#conversascontentes: Stephanie Ribeiro, feminista

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Mulher, negra e feminista, Stephanie Ribeiro despontou para o público a partir de seus textos, então publicados no Facebook. Enquanto algumas vozes comemoram conquistas, ela não esquece de problematizar. Como é que as atrizes negras de destaque são sempre as mesmas e tão poucas? Por que, ao falar de feminismo, as revistas estampam corpos tão parecidos? Acostumada a ver suas ideias reverberarem, Stephanie atualmente escreve seu primeiro livro, a ser publicado pela Companhia das Letras. No bate-papo a seguir, conversamos sobre como a internet tem um papel fundamental no seu trabalho.

- Conta um pouco de você e do trabalho que você faz usando a internet para levar conversas fundamentais pra mais gente?

Eu entendo que uma coisa é escrever e receber por isso. Outra é fazer meu ativismo, eu entendo que ele atua nas redes sociais e atinge mulheres para além das fronteiras dessa cidade que estou.  Mas não acredito que ativismo é profissão. Acho que tornar isso profissão seria tirar a essência necessária do ativismo. O ativismo que faço começou de uma forma um tanto quanto natural, eu estava estudando numa universidade que não possibilitava um debate aberto sobre gênero e raça - e estava sendo muitas vezes ignorada e até maltratada por outros alunos. Passei a usar as redes sociais para me conectar com aqueles que pensavam parecido comigo, comecei a usar as redes também para ler mulheres, participar de grupos de feminismo virtuais e depois escrever o que pensava. O que faço como ativista é reproduzir, ler, escrever nas redes que uso, como Facebook, Instagram e Twitter, minhas opiniões sobre gênero e raça. Com isso me conecto com mulheres, em especial negras, e vejo que por meio do que escrevo, compartilho e divulgo elas se empoderam e eu me empodero também.

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- Com a internet grupos invisibilizados ou subrepresentados ganharam espaço. O que isso significa para milhares de pessoas e para o Brasil?

 Uma disputa de narrativas. Acho que estamos disputando narrativas nas redes que podemos, mas ainda estamos em disputa. Eu falo disputa pois nós negros, e nós mulheres negras, não estamos de fato inseridos na sociedade. Não vejo negros ocupando determinados espaços e sendo entendidos como pertencentes da sociedade, ainda estamos no país que mata um jovem negro a cada 23 minutos, estamos disputando narrativas para sermos incluídos. Acho que no Brasil isso significa muito, já que por muitos anos estamos sendo silenciados. Poder disputar pontos de vistas, mesmo que nas redes sociais, já é um passo relevante para a mudança desse contexto ainda colonial e racista. Entretanto, reafirmo que isso é ainda restrito a alguns meios, em outros, como as mídias tidas como mais tradicionais, sinto que nós negros ainda não estamos presentes. Se olharmos para os principais jornais, revistas e sites de entretenimento, cultura, política, sociedade, vamos ver uma série de pessoas brancas, em sua maioria homens, escrevendo, opinando e protagonizando tudo.

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- Qual é a importância da representatividade na internet para as pessoas negras? E as mulheres negras em particular?

Acredito que isso torna pessoas negras de alguma forma visíveis e pode auxiliar para que outras se sintam representadas. No caso das mulheres negras, por exemplo, estamos em constante apagamento estético, eu sinto que uma das possibilidades que as redes trouxeram é que mulheres negras podem agora se ver em outras de uma forma mais fácil, não dependemos mais da boa vontade de uma revista para nos sentirmos representadas. Acho que isso é poderoso no sentido de conexão, me sinto conectada com muitas mulheres negras por meio das redes e acho isso poderoso em diversas camadas.

- Você fala o que pensa sempre. O que isso já te trouxe de bom? E qual foi a treta mais memorável?

Acho que eu preciso ser coerente interpretando as diversas camadas do que está posto.  Acho que o que mais me é memorável é como os casos de machismo de pessoas da esquerda, assim como casos de racismo, são invisibilizados e silenciados quando convém até mesmo para figuras conhecidas desses debates. Isso é bom no meu ponto de vista a partir do momento que é exposto, pois é isso que entendo como ativismo. Por isso acredito que é importante que isso nunca seja entendido como profissão, porque não existe a necessidade de conciliação em especial com aqueles que considero o topo da pirâmide: homens e brancos. No fundo acho que isso me traz mais rompimentos. Contudo acredito que o rompimento é o que torna o que faço ativismo, se não houvesse acredito que estaria fazendo algo errado.

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- A Contente criou a hashtag #ainternetqueagentequer e gosta de perguntar sobre isso. Então, lá vai: como é a internet que você quer que exista? E o que você faz para contribuir com essa internet?

Uma internet sem censura de ativistas. Por muito tempo tive minhas contas censuradas, bastava eu me posicionar sobre machismo e racismo, e era denunciada como alguém que propagava discurso de ódio.  Enquanto isso é recorrente, pessoas com discursos de ódio de fato propagam o que pensam e tudo bem, às vezes são pegas anos depois quando alguém resolve procurar seus tweets antigos. Enquanto isso uma série de pessoas negras e mulheres é bloqueada pelo seu ativismo. Acho que a internet, por mais que seja um lugar de disputa de narrativas para nós que somos ativistas, não é um espaço seguro e somos censurados, expostos e perseguidos, e não existem nos meios e nem fora deles formas de nos defendermos.

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 - Compartilha o que mais tem te tocado ultimamente? O que você tem vontade de contar pra todo mundo, para que mais pessoas façam parte do que te move?

 O que mais me toca atualmente é: não podemos nos cobrar demais em relação a essa realidade em que estamos inseridas. As pessoas acham que nós que somos da minoria, ou que somos ativistas, devemos resolver todos as problemáticas que sofremos. Não basta sermos as vítimas, temos que resolver tudo. Antes eu me sentia culpada demais por isso, achava que tinha que dar conta de tudo. Hoje em dia eu tento não me sentir culpada se tenho raiva, se estou cansada, se estou feliz. Me sinto livre em sentir isso e deixar que isso me impacte. Sou uma humana - e querer que eu seja a mulher negra que está sempre pronta para resolver tudo é me desumanizar.