#conversascontentes: Fernanda Monteiro, do Maria Lab

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Majoritariamente, a internet é feita por homens do Vale do Silício. E esses homens, em geral, são brancos, heterossexuais e privilegiados. Isso quer dizer que a “visão de mundo” da internet que usamos hoje é pautada nessas referências. Sabemos, no entanto, que o mundo é bem mais diverso. Então, quais as implicações de ter uma internet dominada quando, na verdade, ela poderia ser espaço para múltiplas vozes?

Fernanda Monteiro é programadora e uma das fundadaos da Maria Lab, um espaço de discussão feminista da tecnologia que surgiu da experiência de algumas pessoas com hackerspaces, espaços de criação e de troca de saberes. E a MariaLab faz isso por meio de cafés (evento mensal), tentando chegar nos espaços cada vez mais públicos e nas periferias. E também com a Vedetas (projeto de segurança e autonomia), que ajuda coletivos e pessoas feministas a criar liberdade e consciência política nas ações em rede dentro e fora da internet, com segurança e privacidade. “Todos os espaços de tecnologia podem ser espaços de atuação e presença das pessoas feministas, com todos os tipos de acesso, pensando sempre nas possibilidades de cada corpo, mente e visibilidade política.”

Quando falamos da importância de ampliar a capacidade de programação para mais pessoas, Fernanda declara: “A importância de aprender programação, a importância não capacitante, é que ela nos dá mais margem de tempo e análise para focar no que realmente importa, uma vez que aprendemos como abstrair as complexidades com o código. O código nos permite analisar milhões de informações e dados complexos e terminar de copiar milhares de arquivos ou renomear regras diárias maçantes. E, assim, podemos tirar mais fotos, conversar mais tempo no almoço, pensar mais sobre outras coisas complexas que, talvez, gostaríamos de codificar também.”

Na entrevista abaixo ela fala mais desse e de outros assuntos.

Com a internet grupos invisibilizados ou sub-representados ganharam espaço. O que isso significa para milhares de pessoas e para o Brasil também?

Uma das grandes evoluções da rede mundial, desde o hipertexto, foi a democratização da informação. Este foi um dos maiores avanços científicos saídos da academia para a população mundial em larga escala. Mas não podemos esquecer que a natureza da informação enquanto processo e agrupamento não apenas serve um propósito de pesquisa, mas também um poder bélico, e as tecnologias de informação nascem como um aparato militar. Não para menos, apesar da democratização e das mudanças de paradigma na inclusão digital, o movimento político das redes sempre está ligado a uma disputa de poder que acaba criando muito mais “armas” do que “ferramentas” sociais.

Desde 2007, período em que comecei a participar do ciberativismo já vendo movimentações como a morte de Aaron Swartz e a ascensão do Partido Pirata, o surgimento de Anonymous e sua dualidade e os primeiros momentos da criação de uma mídia descentralizada, comecei a pensar e dizer que “a persona digital era a reverberação do indivíduo político atrás do computador” (talvez com palavras mais modestas). Por isso, costumo dizer que a internet é um território distópico para os grupos historicamente vulneráveis, marginalizados e sub-representados: no cenário mais otimista, os números e a representatividade alcançados na internet, sob o modelo físico do bioma da internet, são números reais; logo, temos o melhor e o pior a dizer sobre isso: os números destas pessoas têm crescido naturalmente, e sim, o acesso destas pessoas ainda é mínimo comparado a uma demografia realista da população. O que me assombra, de fato, é que, se são reverberação, isso mostra a grande diluição que este cenário representa: a projeção dessas pessoas, como massa crítica, é praticamente a mesma do universo político fora da internet, pois em nada se compara com as hordas de bots que carregam discursos de ódio feito pelas hordas conservadoras, nem com a projeção dos grandes grupos hegemônicos, nem com a velocidade com que se espalha a anti-informação e o anti-fato conduzido por veículos de massa extremistas com relação às trocas de conhecimento feitas por estes grupos, e com o desgaste que sofrem ante ao impacto desses ataques.

Qual é a importância da representatividade na internet para as pessoas negras? E para outros grupos identitários também?

Se tudo mais é perverso, o que sobra de positivo para se dizer disso tudo é o sentimento de pertencimento que existe ao se conectar com outras pessoas dentro de mídias descentralizadas, que te tornam capazes de produzir e interagir com pessoas que também produzem, e encontrar seus pares. E na condição mais paralisante, ainda encontrar estes pares na condição de produtores e semeadores de conhecimento. Ainda que isso não nos impeça, como pessoas, de produzir contra-informação, ou equívocos, e ainda que as mídias sociais atuais sejam locais direcionais e com tecnologias sociais totalitaristas (a partir da psicologia e da neurologia) voltadas à discussão, ao desentendimento e à desinformação, é extremamente relevante ver estas mídias ocupadas por identidades não-normativas engajadas politicamente e intelectualmente, pois esta sempre foi a referência das nossas populações. Entretanto, antes elas vinham de uma mídia que moldava nossas aparências, nossas identidades, nossos comportamentos; agora, nos permite ver pessoas que, muitas vezes, apenas são.

O que tecnologia significa para você?

A primeira coisa a ser desmistificada sobre tecnologia é a necessidade de envolver um elemento computacional ou eletrônico, porque se tornou um motor de vendas da nossa sociedade. Tecnologias são ferramentas do conhecimento, são o uso hábil deles. Logo, dominar qualquer conhecimento é uma tecnologia. É preciso habilitar as pessoas a usarem tecnologias, mas primeiro é preciso dizer a elas quais tecnologias elas possuem. E ao pensar em quais tecnologias elas têm acesso, especialmente as populações mais segregadas, precisamos pensar muito no que é a tecnologia: é a lata d’água na cabeça, que amarra na corda do açude. É o módulo instalado no carro com o isolamento da caixa selada. O ponto-cruz. Automação, engenharia acústica, renderização. Tecnologia para quem acessa é conhecimento. Para a tecnocracia e datacracia que vivemos, como bem aponta Luli Radfahrer, é caos da informação. Para quem é inserida nela, é reconhecimento.

O que é, hoje, a internet para você? Como você acha que a internet vai ser em um futuro próximo, de 5, 10 anos?

A tecnologia dos próximos 5 anos já é a projeção de muitas coisas que há 5 considerávamos mitos, bem como a tecnologia de hoje é a que há 5 anos considerávamos grandes apostas: se hoje temos as técnicas de inteligência artificial, os blockchains e os chatbots como realidades tecnológicas dentro das novas economias, da disputa de narrativas jornalísticas, dos novos formatos de educação, estamos vendo os estudos do grafeno e do silício negro acelerando as possibilidades de uma computação quântica, a técnica de ensinamento e retroalimentação da máquina (e não só aprendizagem de máquina) criando contextos únicos não apenas nas áreas mais imediatas da biotecnologia, mas hipóteses até então inimagináveis, com relação à digitalização do corpo e da consciência do ser humano e a sua exploração no espaço virtual, da realidade aumentada à multisensorialidade.

Com possibilidades tão complexas e tão novas, a internet dos próximos anos será o território das subjetividades: ao passo que, da mesma forma que o território espacial, sua exploração em máximo potencial poderá estar diretamente ligada às condições do poder político e econômico, no âmbito tecnopolítico também teremos, assim como na corrida espacial, lugar para as mais belas revoluções criadas pelas novas oportunidades no acesso à liberdade de conhecimento, a luta pelos direitos digitais diretamente relacionada aos direitos fundamentais e ao princípio da integridade humana, a igualdade no acesso à informação e a autonomia e descentralização do poder. Todos estes elementos insurgentes, quando trazidos ao conhecimento, entendimento e domínio tecnológico das também insurgentes populações historicamente oneradas pelos modelos que até então representavam a velha internet (um resultado da velha sociedade), são um vislumbre da base que tem sido construída nestes cenários recentes de discussão, a passos lentos. Para se construir o backbone da internet que conhecemos, foram necessários praticamente 40 anos de um processo tecnopolítico. Diante disso, o que tem sido construído na última década e constitui o backbone dessa “nova internet”, uma infraestrutura muito menos física e mais sociocultural, parece muito promissor apesar do momento sombrio em que vivemos.