#conversascontentes: Sil Bahia, criadora do PretaLab

Se não vemos pessoas parecidas conosco construindo a internet tendemos a achar que esse lugar não é para nós.
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O futuro já chegou, e a tecnologia faz parte do dia a dia de mais de 65% da população brasileira. Mas quem produz as tecnologias que a gente usa? Foi a partir desse questionamento que Sil Bahia criou o PretaLab, projeto que enxerga o protagonismo das meninas e mulheres negras e indígenas nos campos da inovação e tecnologia como forma de reduzir as desigualdades sociais do país.

A iniciativa do Olabi nasceu em março de 2017, com três focos principais. O primeiro é o mapeamento, que busca respostas para a seguinte pergunta: tem mulher negra e indígena no universo das tecnologias e inovação social no Brasil? Sil já adianta a resposta: sim, são mais de 500 mulheres. A equipe do PretaLab, que conta hoje com 8 pessoas, trabalha atualmente na coleta e organização desses dados a partir de um levantamento feito com 570 mulheres.

A segunda ação é uma campanha com dez mulheres negras que atuam nas áreas. “Chamamos a cineasta Yasmin Thayná para dirigir dez vídeos a fim de inspirar outras meninas, para que elas possam considerar esse universo uma realidade para elas também.” Por último, o PretaLab realiza palestras sobre diversidade e workshops que vão desde lógica de programação ao universo da cultura maker.

Jornalista e mestre em cultura e territorialidades, Sil Bahia trabalhou por cinco anos no Observatório de Favelas, onde começou a se interessar por tecnologia. Em 2014 recebeu um convite de Gabi Agustini para produzir uma oficina de programação focada em mulheres para o recém criado Olabi, espaço de inovação social localizado Rio de Janeiro que tem como objetivo de trabalhar na promoção da diversidade na produção de novas tecnologias.

Na época ela também quis fazer o site do filme “KBELA”, sobre a relação da mulher negra com o cabelo crespo. “Entender um pouco sobre linguagem de programação foi um divisor de águas na minha trajetória, porque nunca achei que pudesse entender sobre isso. De lá para cá, eu quis saber cada vez mais, porém o que mais chamou minha atenção foi pensar em quem produz as tecnologias que a gente usa, e o que muda quando ela é sempre produzida por pessoas diversas." No ano seguinte, foi convidada para trabalhar no Olabi como coordenadora de comunicação. “Circulei muito nos eventos de inovação e tecnologia no Brasil e fora também e fui percebendo que a presença de mulheres era bem baixa, mas de mulheres negras era quase que uma raridade.”

O PretaLab surgiu a partir de um desejo de ver mais meninas negras e indígenas produzindo tecnologias, construindo e ocupando espaços. “Aprender a programar fez com que eu me sentisse muito capaz, empoderada mesmo, e achei que outras meninas poderiam sentir algo semelhante.”

Dados são política

O PretaLab conseguiu chamar atenção para uma pauta que não era falada: a questão da interseccionalidade de gênero e raça nesses campos da tecnologia e da inovação. “Sem dado não tem política. Sabemos que os dados orientam as políticas e sem dados é como se o problema não existisse.” Sil observa que hoje muitas pesquisas dão conta da questão de gênero, mas reforça que é difícil descolar gênero e raça. “Sobretudo quando falamos de Brasil, que esse ano completa 130 da abolição”, pontua. “Ou seja, mulheres negras e brancas têm um abismo de diferença quando falamos sobre questões de acesso, escolaridade, violência e por aí vai... 16% é a porcentagem de mulheres que ingressam nos cursos de TI: quais mulheres são essas?”

O objetivo maior do PretaLab é influenciar uma política de acesso e permanência dessas mulheres que estão na base da pirâmide social do país. “Existe um conceito super usado atualmente que é a geração cidadã de dados e nós, de alguma forma, nos encaixamos nessa categoria. Porque ainda que o nosso mapeamento seja informal, feito a partir de uma articulação em rede, porque não somos uma grande organização como a FGV, por exemplo, mas pedimos para que as meninas/mulheres compartilhassem conosco suas histórias e visões de mundo em relação a inovação e a tecnologia, e tem muita coisa legal que dá para pensar a partir dessa coleta.”

Representatividade

Tecnologia é conexão, possibilidade de transformação. “Vejo a tecnologia muito menos como uma questão técnica e mais como uma questão política.” Quando grupos que historicamente foram subrepresentados encontram espaço na internet, uma mudança acontece. “Estar nesse espaço é fundamental, como em qualquer outro espaço. A questão é que como a internet é algo central nas nossas vidas hoje ela se faz muito importante, não apenas como ferramenta mas como meio. E se a gente não vê pessoas parecidas com a gente construíndo a internet a gente tende a achar que esse lugar não é para nós.”

Sil acrescenta que as decisões e o poder passam pelo digital hoje. Conhecer os processos e as ferramentas digitais, portanto, são questões centrais no contemporâneo. “De alguma forma quando a gente fala de descentralização de conhecimento, democratização de acesso, a gente está falando também de novas economias, e queremos que mais pessoas possam ter a possibilidade de criar, de aprender sobre esses assuntos. Pessoas diferentes, mulheres negras, jovens de periferias, e não as que estamos acostumadas a ver no centro dessas decisões.”

No entanto, um grande contingente da população ainda não tem acesso à internet. E boa parte que já o tem enxerga a internet apenas como uma rede social. “Temos um desafio que é contribuir para que a população tenha uma maior qualidade na relação com as tecnologias.”

Como ela enxerga a rede? “Acho que a internet é um ‘faca de dois legumes’: um lugar hostil para mulheres, pessoas negras em geral, pessoas trans, porque ela reflete o comportamento da sociedade, que é machista, racista e homofóbica, mas por outro lado, ela traz um mar de possibilidades em relação a conexão, troca de experiências, conhecimento e, sobretudo, à chance de criar memória e referência positiva sobre muitos assuntos que até então eram pautados por um único referencial, um único padrão.”