#entrevistascontentes: Carol Burgo, blogueira e criadora da Loja Prosa

A audiência está começando a cobrar esse papo das influenciadoras. Ficar calada não é mais uma opção, então quem escolhe não se posicionar está perdendo a proximidade e relevância.

Carol Burgo é blogueira das antigas, de quando a gente ainda tinha a impressão que acompanhava tudo o que acontecia na internet. Sempre gostei dela por ser do tipo vida real, que mostra o look do dia sim, mas também fala de treta, de vulnerabilidade. Há uns meses, tenho visto como ela usa os stories para falar de assuntos relevantes a uma audiência de mais de 47.000 seguidores: política, direitos humanos, depressão. E vamos combinar que não é muito comum ver essas pautas na boca das influenciadoras, né? É tão bom ver que junto com uma foto com filtro perfeitamente escolhido existe uma mulher que se descobre mais a cada dia e entende que, ao colocar suas opiniões no mundo, tudo passa a fazer ainda mais sentido. 

Fiz uma longa entrevista com ela. Ao terminar de ler, mandei um email: posso me considerar sua amiga? Tamanha foi a entrega e a generosidade dela nas respostas. Dá vontade de continuar o papo por horas, sabe? Isso é muito #ainternetqueagentequer, e eu espero que vocês gostem das respostas tanto quanto eu!

Mais: @carolburgo.

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- Carol, te acompanho há muitos anos, sempre gostei de você como blogueira que, além de look do dia, escrevia também. Hoje te admiro ainda mais porque você fala de assuntos muito urgentes, de política, de direitos humanos. Conta pra gente como é ser uma influencer que tem opinião, quando o que costumamos ver é algo mais pasteurizado?

Bom, meu blog sempre teve uma linguagem muito pessoal. Apesar de postar muitos looks do dia, eu sempre procurei trazer uma visão muito particular pros meus textos. Durante anos compartilhei diversos momentos bons e ruins nos meus textos, sempre trazendo pontos de vista bem pessoais, então de certa forma sempre fui uma influencer com opinião. Mas nunca levei isso pro lado político e acredito que foi pelo mesmo receio que toda influenciadora tem, que é o de ser atacada. Não sei dizer como nem quando essa chave virou e eu passei a falar desses assuntos mais “cascudos”, mas eu diria que foi um movimento natural mesmo. São assuntos que estão crescendo em pauta nos últimos anos e acho que estamos num momento onde não falar deles é praticamente passar um atestado de alienação. Claro que ninguém é obrigado a falar do que não se sente confortável, mas eu percebo que é urgente falarmos sobre muitas coisas, porque estamos num período tão ambíguo e turbulento, que pra mim se tornou impossível ficar calada. Todos os dias leio alguma coisa que me acrescenta conhecimento. Como não compartilhar isso? A audiência está começando a cobrar esse papo das influenciadoras. Ficar calada não é mais uma opção, então quem escolhe não se posicionar está perdendo a proximidade e relevância com sua audiência.

- Você já teve dúvida se falava desses assuntos? Se for o caso, o que te travava no processo e o que fez destravar? O que isso te traz de bom, de aprendizado, de troca? E dá alguma treta também?

Já, muitas!! Quando a gente tem uma audiência considerável (a minha nem é gigante, mas é bastante gente, né? Hehe), a gente sempre pensa duas vezes antes de falar. Dá medo de ser mal interpretada ou virar motivo de ódio gratuito pelo simples fato de que muitas pessoas nesse mundão da internet não saberem lidar com opiniões diferentes das suas próprias. E na falta de argumentos as pessoas começam a atacar o argumentador. Sempre que eu abordo assuntos mais delicados, como feminismo, aborto, direitos humanos, eu costumo ter respostas muito positivas, pessoas que pararam para me escutar e se identificaram, mudaram algum pensamento ou enxergaram determinada realidade sob uma nova ótica e isso me deixa muito feliz, mas sempre rola uma treta né? Normal. Lembro que quando eu falei de aborto no stories e escrevi sobre aborto no blog, recebi muitos comentários horríveis sobre como eu merecia morrer e não poder ser mãe por defender o aborto assistido. Não me abalei pelos comentários, mas se fosse uns anos atrás eu com certeza não dormiria depois de tantas manifestações de ódio. Hoje em dia esse tipo de comentário não tira mais meu sono, apenas me faz acreditar que devemos falar cada dia mais sobre esses assuntos e dar a cara a tapa mesmo. Quem cala, consente, já diria minha. mãe. Ninguém provoca mudanças ficando calado.

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- Como você vê a internet hoje? Mudou muito de quando você começou até hoje, né? 

Mudou muito! Eu tenho percebido uma busca por profundidade. Acho que a era do conteúdo de entretenimento esvaziado de sentido está com os dias contados. As audiências querem conteúdos mais verdadeiros, mais profundos mesmo, conteúdos que te façam pensar, refletir e aprender algo novo. Eu já tinha esse feedback quando escrevia no blog. Várias pessoas comentavam que entravam no meu blog pelos textos e não pelos looks, então já existia audiência para o conteúdo verdadeiro, pessoal, intimista. É impressionante como eu recebo muito mais respostas quando faço stories sobre política, ou livros, ou feminismo, do que quando falo de viagem ou looks, por exemplo. E isso me deixa MUITO feliz, porque eu me sinto relevante de verdade, no sentido de injetar algo novo na vida de quem me assiste. E agradeço todos os dias por ter seguidoras tão incríveis, que sempre trocam ideias, respeitam, trazem coisas novas e acrescentam na minha vida também. 

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- Como se manter relevante quando tem tanta gente produzindo conteúdo? Como se destacar? Como “engajar” seu público, essa palavra tão usada? 

Olha, eu não faço nenhum conteúdo pensando em me destacar ou engajar. Eu sou uma pessoa bem “orgânica” kkkkk. Não faço, nem falo, nem escrevo nada de forma pensada para um objetivo de números (sou de humanas! Haha), então tudo o que sai de mim é algo muito particular, muito pessoal e nasce realmente da vontade de comentar sobre aquilo no momento. A única coisa que eu tento fazer é que o meu conteúdo seja didático, simples, que as pessoas se conectem através de uma linguagem muito clara, porque assuntos complexos como diretos humanos, aborto, feminismo etc geralmente são aparelhados por termos indigestos com os quais as pessoas não conseguem se conectar e isso acaba minando debates que são muito importantes. Então eu sempre busco trazer uma perspectiva bem humana e prática, seja usando experiências pessoais, seja fazendo “performances”  (uma vez fiz uns stories usando argila como metáfora para falar de vulnerabilidade), seja lendo trechos de livros e refletindo sobre eles ali, no stories, sem edição. Acho que essa simplicidade e meu total desprendimento do que é o “conteúdo ideal” ou o “formato mais inovador” ou “o que vai engajar todo mundo”, acaba sendo a minha minha maior força. 

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- Quando você pensa em futuro se vê fazendo o que? Aliás, diz sua minibio pra quem ainda não te conhece?

Agora você me pegou! Eu não me vejo no futuro fazendo algo específico. Tenho sérios problemas de planejar coisas a longo prazo, porque a impermanência sempre foi uma constante na minha vida. Nasci no Brasil em Recife, mas aos 5 anos fui pra Portugal. Lá mudei de casa muitas vezes, mudei de escola muitas vezes (acho que estudei em uns 8 lugares diferentes). Voltei pro Brasil (Recife) com 19 anos e mudei de casa algumas vezes, mudei de agência (sou diretora de arte de formação) algumas vezes, vim pro Rio e mudei de casa outras vezes, de emprego outras vezes e mudei até de profissão. Hoje sou fundadora e diretora criativa da minha marca de roupas, na qual crio estampas feitas em tinta acrílica e impressas em tecido. E depois de tantas mudanças eu tenho essa sensação de que a minha vida nunca tem um destino certo, apenas um percurso consistente, que é o de seguir fazendo arte. Seja pintando, estampando, escrevendo, criando, não sei exatamente onde estarei no futuro, mas sei que estarei fazendo essas coisas sempre, porque as únicas coisas que a vida não tira da gente é o que somos. O resto eu não penso a respeito.

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- O que você tem a dizer para quem está do outro lado da tela e vive momentos de incerteza, de autosabotagem, de achar que não tem o que falar para o mundo?

Eu sou essa pessoa, tá? Hahaha. Me saboto demais, tenho muitas incertezas e inseguranças, mas construí uma rede de apoio maravilhosa. Tenho amigas muito próximas que não deixam minha peteca cair. Tenho uma mãe que sempre me coloca pra cima e um marido que me acha muito fantástica. E aí, quando eu tô em plena crise do “embuste”, aquele sentimento de achar que eu não sou boa o suficiente, eu converso com essas pessoas. Outra coisa que tem feito bem é seguir na contramão da autosabotagem e falar pro mundo mesmo. Qualquer coisa, por mais boba que seja, sempre vai ter alguém que vai se conectar com aquilo, que vai se sentir representada e vai interagir com você. Às vezes a gente tem a sensação de viver numa bolha onde só a gente se sente de determinada forma e quando abrimos a boca pra falar disso, descobrimos um mundo de pessoas que sente o mesmo. Percebi isso claramente quando falei sobre depressão nos stories e nesse dia recebi centenas de mensagens de pessoas agradecendo porque eu falei algo que ninguém gosta de falar e, naquele momento, elas não se sentiram mais sozinhas diante do próprio sofrimento. Portanto, falem. Todo mundo, repito, TODO MUNDO, tem algo importante pra dizer. <3

 

- A Contente criou a hashtag #ainternetqueagentequer e gosta de perguntar sobre isso. Então, lá vai: como é a internet que você quer que exista? E o que você faz para contribuir com essa internet?

A internet que eu quero com certeza é uma internet com menos ódio (mas pra isso a gente precisa compreender como nasce esse ódio) e mais ouvidos. Percebo que estamos vivendo 2 ondas paralelas e opostas: de um lado fortes debates sobre feminismo, movimento negro, representatividade, direitos humanos e a necessidade de libertar nossas existências de todo e qualquer tipo de opressão; do outro lado eu vejo um levante do conservadorismo, das ideias supremacistas, do obscurantismo religioso, do machismo, da violência gratuita. Nenhum dos dois lados consegue estabelecer diálogos, porque estamos pouco preocupados em ouvir. Eu mesma me policio e revejo opiniões o tempo todo, porque a gente não nasce com um código de conduta debaixo do braço. Tudo o que somos é construído diariamente e precisamos ser flexíveis para mudar. Eu gostaria que fôssemos capazes de ler e ouvir as histórias uns dos outros. Nenhuma ideia, boa ou ruim, nasce do nada. Nenhum comportamento idem. Por isso eu tenho falado de temas que nem todo mundo gosta de falar, porque sempre acho que é possível plantarmos uma semente na vida do outro e despertar no outro a vontade de explorar outros ângulos.

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- Compartilha o que mais tem te tocado ultimamente? O que você tem vontade de contar pra todo mundo, para que mais pessoas façam parte do que te move?

Ultimamente eu tenho lido muita literatura marginal. Estou devorando livros que contam realidades às quais eu não tenho acesso por ser privilegiada. Esse exercício de ler muito sobre vidas diferentes da minha e entender como os seres humanos chegam a determinados pontos das suas vidas, tem me feito uma pessoa mais empática em muitos sentidos. Quando a gente sai da nossa bolha e abraça o mundo do outro, a gente descobre que não somos uma ilha de vontades próprias, mas a soma de tudo que existe à nossa volta e isso determina a forma como estamos presentes no mundo. Meu marido sempre pergunta: “por que você tá sempre lendo esses livros tristes?” E eu respondo que eu gosto de entender o que leva alguém ao desespero, à violência, à loucura e à bondade. Refletir sobre essas vivências é uma forma de refletir sobre a minha própria existência. É um exercício intenso e desconfortável, mas que todo mundo deveria fazer.

Já que falei de livros que contam outras realidades, eis alguns bem interessantes: "Carandiru", "Carcereiros" e "Prisioneiras", de Drauzio Varella; "Presos Que Menstruam", de Nana Queiroz; "Holocausto Brasileiro", de Daniela Arbex; "Quarto de Despejo - Diário de uma Favelada", de Carolina Maria de Jesus; "Cisnes Selvagens", de Jung Chang; "As Boas Mulheres da China", de Xinran; "Vendidas", de Zahna Muhsen.