#entrevistascontentes: Bruna, do @virandovegana

Bruna faz o perfil @virandovegana e é uma grande entusiasta da #ainternetqueagentequer. Batemos um daqueles papos muito bons sobre vida, internet, detox digital, escolhas, como ser relevante em uma rede que muda constantemente. Como é bom conversar com profundidade, né?

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- Conta sobre quem você é, o que faz e como se dá sua relação com a internet nos níveis pessoal e profissional?

Sou a Bruna. Confesso que me apresentar usando meu trabalho me incomoda um pouco. Nem sempre aquilo com o que trabalhamos expressa o que nós somos (aliás, na grande maioria das vezes não expressa). Nosso trabalho é só uma parte das várias atividades que exercemos ao longo do nosso dia ou da nossa vida. Porém, no momento, trabalho com fotografia além de ser criadora do instagram @virandovegana onde compartilho minha rotina e falo sobre veganismo, vida simples, autoconhecimento e divido minhas aventuras pela natureza em uma cidade pequena no interior de Minas Gerais.

Já estou na internet há um bom tempo e em todos esses anos sempre gostei de utilizá-la como uma maneira de dividir minhas experiências. Primeiro com blogs, depois com a fotografia e agora unindo as duas coisas. Vejo na escrita uma forma de organizar as coisas dentro de mim e um meio de dividir experiências com outras pessoas. Carrego comigo a máxima de que coisas boas devem ser compartilhadas e venho fazendo isso nos meios em que estou inserida tanto real como virtualmente. Acredito que todos nós somos pequenas ferramentas para promover a mudança que desejamos ver e por isso, vale a pena encontrar uma maneira de promover o que toca no nosso coração.

Tanto no nível pessoal quanto profissional consumo bastante conteúdo. Sou interessada por coisas novas, gosto de pesquisar sobre comportamento e novas tendências e no meu trabalho fotográfico busco novas formas de registrar com naturalidade e verdade. Uso isso como base ao realizar meus retratos: mostrar a beleza do natural e do simples.

(obs. Meu trabalho fotográfico está em @lunafotografiafeminina)

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- O que te fez ter vontade de falar de detox digital?

Sou de uma geração ávida por novidades e isso sempre me deixou extremamente ansiosa: muitas abas no computador, presença em todas as redes sociais, um desejo de estar sempre por dentro do que de mais novo existe e acontece, o medo de estar perdendo alguma coisa...Há 5 anos tive síndrome do pânico e essa foi a virada que me trouxe exatamente para onde estou. Consumia muita informação, estava indecisa sobre os rumos que queria levar para minha carreira e vida pessoal e a crise, que trouxe consigo a sensação de que eu morreria a qualquer instante, me fez parar para uma avaliação da minha vida: quem eu realmente era? O que eu queria? Se morresse naquele dia o que eu teria feito com a minha vida? Só teria vivido para consumir coisa e ideias de outras pessoas ou seria protagonista da minha existência e ajudaria a tornar o mundo pelo menos um pouquinho melhor com minha passagem por ele? Comecei a ler sobre minimalismo e espiritualidade e criei o blog Uma vida mais simples (www.umavidamaissimples.com), onde dividi minha experiência de um ano sem compras e todas as transformações pelas quais eu vinha passando nos níveis físico, espiritual e emocional. Acredito que essa foi a época em que eu mais consumi informação. Estava desesperada por encontrar sentido na minha existência e me cobrava muito por me encaixar logo em alguma coisa. Mas nunca me encaixei. Só depois de um tempo que compreendi que se eu não me encaixa em algo eu poderia criar algo novo que me fizesse sentir acolhida/inserida. Aos poucos fui encontrando um ponto de equilíbrio e dentre as muitas transformações me tornei ovolactovegetariana, depois vegana e daí veio a ideia de criar a conta no Instagram para dividir minha jornada com outras pessoas além de aprender com quem já estava nessa caminhada.

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Quando geramos conteúdo sentimos uma certa cobrança de trazer coisas novas e relevantes pra quem nos acompanha. Com a mudança dos algoritmos das redes sociais acredito que essa cobrança parece ser maior ainda: precisamos postar sempre para ser vistos, precisamos passar o máximo de tempo possível conectados e pra isso as próprias redes estão criando cada vez mais ferramentas que nos prendam a elas... Comecei a me senti sufocada. Se por um lado eu quero que as pessoas me conheçam e conheçam a causa pela qual eu falo, por outro a cobrança de estar sempre conectada e gerando conteúdo além de despertar mais ansiedade me fez questionar minhas capacidades, já que sempre tem muita gente fazendo muita coisa legal o tempo inteiro. Comecei a me sentir uma impostora. Será que eu sou boa o bastante? E se eu não for tudo isso que as pessoas pensam de mim? Acompanhando o conteúdo da Contente e vendo tantas pessoas falando sobre detox digital (coisa que confesso que jamais cogitei fazer, já que geradores de conteúdo precisam estar gerando conteúdo) tomei a decisão e fiz. Me desconectar por alguns dias me colocou em contato comigo mesma além de me fazer amadurecer a minha postura enquanto influenciadora. Há muito tempo já vinha refletindo sobre minha maneira de me posicionar nas redes das quais faço parte e sobre como interligar assuntos pelos quais me interesso e cuja pauta é de extrema importância. Não sou apenas vegana e não quero abordar apenas isso. Sou uma pessoa que se interessa por diversas questões e acredito ser importante mostrar que o veganismo é uma causa que se intersecciona com diversas outras: feminismo, consumo consciente, justiça social. O detox digital me fez enxergar a importância de reservar momentos para ser apenas eu, Bruna, sem o compromisso de registrar e dividir tudo o que me toca, vivendo apenas o momento presente.

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- Como você vê a internet hoje? Mudou muito desde quando você começou?

De 2004 pra cá (que foi quando comecei a acessar a internet) as coisas mudaram em uma velocidade imensa, tanto em se tratando da forma como nós postamos (e de como as redes sociais eram e qual seu intuito) quanto em relação às marcas, que viram nas redes sociais uma maneira de remodelar a forma de promoção. Ainda que hoje tudo seja feito de uma forma que nos instigue a nos conectar cada vez mais, vejo movimentos nos fazendo refletir sobre uma nova maneira de estar online, seja em relação ao tempo em que passamos conectados seja sobre o conteúdo que consumimos. Já que estamos sempre online e acho que seja difícil que abdiquemos das facilidades que a internet nos proporciona, que seja de uma maneira que agregue, que vá além de uma fotografia bonita, que conecte de verdade quem assimila com quem produz o conteúdo.

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- Como se manter relevante quando tem tanta gente produzindo conteúdo? Como se destacar? Como “engajar” seu público, essa palavra tão usada?

Todos querem ser “influenciadores digitais” e esse termo me incomoda um pouco, pois carrega em si a ideia de pessoas sempre felizes, vivendo suas vidas perfeitas e sem problemas, corpos lindos, viagens maravilhosas, muitos presentes sendo recebidos e os melhores rolês, além de pessoas acompanhando cada instante das vidas de outras pessoas numa espécie de reality show que nunca tem fim. Isso me assusta. É um desafio ser visto ou fazer com que seu conteúdo seja encontrado enquanto existem milhares de outras pessoas também criando, mas um ponto bastante importante é que as pessoas estão vendo que, de perto, nenhuma vida é tão perfeita assim. Acredito que uma maneira de se destacar nesse meio é ser o mais verdadeiro possível consigo mesmo e com as pessoas que te acompanham. As pessoas sentem quem é de verdade ou se é uma personagem encarnada. Talvez não de cara, mas basta um tempo a mais de acompanhamento para sacar. O grande desafio em meio a tanto conteúdo é: como se manter interessante e sendo visto sem se transformar apenas no que as pessoas querem ver e, nisso, acabar perdendo sua essência ao longo do caminho.

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- Quando você pensa em futuro se vê fazendo o que?

Difícil pensar no futuro quando tudo parece mudar de maneira tão rápida que acabamos, muitas vezes, nem conseguindo acompanhar. Mas vejo meu futuro relacionado à comunicação, seja através da fala, da escrita, da arte. Gosto muito do contato real com as pessoas e é algo que quero vivenciar mais: trazer o virtual para o mundo real. E me vejo sempre em meio na natureza que é o que sempre tocou meu coração, onde me sinto em casa.

- A Contente criou a hashtag #ainternetqueagentequer e gosta de perguntar sobre isso. Então, lá vai: como é a internet que você quer que exista? E o que você faz para contribuir com essa internet?

A #intenetqueeuquero é um espaço onde consigamos dialogar com respeito; onde as pessoas não se escondam por detrás de uma tela para disseminar ódio e intolerância com o que é diferente e onde utilizemos tudo o que essa ferramenta incrível nos proporciona para a construção de um mundo novo, seja ele real ou virtual, em que haja espaço para todxs. A #internetqueeuquero é um espaço onde as pessoas consigam ser mais independentes e críticas quando ao conteúdo que assimilam e não acreditem naquilo como se fosse uma verdade absoluta. Que tenham autonomia para pesquisar e se aprofundar antes de tomar algo como lei. Que questionem!

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Como geradora de conteúdo (e consumidora também) sempre entendi que influenciar pessoas pressupõe trazer reflexão, novos pontos de vista e possibilidades que outrora não conseguíamos enxergar. E sempre acreditei que o crescimento de uma conta em uma rede social deva ser conseqüência de um trabalho bem feito, de um conteúdo bacana e interessante (mas hoje em dia existem até aplicativos para aumentar o número de seguidores). Mas a meu ver, não se trata só de números. Se trata de tocar as pessoas. Compreendo que influenciar é usar o espaço onde tenho acesso a tantas pessoas para expor conteúdo com responsabilidade, sabendo que o que divido tem impacto (positivo ou negativo) na vida de diversas pessoas. Não que isso vá fazer com que estejamos sempre com o pé atrás sobre o que compartilhamos (porque isso acaba tirando a espontaneidade e naturalidade que cativam tanto quem nos acompanha), mas que nos instigue a aprofundar nossa visão acerca do que dividimos, sendo coerentes na nossa fala e nas nossas ações.

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- Compartilha o que mais tem te tocado ultimamente? O que você tem vontade de contar pra todo mundo, para que mais pessoas façam parte do que te move?

Enquanto vegana tenho refletido muito sobre a maneira como abordo o veganismo e sobre como as pessoas vêem a causa. Venho lendo muito sobre comunicação não-violenta e acredito que exista uma forma de expressar em que consigamos fazer com que a pessoa realmente escute o que queremos dizer e que possa beneficiar o movimento atraindo um número maior seja de adeptos, seja de simpatizantes. Através da internet conheci mulheres incríveis, mas deixo a dica da Juliana, do blog Comida Saudável para todos, que dá dicas de alimentação consciente e acessível para todos os bolsos; a Babi e Thais do podcast Outras Mamas, que fala sobre veganismo e feminismo e a Paola, do blog Não Sou Exposição, que tem uma abordagem muito importante e necessária sobre alimentação. Indico também a leitura de “Simplicidade Voluntária”, de Duane Elgin, que nos propõe escolher viver uma vida mais simples, com foco nas coisas que são importantes além de utilizar esse conceito para construir um novo mundo, mais harmônico e ético para todos que aqui habitam.