Com a internet, a prática apenas atingiu números maiores, pelo sua capacidade de compartilhamento. Além disso, essa manipulação passa a ter resultados melhores com o auxílio da tecnologia, do cruzamento de dados e das análises psicológicas.

Então podemos dizer que a mesma tecnologia que corrompe pode ser a tecnologia que corrige. Arriscamos a pensar que a próxima grande atualização do algoritmo do Google será para detectar as fake news com pente fino. Ou seja, aquela mentira que realmente parece verdade, ou aquela informação falsa, que ainda que falsa, é reafirmada inúmeras vezes em diversos sites, inclusive com mais autoridade. Como a tecnologia vai conseguir fazer isso? Essa é nossa grande dúvida, porque até hoje só conhecemos humanos que o fazem quase artesanalmente (veja nosso texto sobre fake news).

Mas voltando ao assunto do acesso à internet. Uma pessoa que não tem essa prática, que não sabe ao certo como se usa internet, teria muita dificuldade de fazer essa redação, concorda?

Não é com essa pessoa que estamos falando agora, evidentemente, mas é por ela que queremos falar.

Porque o nosso interesse de ajudar a formar #ainternetqueagentequer também passa por envolver quem ainda não pode ou não se interessou em ter internet. Sim, porque na mesma pesquisa que detectou a desconexão de 30% dos Brasileiros, detectou-se que nas regiões sul e sudeste do Brasil, o índice de descaso com a internet é de 40%.

E aqui temos dois pontos: se a internet continuar com as práticas de desinformação, o descaso pode ficar ainda maior e isso feriria principalmente quem está fazendo um trabalho sério e honesto.

E o outro ponto é: até onde é elitista falar de internet num exame nacional unificado que propõe estabelecer critérios igualitários para o acesso à universidade pública?

Se é fundamental entender e saber sobre as questões da internet, que hoje podem interferir em questões mundiais como eleições e decisões de tratados, é fundamental olhar para o seu acesso como um direito de todos. Um direito humano, como temos aprendido.

Fontes de pesquisa:

Apesar da expansão acesso a internet no Brasil ainda é baixo

10 fatos importantes sobre o uso de internet no Brasil

Nações Unidas: Mais da metade da população mundial ainda não tem acesso à internet

Redação do Enem 2018 tem como tema manipulação do comportamento do usuário pelo controle de dados na internet

Diorela Kelles