#conversascontentes: Fê Neute, do Fê-liz com a vida

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A Fê Neute é um desses encontros que #ainternetqueagentequer nos proporcionou. Em 2015, ela era nômade digital, e nós a entrevistamos:

Sem glamour: como é o dia a dia de uma nômade digital?

De lá pra cá, ela fincou os pés em Nova York e começou a usar o Instagram e o YouTube como plataformas para se comunicar. E faz isso com uma dedicação e uma entrega surpreendentes. Admiramos essa construção e vamos aprendendo junto com ela nos stories e nos vídeos.

Conversamos em um longo papo em que ela fala sobre como passou muito tempo com medo do julgamento alheio, o que fez para destravar, o que deseja entregar como produtora de conteúdo e, claro, como enxerga a internet hoje.

Para acompanhá-la: @feneute + Fê-liz com a vida

[CONTENTE] Fe, tenho achado muito legal esse seu movimento de se entender como blogueira e youtuber. Conta um pouco do que te travou no processo e como você conseguiu assumir pra você mesma que é isso que você quer fazer?

[FN] Eu era publicitária e tive a sorte de trabalhar com pessoas incríveis e muito inteligentes durante a minha carreira, mas, infelizmente, o meio publicitário pode ser muito preconceituoso.

Também demorou muito tempo para que o mercado entendesse que a internet não era o primo pobre da televisão, tanto em relação às verbas, como também ao alcance a à importância dessas novas plataformas de comunicação.

Nos bastidores, eu via muito julgamento e acabava julgando também. Blogueiras muitas vezes não eram levadas a sério e como muitas começaram a fazer sucesso com assuntos como moda e beleza também eram vistas como fúteis.

Como no início a internet era uma terra de ninguém, eu também via muita gente fazendo publi velado e outras coisas que fizeram com que as pessoas de forma geral (eu me incluo nessa) tivessem um olhar negativo sobre a profissão.

Sem que eu me desse conta, isso acabou me afetando e hoje eu vejo que foi uma das coisas que mais me travou e me fez ter vergonha de assumir publicamente quem eu queria ser de verdade por muito tempo.

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[CONTENTE] Que mundo de possibilidades se abriu depois disso?

[FN] Foi libertador! É horrível o sentimento de saber que você tem um talento, que o que você tem a dizer pode inspirar e acrescentar algo na vida das pessoas, mas se sentir sufocada com medo do julgamento.

Uma vez que eu me libertei do medo de ser julgada eu me senti muito mais motivada a trabalhar e a fazer as coisas acontecerem, a ter ideias para monetizar e a buscar parcerias que eu realmente acredito que possam ser bacanas não só para mim, mas para quem me segue também.

Passei a encarar esse trabalho como qualquer outro e a usar a minha experiência de mais de 15 anos e conhecimento sobre o mercado ao meu favor e não contra mim, como fazia no começo.

[CONTENTE] O que você tem a dizer para quem está do outro lado da tela e vive momentos de incerteza, de autosabotagem, de achar que não tem o que falar para o mundo?

[FN] A primeira coisa é parar e se perguntar de onde vem esse medo, essa incerteza. Ir buscar lá no fundo mesmo. Muitas vezes eles vêm dos nossos próprios julgamentos. Eu julguei muitas blogueiras no passado e acabava projetando esse meu julgamento em mim mesma.

A segunda coisa é ser fiel à sua verdade. Muitas vezes a gente sente que o que temos a dizer já está sendo dito por meio mundo ou que já perdemos o bonde da internet e hoje em dia não tem mais espaço. Nessas horas eu penso que a minha experiência é única e que ninguém vai poder dizer aquilo da forma que eu digo, mesmo que não seja uma ideia nova.

As pessoas se conectam com as pessoas e as histórias que elas mais se identificam e cada um vai ser inspirador do seu jeito.

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[CONTENTE] Você comentou em uns stories que blogueira e youtuber é sua profissão, mas que isso ainda não te sustenta. Conta como você se planejou pra isso e como traçou um plano para ver a profissão render daqui a um tempo também?

[FN] Eu ganhava muito bem como publicitária e depois que perdi meu pai 10 anos atrás eu passei a ser muito organizada com o meu dinheiro. Quando pedi demissão eu tinha uma boa reserva financeira investida, ou seja, rendendo e também um FGTS bem alto que eu receberia depois de 3 anos sem trabalhar com registro em carteira.

Com isso em mente eu fiz um plano. Adotar o estilo de vida minimalista e mudar do Brasil para viver como nômade foi parte desse plano, já que eu morei em lugares muito mais baratos do que São Paulo e passei 3 anos sem comprar nada, vivendo apenas com uma mala de 23 Kg.

A outra parte desse plano foi trabalhar como freelancer durante esse tempo em que eu ainda não tinha certeza do que eu faria com a minha carreira. Dentro de mim eu sabia que queria viver da produção de conteúdo, mas ainda não sabia como monetizar isso e tinha todo o lance da autosabotagem também.

Durante esse tempo, eu ganhava dinheiro com os frilas e se precisasse, completava com o que ganhava com os meus rendimentos.

Só que o plano acabou não saindo como eu imaginava. Eu cansei de não ter uma casa e mais ainda de trabalhar como freelancer. Continuava fazendo coisas que não acreditava e que estavam me impedindo de fazer o que eu sentia que era minha verdadeira vocação!

Pelo fato do meu marido ser americano, mudamos permanentemente para NY e foi quando eu decidi que era a hora de parar para pensar no que eu realmente queria fazer e enfrentar todos esses medos.

Fiquei um ano totalmente perdida e sem saber o que fazer. Pela primeira vez na vida senti me senti deprimida, sem motivação e isso começou a me preocupar ainda mais. Até que em janeiro desse ano eu  fui para o Brasil e decidi fazer um encontro com os meus seguidores. Mais de 40 pessoas apareceram e cada uma delas tinha algo maravilhoso para me dizer sobre o meu trabalho e como eu mudei a vida delas de alguma forma.

Foi um daqueles momentos divisores de água, sabe? Eu percebi que ao não investir toda a minha energia nisso eu não estava sabotando só a mim mesma, mas também todas as pessoas que eu estava deixando de ajudar não expondo pro mundo as ideias que eu guardava só pra mim. A motivação superou o medo e eu voltei mega decidia a fazer acontecer.

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[CONTENTE] Outra coisa que me chama a atenção: você é muito obstinada, parece traçar metas, seus seguidores crescem muito! Que dicas você tem pra compartilhar com quem quer ir por uma caminho similar?

[FN] Eu realmente sou muito obstinada, haha! Quando eu coloco uma coisa na minha cabeça, ninguém me segura.

Também sou movida a metas e tudo o que eu decido fazer eu faço da melhor forma que eu conseguir. Assim que eu voltei de São Paulo eu decidi que era hora de encarar essa nova carreira como a mesma seriedade que eu sempre encarei todos os trabalhos que eu realizei na vida.

Hoje eu tenho uma rotina tão regrada quanto a que eu tinha na agência, mas trabalho com ainda mais foco porque consigo não só decidir meus horários,  mas também ver diariamente a diferença que o meu trabalho faz na vida das pessoas, coisa que não acontecia naquela época.

Fiz uma matriz do que eu precisava fazer para crescer e decidi não só colocar minha energia naquilo que eu faço melhor, mas também que conecta com mais pessoas que foi VÍDEO! Eu amo escrever, mas percebo que consigo atingir muito mais gente pelo YouTube então foquei em produzir conteúdo de qualidade para lá no início sem me preocupar tanto em estar presente em todas as redes.

O Instagram acabou entrando como complemento, já que lá eu também consigo interagir por meio de vídeo e me conectar com as pessoas de uma forma mais próxima!

Os números são o resultado disso. Quando as pessoas são tocadas por algo que muda a vida delas de alguma forma, elas querem compartilhar e isso tem acontecido com muitos dos meus vídeos!

Minha dica para quem quer seguir o mesmo caminho é testar formas diferentes de se expressar (fotos, textos, vídeos) e ficar sempre atento à resposta do público. As pessoas geralmente vão se identificar com aquilo que você faz melhor! Crie conteúdo que reflita seus valores, sua verdade. Não se prenda tanto às fórmulas de sucesso de outras pessoas. Eu, por exemplo, raramente posto fotos no Instagram, eu não gosto de tirar, acho que nada fica bom e isso consumia muita energia para pouco resultado. Desde que decidi focar nos stories, mesmo não tenho um feed todo lindo e harmônico e com todas as mudanças de algoritmo os meus seguidores não param de crescer.

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[CONTENTE] A Contente criou a hashtag #ainternetqueagentequer e gosta de perguntar sobre isso. Então, lá vai: como é a internet que você quer que exista? E o que você faz para contribuir com essa internet?

[FN] Eu adoro essa hashtag e sempre aprendo muito com ela! Eu vivi grande parte da minha vida sem internet e não consigo mais imaginar como seria a vida sem ela. Cada vez mais os mundos real e o virtual vão se misturar e a nossa vida vai se tornar um híbrido.

O problema é que as pessoas ainda separam a vida online da offline e não se comportam virtualmente da mesma forma que se comportariam pessoalmente, por isso a internet se tornou um lugar extremamente polarizado. Os neutros raramente se manifestam. Os que se manifestam geralmente tem uma opinião muito forte ou radical em relação ao que acreditam e quase nunca estão abertos a ouvir o outro lado, a aprender, a reavaliar seus pontos de vista.

Os algoritmos também acabam deixando as pessoas muito isoladas dentro dos mesmos grupos de ideias criando bolhas que não são muito saudáveis. Vivemos na era da informação, mas nunca fomos tão desinformados já que difícil se aprofundar e diversificar as fontes.

A internet que eu quero é mais livre, equilibrada, verdadeira, tolerante, respeitosa e confiável, não por acaso, são os mesmos valores que eu tento passar no meu conteúdo.

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[CONTENTE] Compartilha o que mais tem te tocado ultimamente? O que você tem vontade de contar pra todo mundo, para que mais pessoas façam parte do que te move?

[FN] Uma das coisas que mais impactou a minha vida foi descobrir a comunicação não violenta. Praticar a CNV fez com que eu melhorasse todos os meus relacionamentos, me fez ser mais empática com as pessoas em geral e me ajudou até na forma com que eu me comunico nas minhas redes sociais e nos vídeos que eu faço pro YouTube.

São pequenas nuances e mudanças tão simples que tem um impacto imensurável na nossa vida e eu queria que todo mundo conhecesse e praticasse! O melhor livro para quem tem interesse em aprender é "Comunicação não violenta, do Mashall Rosenberg.