Questionar nossa relação com a internet é a chave para um futuro com mais sentido

 David Baker na The School of Life, em São Paulo. Foto: Clarissa Amorim

David Baker na The School of Life, em São Paulo. Foto: Clarissa Amorim

Em 2013 entrevistei o David Baker para o Don’t Touch My Moleskine. Fui reler as respostas agora e me impressionei com a extensão e a profundidade da conversa. E também com o quanto tudo que foi dito ali continua tão atual. Leiam, se puderem! Por uma vida mais off-line.

Isso só reforça a ideia que temos de pensar em internet para além do tempo presente. Precisamos entender o que significa estar tão conectado, tanto no campo pessoal quanto nos aspectos social e político. Só assim vamos conseguir desenvolver consciência e usar a rede da melhor forma possível. #ainternetqueagentequer, né?

Agora vamos à entrevista com esse cara que  por anos foi editor-chefe da versão inglesa da revista Wired, a bíblia da tecnologia, e hoje atua como professor na The School of Life, a escola criada por Alain de Botton e Roman Kznaric. Já entrevistei ambos – e as conversas foram dessas bem boas: “Escola da vida” criada em Londres planeja versão brasileira + Como encontrar o trabalho da sua vida.

Baker está no Brasil para uma conversa na próxima terça-feira, em São Paulo, com Silvio Meira, um dos criadores do Porto Digital. Eles vão falar sobre Tecnologia e inteligência emocional, e não vejo a hora de acompanhar esse papo para ter ainda mais insights.

– A tecnologia é ótima, nos ajuda, nos faz ir além. A impressão que dá é que hoje estamos reféns dela, em vez de sermos protagonistas no uso que fazemos dela. Como podemos equilibrar isso?

Acho que nós precisamos começar a ver a tecnologia como uma ferramenta, do mesmo jeito que vemos um martelo, um relógio, uma calculadora. A gente tem essas coisas na vida, mas não as usamos o tempo todo, apenas quando precisamos dela. Com a internet é diferente, somos encorajados a permanecer conectados o tempo inteiro. E isso acontece porque as companhias de internet querem cobrar mais dinheiro de seus anunciantes. Quanto mais estamos online no Facebook, mais o Facebook fatura. Eu gosta da ideia de tirar pequenos temos fora do mundo online, desligando a internet dos nossos telefones, deixando só a possibilidade de receber SMS. Veja como você se sente. Dessa maneira nós podemos redescobrir o que estamos perdendo quando estamos olhando para nossas telas – e descobrindo que tirar um tempo offline não é tão ruim assim.

– A conversa sobre “vida perfeita no Instagram” soa até um pouco velha. Ainda assim, é comum falarmos do quanto idealizamos o outro, o quanto isso nos angustia. Qual é a chave para mudar de percepção em relação a esse assunto?

Quase todas as imagens que as pessoas postam nas redes sociais as mostram em uma luz boa, um momento bom. E isso pode nos deixar ansiosos porque dá a impressão de que as outras pessoas estão sempre sorrindo, sempre com os amigos, sempre curtindo – e nós sabemos que as nossas vidas não são assim. Mas é óbvio que todo mundo tem seus maus momentos, às vezes se vê horrível, se sente só. Elas só não postam. Então não nos damos conta. Uma maneira de driblar isso seria fazendo o “Instagram da Verdade”, que mostraria todo mundo o tempo inteiro. Rapidamente aprenderíamos que quase todo mundo vive uma vida comum. Mas isso seria perturbador, uma terrível sociedade vigiada. Uma solução melhor seria nós pararmos de fazer esforço para parecermos sempre bem no Instagram e, em vez disso, trabalhar para ter bons encontros cara a cara com os nossos amigos. Então nós vamos descobrir que eles – e nós – somos mais diversos, normais e interessantes do que nossas presenças na internet.

– Vivemos uma época de polarização, fake news, confrontos. A internet potencializa diversas vozes. Muitas radicalmente opostas ao que acreditamos. Como manter a sanidade diante do tribunal que se tornou o Facebook?

Saia do Facebook. Encontre pessoas com opiniões diferentes. Fale com elas, de ser humano para ser humano.

– Quais são os momentos em que você dá uma escapadinha e acaba sucumbindo ao apelo da tecnologia? Aliás, como você equilibra esse uso no seu dia a dia?

Eu amo tecnologia, é muito divertido. Mas tento usá-la apenas por um tempo. Tenho um Macbook e um iPhone, e isso é tudo. Não tenho um Amazon Echo ou um Fitbit ou qualquer outra coisa parecida porque prefiro o mundo não eletrônico ao eletrônico. Se existe uma solução tecnológica para fazer algo e uma não tecnológica, eu vou tentar usar a segunda. Eu tenho um pequeno caderno que carrego no bolso da calça, junto com um lápis, e isso é muito melhor para escrever as ideias que tenho e as coisas do que qualquer app de “produtividade”. E mais: não precisa recarregar a bateria.

– O que podemos fazer para viver melhor com internet 24/7 em nossas vidas?

A internet não tem que ser 24/7. Nós podemos decidir quando usar e quando não usar. Tente se desconcetar por pequenos períodos e, depois, vá aumentando. É surpreendente o que nós não estamos perdemos.

– Para onde a internet aponta no futuro? 

Nossa grande força como seres humanos é nossa capacidade de questionar o status quo. E é essa curiosidade inquieta que levou a quase todos os avanços humanos, da invenção de ferramentas a técnicas para erradicar a pobreza até envio da sonda espacial Voyager para o espaço interestelar. Gostaria que fizéssemos esse questionamento agora para o nosso relacionamento com a tecnologia digital, do ponto de vista pessoal – eu realmente preciso estar online e olhar para o meu telefone em todo o tempo em que estiver acordado? – para o político – podemos reinventar a internet para eliminar notícias falsas e ataques cibernéticos em potências estrangeiras? São esses questionamentos que tornarão o mundo digital ainda melhor, assim como as pessoas que fizeram campanha pela saúde e a segurança dos trabalhadores nos primeiros dias da Revolução Industrial tornaram a indústria ainda melhor.