O que aprendemos com as fake news durante essas eleições

A gente ficou bem preocupada nesses últimos meses. Recebemos muitas fake news, muitas falas distorcidas e muita história mal contada. Vimos brigas e apelações. Vimos amizades acabarem, famílias se rompendo e pessoas perdendo o emprego. Vimos o jogo virar e vimos muito jogo sujo.

Definitivamente, essa não era a internet que a gente queria. E podemos imaginar que muitos de vocês também não. Mas, então, quem quer a internet assim?

Em pesquisa recente do Datafolha, descobriu-se que 60% dos eleitores que indicavam preferência pelo candidato do PSL se informavam por Whatsapp. Entre os eleitores do candidato do PT, a porcentagem ainda era alta, de 38%.

Se unirmos essa informação ao fato de que, em 2013, 48 milhões de pessoas possuíam Whatsapp no Brasil e hoje este número subiu para mais de 120 milhões, podemos facilmente concluir a amplitude e a força que tem o disparo de uma mensagem pelo aplicativo.

E, neste ponto, independe se a mensagem é verdadeira ou falsa. Em pesquisa feita pela Universidade de Minas Gerais sobre fake news, uma vez enviada a mensagem, a chance de ela vir a ser reparada (depois de corrigida) é muito pequena.

Há alguns anos a manipulação na internet tem se mostrado bastante eficaz para alavancar ideias e mobilizar pessoas (para o bem e para o mal). E o Whatsapp ainda tem um outro ponto inquietante. Como o aplicativo é criptografado, essa rede acaba virando uma deep web, pois documentos podem ser compartilhados sem rastreamento e sem o menor critério.

Isso contraria inclusive a atual Constituição Federal do Brasil, que defende a liberdade de expressão, mas faz uma ressalva : “é vedado o anonimato”.

Situação difícil de resolver por agora, uma vez que prezamos pela liberdade de expressão, mas também nos desassossegamos com mensagens falsas que podem desde atrapalhar seu relacionamento com um amigo ou vizinho, como até mudar os rumos de leis e da democracia do país.

Mas por que acreditamos nas mentiras? E por que insistimos em acreditar nelas mesmo depois que são indicadas todas as provas contrárias?

A resposta não é simples. Pode vir desde a nossa propensão a crer, estimulada pelas religiões. Como pode ter relação com o nosso hábito passivo diante do jornalismo clássico. E também com nossa vontade de pertencimento: como a gente discordaria de algo que toda nossa tribo concorda? Achamos ainda um dado, divulgado pela revista Superinteressante, que informa que as pessoas tendem a acreditar naquilo que mais se assemelha com a forma como elas interpretam os fatos.

Aliado a isso, vem algo mais assustador: os gráficos psicológicos. Estudos minuciosos feitos sobre a psicologia humana (e usando os seus dados das redes sociais) somados à tecnologia de ponta conseguem definir claramente o tipo de conteúdo que vai te chamar atenção e… Tá sentado? A forma de manipular para as ideias que eles querem.

Parece cenário de literatura distópica! Essa história é tão pavorosa e tem tanta cara de conspiração que a gente está deixando as fontes de pesquisa aqui no final do texto e te convida ainda a fazer a sua própria pesquisa, sua própria análise e a tirar suas próprias conclusões (o que a partir de agora fica combinado que deve ser feito sempre, ok?).

Então, o que podemos fazer para diminuir este impacto?

Talvez seja tarde demais para estas eleições. Não estávamos preparados para lidar com tanta mentira profissional. Porém, se não começarmos agora, o risco é ainda maior.

Separamos algumas dicas simples : 

  • A primeira dica é obviamente desconfiar e buscar as fontes;

  • Se a notícia não parte de nenhuma fonte conhecida ou com reputação jornalística, busque mais, procure entender as motivações. Pode ser que seja verdade, mas pode ser que seja boato;

  • Em caso de imagens, você pode jogar a imagem no Google Images. Ele vai procurar a imagem real para você e assim poderá comparar;

  •  Você também pode encaminhar a notícia para a assessoria de imprensa de quem está ligado aos fatos e pedir esclarecimentos;

  • Alguns sites são especializados em verificação de notícias falsas. Jogue o título da sua notícia nesses sites e verifique se já foi apurado. Alguns deles são o E-farsas, Aos fatos, Boatos.org, Agência Lupa e Agencia Pública ;

  • Algumas notícias usam números de leis que não existem ou falam de projetos de lei como se já fossem leis. Uma dica é saber que projeto de lei está indicado com PL na frente. Além disso, toda lei é pública. E ela pode e deve ser conferida no sites oficiais como o do Planalto. Você pode jogar o número da lei no Google mesmo e ele te direcionará para as páginas oficiais de leis federais, estaduais ou municipais ou te indicará os trâmites quando os projetos ainda estiverem em votação.

É preciso que todo mundo se torne meio cientista diante da informação recebida. A era da passividade no conteúdo acabou. E essa é a internet que a gente quer, feita por quem busca entender e compartilhar o mundo real. Como diria o incrível cientista Carl Sagan, “eu não quero acreditar, eu quero saber". A gente gosta muito de pensar assim!

Sempre que puder, tente explicar para seu amigo ou familiar que a notícia é falsa e mostre suas fontes. Se você estiver recebendo conteúdo por um contato desconhecido ou falso, pode também denunciá-lo no próprio aplicativo.

Por fim, ajude a estimular a alfabetização midiática. “Para ensinar a verdade não é necessário mentir", diz o humanista argentino Gonzalez Pecotche. As pessoas devem buscar entender os motivos daquilo estar sendo divulgado da forma como está e as razões de estar sendo editado como está. Faça perguntas, converse, analise.

E conta pra gente, como você faz para conferir a veracidade de uma informação ?

Algumas fontes da nossa pesquisa:

 Correção não abala crença em fake news

Como o Whatsapp virou uma realidade paralela e perigosa no Brasil

 Vídeo informativo sobre o caso Bannon e as últimas eleições no Brasil

Vídeo informativo sobre Whatsapp, a deep web de bolso

A ciência explica por quê caímos em fake news - texto da revista Superinteressante

Como denunciar fake news no whatsapp

Pesquisa Datafolha: um em cada 5 brasileiros compartilha notícias de política em Facebook e Whatsapp

Como as Fake News podem ser um incentivo para a alfabetização midiática

The Guardian: Cambridge Analytica e Facebook (em inglês)

The Guardian: o caso Brexit, o roubo de dados e o abalo da democracia (em inglês)

Imagem: @tangerine.illustration