#entrevistascontentes: Viktor Chagas, criador do Museu de Memes

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O futuro do engajamento e da mobilização política está nos memes, ou na brincadeira política. Quem afirma é Viktor Chagas, professor e pesquisador da Universidade Federal Fluminense e coordenador do projeto #MUSEUdeMEMES, um webmuseu dedicado a compreender e documentar memes brasileiros e que circularam pelo Brasil nos últimos anos.

Como projeto de pesquisa, o #MUSEUdeMEMES procura mapear a produção bibliográfica de estudos sobre memes em todo o mundo, com um banco de dados com mais de 900 referências acadêmicas, entre livros, capítulos de livros, artigos publicados em periódicos, teses, dissertações etc. E também produz pesquisas próprias, além de construir um acervo sobre esses memes voltado ao público leigo.

Conversei com ele pra entender mais sobre a iniciativa e, perguntar, claro, quais são suas respostas para #ainternetqueagentequer. A entrevista é uma daquelas aulas boas de acompanhar, sabe?

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- Como você enxerga a internet hoje? É um ambiente diverso, é um espaço que precisa mudar muito até ser bom para mais gente? O que te encanta e o que te angustia na rede?

Acho que, antes de mais nada, a internet não é uma só. Não podemos tratá-la monoliticamente. A internet é um conjunto de protocolos de comunicação diversos, que exigem uma experiência de contextualização e letramento distintas. Um usuário que lida apenas profissionalmente com o email não necessariamente acompanhará as dinâmicas interacionais em sites de rede social. Um usuário de mídias sociais não necessariamente estará por dentro do último meme compartilhado. Há usos e experiências de consumo distintas envolvidas, há modos de atenção e engajamento diferentes. É difícil portanto avaliar o que seria uma "boa" internet. De modo geral, no entanto, compreendida como um meio de comunicação, o que devemos perseguir é que esse meio favoreça o processo democrático, aliando-se ao debate público e aprofundando pautas sociais e as experiências de letramento político da sociedade. O que mais me encanta no modelo que temos hoje, por exemplo, nas mídias sociais, é que, mesmo diante de plataformas privadas e absolutamente opacas, conseguimos fazer circular essas pautas. Temos discutido mais sobre política nos últimos tempos e ganhado uma melhor dimensão do processo político. O que me angustia é que, apesar disso, ou talvez em função disso, esse debate é ainda raso e superficial, ele não favorece uma compreensão ampla e aprofundada do processo político como poderíamos esperar, e muitas vezes se detém no nível do senso comum.

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- A Contente criou a hashtag #ainternetqueagentequer e gosta de perguntar sobre isso. Então, lá vai: como é a internet que você quer que exista?

Mais uma vez, é difícil responder a essa questão sem situar o fenômeno que estamos observando. Se falamos das mídias sociais em particular, a internet que eu quero está ancorada em plataformas públicas, de interesse público, com dados abertos e transparentes, com ampla participação civil, e que auxilie o cidadão médio a obter uma informação clara e abrangente sobre o processo democrático. Mas, na política, feliz ou infelizmente, não vivemos dos mundos ideais, como as campanhas "interativas" da Globo, mas dos mundos possíveis.

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- E o que você faz para contribuir com essa internet?

Minha atuação como professor e pesquisador universitário responde por isso. Não são poucos os alunos que chegam a uma disciplina sobre política sem o menor desejo de cursá-la, porque se sentem apartados do universo da política. No momento em que percebem que, nas palavras atribuídas a Carol Hanisch, em um dos textos clássicos da teoria feminista, o pessoal também é político, que a vida é permeada de política, então, eles se reaproximam do debate público. A contribuição que dou, portanto, não está necessariamente na internet, mesmo porque não há mais dentro e fora da internet. A internet é o mundo.

- Compartilha o que mais tem te tocado ultimamente? O que você tem vontade de contar pra todo mundo, para que mais pessoas façam parte do que te move?

Há quem julgue que os memes de internet não passam de besteirol, de frivolidades. Desde que comecei a pesquisá-los, e lá se vão sete anos na tentativa de mapeá-los e compreendê-los melhor, os memes têm se mostrado surpreendentes a cada dia. O humor perspicaz das comunidades online, a resposta rápida e cortante das mídias sociais, a sofisticação da crítica social, a sátira política, todos esses elementos me fazem entender que o futuro do engajamento e da mobilização política está na brincadeira política.

Dani ArraisComment